quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Coreia do Norte: fraca e abusada

A estratégia da dinastia King Jong, que exerce uma implacável ditadura comunista na Coreia do Norte, tem-se mostrado a aparentemente feroz e louca, mas, quando vista de perto, pode-se constatar que ela é fraca e abusada.
Francisco Vianna
A mídia estatal da Coreia do Norte – lá não existe mídia privada nem qualquer liberdade de expressão – publicou no domingo passado que o líder norte-coreano Kim Jong Un ordenou ao seu mais alto escalão de segurança do país que tomassem "medidas substanciais e de alto perfil importantes", não explicando, exatamente, em relação a que, o que tem sido amplamente interpretado como a Coréia do Norte estar se preparando para levar adiante seu terceiro teste nuclear. Kim disse que as ordens eram de “retaliação à pressão liderada pelos EUA para aumentar as sanções da ONU a Pyongyang”, impostas após o teste de mísseis da Coréia do Norte em outubro último.

Kim Jong-Un assistindo em Pyongyang à parada militar em honra do 100º aniversário de nascimento do fundador do país e seu avô. Kim Il-Sung, 15 de abril de 2012. Foto: AFP/Getty Images
Poucos dias antes da declaração de Kim, os norte-coreanos disseram que testes futuros teriam como alvo os Estados Unidos e que a Coreia do Norte considera a América como seu principal inimigo – juntamente com a Coreia do Sul, considerada um “instrumento a serviço de Washington”.
O uso da ameaça dos testes nucleares por parte da Coreia do Norte funciona como uma arma psicológica contra, principalmente, os seus vizinhos da região e, mais remotamente, contra os Estados Unidos. Isso vem acontecendo há anos. Todavia, aparentemente, a ameaça de testes como esses parecem não afetar, pelo menos os EUA, tanto quando tem afetado os países próximos e, ao que parece, começa a afetar também a própria China, que ao que tudo indica não parece mais disposta a apoiar a dinastia ditatorial dos Kim Jongs tão incondicionalmente quanto fazia antes. Nem sequer lhe envia mais alimento suficiente para mitigar a fome e a miséria imposta à população do vizinho pelo socialismo despótico de Pyongyang.
Trata-se de uma estratégia mais circense do que militar ou mesmo geopolítica. Se falharem nesses testes, os norte-coreanos parecerão fracos e se tiverem sucesso parecerão perigosos, mesmo que, na verdade, os testes não empreguem qualquer ogiva nuclear. A fanfarronice norte-coreana faz pensar exatamente que eles não dispõem de ogiva nuclear alguma, pois se assim fosse, o desenvolvimento de capacidades nucleares estaria confinado ao mais absoluto segredo de estado, como historicamente as nações nucleares fizeram. Quando então tais ogivas estão prontas, aí, sim, elas são exibidas pelo simples motivo de mostrar que o país tem de fato algo sólido e real para ameaçar seus inimigos.
Mas a Coreia do Norte tem usado essa estratégia por anos e com sucesso, pelo menos no sentido de amedrontar a vizinhança, em especial, os sul-coreanos. Então o que parece absurdo na aparência, obviamente não é. Pelo contrário, a manobra provou ser muito eficaz. Mas, como “malandro demais de atrapalha”, quanto mais essa eficácia aumenta mais faz com que sua aliada chave, a China, mais se afaste dela. De fato, os chineses progressivamente se mostram preocupados com possíveis aventuras nucleares no seu, por assim dizer, quintal.
Mesmo assim, os EUA, a China, o Japão, a Rússia, e a Coreia do Sul têm buscado se sentar à mesa de negociações com os norte-coreanos, numa tentativa de persuadi-los a não construir ogivas nucleares. Às vezes, as grandes potências dão a Coreia do Norte dinheiro e alimentos para mostrar que elas não têm quaisquer intenções hostis em relação ao país, bem como quaisquer dos seus vizinhos. Por vezes Pyongyang concorda em suspender seu programa militar nuclear, mas logo em seguida o retoma, usando a manobra como fonte de obtenção de ajuda e favores, cujos recursos, infelizmente, nunca beneficiam diretamente a população pobre e miserável. Também, o país nunca completa a construção de um artefato nuclear bélico, mas não para de frequentemente ameaçar testar um. E, nas raras vezes em que consegue levar adiante tais testes, sempre alega que os testes são direcionados aos EUA e à Coreia do Sul, como se os testes fossem, em si, uma ameaça a esses países.
Estima-se que a Coreia do Norte tenha um PIB de cerca de US $ 28 bilhões, quase o mesmo da Letônia ou do Turquemenistão. O problema é que o politburo socialista obediente a King Jong-un usa a maior parte desses recursos para financiar projetos como esse, deixando o povo passar fome (como aliás é típico dos socialismos).
Há um certo brilho na estratégia da Coreia do Norte. Quando do colapso da União Soviética, a Coreia do Norte ficou em sérias dificuldades econômicas com a cessação dos envios de alimentos. Muita gente morreu de fome. Havia expectativas razoáveis ​​de que o seu governo iria brevemente entrar em colapso, levando a uma possível unificação da península coreana. Na verdade, o objetivo do governo norte-coreano foi a sobrevivência do regime e não do seu próprio povo e até hoje alega que foi pelo medo de que as potências externas pudessem invadir o país ou apoiar um levante interno. O país achou que era necessária uma estratégia que dissuadisse qualquer nação, grupo ou pessoa de tentar isso.
Sendo fraca em todos os sentidos, isso não seria algo fácil de se levar adiante, mas os norte-coreanos desenvolveram uma estratégia que foi descrita há mais de 10 anos como sendo “feroz, louca, fraca e abusada”. A Coreia do Norte tem seguido tal estratégia desde a década de 1990, e a mais recente manifestação dela foi o que ocorreu na semana passada. E a estratégia funcionou como sempre tem funcionado.

UMA ESTRATÉGIA DE TRÊS PARTES
A primeira parte, com os norte-coreanos se posicionando de um modo aparentemente feroz, parecem ter ou estar na iminência de possuir o poder devastador das armas nucleares. Na segunda parte, eles passam a fazer o papel de país coitado, paupérrimo e fraco, de tal forma que não importa o quanto eles sejam ‘ferozes’, pois não têm nada a perder, já que a fome e a doença os estão matando de qualquer forma. E a terceira parte, eles passam a se fingir de loucos, ou seja, a mostrar que estariam dispostos a tudo, inclusive à autoaniquilação, de tão susceptíveis que são de se envolver em riscos inimagináveis ​​à menor provocação. É essa parte que, realmente, tem preocupado a China.
No início, a capacidade de Pyongyang parecer feroz foi limitada ao poder teórico do exército norte-coreano atingir e invadir Seul. Ele tinha acumulado artilharia ao longo da fronteira e, em princípio, poderia devastar a capital do Sul, desde que o Norte tivesse munição suficiente para fazê-la funcionar e poder aéreo suficiente para lhe dar apoio. O problema não era ir para o sul e tomar Seul, mas ter realmente a capacidade de fazer isso e, em seguida, suportar a reação dos sulcoreanos e seus aliados. Como não tem e nem nunca teve, isso jamais aconteceu.
Todavia, tal atitude aparentemente feroz de Pyongyang – embora sem a menor capacidade de concretizar suas ameaças – foi útil no sentido de desencorajar a Coreia do Sul e seus aliados em tentar minar o regime ditatorial nortista. Seu passo posterior foi o de começar a desenvolver mísseis e armas nucleares seguindo a ‘estratégia de ferocidade’. Os vizinhos sabiam que de nada adiantava enfurecer o regime norte-coreano tentando miná-lo, uma vez que nada valia a pena o risco de ter uma guerra nuclear na península.
Muitos países têm tentado fazer esse jogo da “ferocidade”, mas os norte-coreanos adicionaram um aspecto brilhante e sutil a ela: o de “ser fraca”. Os norte-coreanos propagandearam a fraqueza da sua economia (uma vez que já era tão evidente a fraqueza de sua política), particularmente a sua insegurança alimentar, pelas mais variadas maneiras. Isto não foi feito de modo ostensivo e aberto, mas, conveniente e planejadamente, permitindo rápidas visões dessa fraqueza. Tal prática fez com que o resto do mundo desconsiderasse a Coreia do Norte como uma possível ameaça real e tal era a dificuldade de vida no país que passaram a achar que não era necessário assumir o risco de tentar destruir o regime de Pyongyang, pois ele fatalmente entraria em colapso a partir de dentro de si próprio, tamanhos eram os seus defeitos e malefícios cometidos contra o seu próprio povo.
Apesar de uma ‘ferocidade’, com base em armas questionáveis, ser uma ameaça não quantificada, tal situação fez com que os países no seu entorno a tratassem com um excesso de cuidado. Por que arriscar deflagrar sua ferocidade quando suas insuperáveis fraquezas a destruiria? Na verdade, o debate entre os especialistas ocidentais sobre o poder da Coreia do Norte versus suas fraquezas provocaram uma paralisia dos planejadores de políticas no Ocidente e na região.
Os norte-coreanos adicionaram, então, uma terceira camada para aperfeiçoar tudo isso. Eles passaram a se autorretratar como loucos, se esforçando em parecer imprevisíveis, em função de ameaças extravagantes e parecendo desejar um guerra. Às vezes, chegaram mesmo a tomar medidas altamente provocadoras, como quando afundaram alguns navios da marinha sul-coreana e alvejaram ilhas sob a soberania de seu vizinho do sul, sem aparentemente qualquer razão para isso. Como num jogo de pôquer, pode-se jogar contra muitos tipos de apostadores, dos que compreendem verdadeiramente as possibilidades de uma mão aos que estão na mesa simplesmente para se divertir, mas não se pode, nunca, apostar em pôquer contra um doido, pois ele é completamente imprevisível e se você jogar como ele joga jamais saberá o que poderá acontecer.
Assim sendo, enquanto a Coreia do Norte permanecer “feroz, louca, fraca e abusada”, a melhor coisa a fazer é não irritá-los demais e não se preocupar com que tipo de governo eles têm ou mesmo se seu povo está ou não morrendo de fome e de doenças facilmente tratáveis e curáveis hoje em dia. Conseguir isso, no entanto, parece ter sido cumprida a parte fácil da estratégia norte-coreana; já, manter essa aparência feroz e maluca representa algo bem mais difícil de conseguir. Não apenas os norte-coreanos têm que manter sua pose de ferocidade, mas, também evitar ao máximo que ultrapassem o seu efeito dissuasivo, eventualmente causado por suas fraquezas e loucuras.

UM PROGRAMA NUCLEAR CAUTELOSO
Daí então, temos o eterno programa nuclear norte-coreano, que nunca chegou a produzir um artefato nuclear sequer, mas, no entanto, ninguém pode dizer com certeza se o programa pode fazê-lo a qualquer momento.
O regime de Pyongyang luta para se transformar numa espécie de Caixa de Pandora para o mundo. Pelo fato da difundida percepção de que os norte-coreanos são ‘loucos’, acredita-se amplamente que podem a qualquer momento acelerar e completar a produção de algumas ogivas nucleares e irem à guerra mediante a mais leve provocação. Como resultado disso, os EUA, a Rússia, o Japão, a Coreia do Sul e a própria China têm mantido encontros com representantes norte-coreanos, na tentativa de persuadi-los a não cometer qualquer loucura bélica, mesmo não nuclear.
Por trás dessa aparente loucura e ferocidade, é interessante observar que a Coreia do Norte nunca toma qualquer iniciativa significativamente perigosa, ou pelo menos perigosa o suficiente para mudar o seu padrão e passar da retórica à ação militar.
Desde a Guerra da Coreia, a Coreia do Norte tem calculado cuidadosamente suas ações, imprimindo a elas o adequado ‘timing’ para evitar qualquer providência que possa forçar uma reação maior. Tal cautela se reflete também em seu programa nuclear e, após mais de uma década de uma muito alardeada e pública ferocidade, os norte-coreanos ainda não chegaram sequer perto de produzir e ter a capacidade de usar uma ogiva nuclear. Mas, pela crença de que, caso fiquem zangados, eles possam eventualmente fazer isso, então a melhor aposta do resto do mundo tem sido a de monitorá-los e tentar obter deles, gentilmente, uma persuasão no sentido de não cometerem qualquer ato insano.
A verdade é que o mundo nunca demonstrou tanta paciência com um país quanto demonstra com a Coreia do Norte, talvez pelo aspecto de sofrimento humano e pelas terríveis necessidades que o regime socialista de Pyongyang impõe ao seu povo amplamente escravizado pelo politiburo da dinastia Kim-Jong.
O posicionamento da Coreia do Norte é soberbo: o mínimo de ações arriscadas, apenas o suficiente para manter a credibilidade de sua ‘ferocidade e loucura’ e acrescidas de manobras infindáveis de ameaças retóricas, as quais, no conjunto da obra, fazem com que a Coreia do Norte seja vista como uma das principais ameaças globais aos olhos das grandes potências. Tendo assumido tal posicionamento, os norte-coreanos não parecem dispostos a arriscá-lo, mesmo que alguns dos seus vinte líderes vomitem suas ameaças verbais.

COMO A CHINA – E SEU PUPILO IRANIANO – VÊ ISSO TUDO
Todavia, parece estar emergindo desse quadro uma nova dimensão, em função do prolongado esforço que, ao longo dos anos, os Estados Unidos, o Japão e Coreia do Sul têm feito para que os chineses intercedam e contribuam para persuadir os norte-coreanos a não fazer nada precipitado e perigoso. Tal padrão diplomático se estabeleceu de modo tão firme que, hoje, todos desejam saber qual é o papel real da China neste ‘imbroglio’. A China está atualmente envolvida em disputas territoriais com aliados dos EUA no sul e no leste do Mar da China. Duvida-se que alguém possa ou se disponha a ir à guerra por umas poucas ilhas nestas águas, mas a situação ainda é digna de nota e, como diz a anedota, não se trata apenas do ‘valor intrínseco dos galináceos’...
Chineses e japoneses têm sido particularmente hostis entre si nas últimas semanas – em termos retóricos, é claro – e promovendo uma movimentação constante de navios de guerra na região. Uma crise na Coreia do Norte, particularmente uma na qual Pyongyang teste uma arma nuclear, inevitavelmente iniciaria uma dança diplomática na qual os americanos e os japoneses interpelariam os chineses a interceder junto aos norte-coreanos, ou talvez nem fosse preciso tal apelo.
Os chineses fatalmente se sentiriam obrigados a isso, pois de há muito eles vêm com olhos inamistosos a possibilidade de detonações nucleares tão perto de casa. Assim, interceder também não seria um grande problema para Pequim, uma vez que, tendo detonado um artefato nuclear, a Coreia do Norte não parece interessada a ir mais além do que isso.
Na verdade, Pyongyang estará exibindo, com a medida, sua proverbial atitude por algum tempo. Os chineses tratam os norte-coreanos como pivetes abusados, mas americanos e japoneses – que temem terrivelmente a ferocidade, a loucura, e a fraqueza dos norte-coreanos – ficarão agradecidos à China por desmontar a "crise". E quem poderia ser tão bronco a ponto de levantar questões sobre ilhas comerciais ou de menor importância, quando a China tem usado o seu poder para forçar a Coreia do Norte a desistir delas?
É impossível para o Ocidente saber o que os chineses estão realmente pensando, e não há base conhecida para se presumir que chineses e norte-coreanos estejam colaborando, mas nota-se que a China tem demonstrado um crescente interesse em estabilizar a Coreia do Norte, embora tenha feito pouco para minimizar a fome e melhorar a economia do país. Da sua parte, a Coreia do Norte tem mostrado uma tendência a espetacularizar tais crises – e as subsequentes intervenções chinesas – por vezes bem úteis para Pequim.
Também se deve notar que outros países têm aprendido a ser ferozes, loucos, e a manobrar por parecerem ao mesmo tempo frágeis como a Coréia do Norte. O Irã é o melhor exemplo disso. A ditadura islamofascista persa tem convincentemente se auto-retratada como sendo feroz, através de seu programa nuclear que não para e muito publicamente prossegue adiante com seu polêmico programa longe das vistas da ONU, sem nunca, também, obter sucesso suficiente.
O Irã, como a Coreia do Norte, também é persistentemente visto como fraco, perpetuamente enfrentando crises econômicas e turbas raivosas de jovens empunhando iPods. Se o Irã pode se fingir de fraco tão habilmente quanto a Coreia do Norte, isso ainda precisa ser verificado. O Irã simplesmente não passa pela fome por que passa a Coreia do Norte.
Além disso, a retórica iraniana, por vezes, pode certamente ser considerada louca: Teerã tem cultivado cuidadosamente a percepção de que faria uma guerra nuclear, mesmo que isso signifique a morte de todos os iranianos. Como a Coréia do Norte, o Irã também tem conseguido manter a sua forma de governo e de sua soberania nacional. Previsões infinitas da queda iminente da teocracia fascista islâmica, perante uma nova geração, provaram ser falsas.
Não quero parecer estar criticando a estratégia do "feroz, fraco e louco". Quando se joga com uma mão fraca no pôquer, tal estratégia pode trazer benefícios eventuais demonstráveis. Ela preserva regimes, centraliza as decisões como um importante ator internacional e pode obter concessões de grandes potências. O Irã pode ser forçado a ir longe demais, no entanto, quando o medo da ferocidade e da loucura mina o raciocínio dos seus oponentes, não lhe sobra muito para tirar vantagens de sua fraqueza.
A diplomacia é a arte das nações buscarem atingir seus objetivos, sem recorrer à guerra, que é a alternativa para a falência diplomática. É particularmente importante para as pequenas nações isoladas sobreviverem sem ter que ir à guerra. Como em muitas coisas, o paradoxo de parecer disposto à guerra, apesar de todos os cálculos racionais aconselharem o contrário, pode ser a base para se evitar a guerra. É uma boa estratégia, e para a Coreia do Norte e o Irã e, por enquanto pelo menos, ela tem funcionado.Título e Texto: Francisco Vianna (Informe Geopolítico), quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

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