quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Minha Santa Maria!

Foto: Felipe Dana/AP
Carlos Lúcio Gontijo
Venho de muitos anos de redação de jornal e nunca vi com bons olhos o noticiário sensacionalista por que se faz guiar a imprensa brasileira, onde o comum é os fotógrafos e cinegrafistas apresentarem para o público a mancha de sangue no chão, como se tal comportamento não fizesse parte tanto da crescente banalização da violência quanto alimentador do desapreço pela vida. Em síntese, toda e qualquer catástrofe é jogada no ventilador de todos os lares, numa verdadeira disseminação do sangramento, da morte, da dor e do sofrimento coletivo.
Não há sequer espaço para a divulgação de poesia no mundo jornalístico, apesar de a poesia ser fator de sensibilização do ânimo humano. Recentemente, movendo-se contra aqueles que menosprezam a arte poética, especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa concluíram que a poesia é mais eficaz que livro de autoajuda, segundo estudo da Universidade de Liverpool. Revela-nos os pesquisadores ingleses que palavras incomuns ou utilizadas em estrutura semântica (e metafórica) complexa levam o leitor a refletir sobre si mesmo, dentro de outra perspectiva. Ou seja, a poesia não é só uma questão de estilo: a descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento de cada leitor.
Nossos meios de comunicação estão por demais envolvidos em cuidar de seus interesses políticos e comerciais para se preocupar com a implantação de jornalismo mais reflexivo, no qual a opinião inaugurasse um novo tempo para o segmento impresso da comunicação, que se perdeu ao se encaminhar para a opção de competir com a internet e sua característica de acompanhar os acontecimentos em tempo real, com muita imagem e pouco texto, o que levou os jornais a se encherem de fotos coloridas e notícias rápidas, numa espécie de fast-food noticioso.
Difundir de maneira maciça a tragédia que se abateu sobre as famílias dos jovens mortos em boate de Santa Maria (no Rio Grande do Sul), hoje um perfeito sinônimo de “minha nossa ou Nossa Senhora”, em nada ajuda na conscientização da sociedade brasileira em relação à implementação de rigorosa normatização para a indústria de entretenimento, que só tem pensado na promoção de grandes eventos sem o devido cuidado com a segurança.
É bom que se diga e se enfatize que houve um tempo no qual a qualidade das composições musicais, que se nos apresentavam acompanhadas de letras bem elaboradas, chegavam até a amenizar a constatação do baixo índice de leitura existente no Brasil. Ou seja, assistimos ao surgimento de uma arte musical inteiramente descartável e direcionada tão-somente a atender aos apelos momentâneos de uma estação ou mesmo de um período como o Carnaval, quando somos constantemente surpreendidos pela veiculação de músicas apelativas e de duplo sentido.
Contudo, se não nos bastasse ter os nossos filhos e netos entregues a uma cultura recheada de falsos valores, ainda nos deparamos com os riscos derivados da ganância dos tais empresários da indústria de entretenimento, que desabridamente assumem riscos descabidos a cada montagem de show, nos quais aos sons dissonantes se mistura a extrema necessidade de chamar a atenção a qualquer custo, inclusive com o despropósito de soltar fogos-de-artifício em ambiente fechado e repleto de material reconhecidamente inflamável.
Para nosso azar, não há quem possa colocar um paradeiro no avanço do mau gosto patrocinado pela indústria de entretenimento, pois alicerçamos nossa democracia pós ditadura militar num desastroso “é proibido proibir”, do qual toda bandidagem tira proveito, ganhando vez e voz em nome da liberdade de expressão e do ir e vir, ainda que seja com uma metralhadora nas mãos.
O fogo que consumiu a boate em Santa Maria estendeu sua língua incendiária Brasil afora, inquietando ainda mais os lares de todos os brasileiros, onde pais e avós passam noites e madrugadas sob o signo da insônia, à espera de jovens que são convidados, sistemática e diariamente, a se entregar a versos de valor pra lá de duvidosos, além de alienantes, capazes de levar a menina de 12 anos a se pintar com sensualidade de mulher feita.
Talvez eu seja antiquado, pois venho de um tempo em que o errado era errado e o certo era certo, ao contrário dos dias de agora, nos quais a libertinagem é confundida com liberdade, com todos agindo como se não existisse o bem e o mal; com os cidadãos, indistintamente, obrigados a viver atrelados uns aos outros, numa democracia fundamentada na balbúrdia, na anarquia e na impunidade.
Na realidade, poucas são as boates e casas noturnas abarrotadas de jovens brasileiros que podem ou conseguiriam escapar do fogaréu invisível em que arde o dístico "ordem e progresso" de nossa bandeira verde-amarela. Pelo andar da carruagem, diante de um modelo capitalista vampiresco em busca de lucro e acompanhado por um jornalismo embebido em sangue, só nos resta dependurar réstia de alho na entrada de nossas casas e, agarrados a um crucifixo, pedirmos para que Santa Maria nos ajude e nos proteja!
Título e Texto: Carlos Lúcio Gontijo, Poeta, escritor e jornalista, Secretário de Cultura de Santo Antônio do Monte, 30-01-2013

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