segunda-feira, 16 de julho de 2018

É demasiado simples tratar Trump como um bebé-balão

José Manuel Fernandes

Dir-se-ia que um elefante numa loja de porcelanas não provocaria tantos estragos. No espaço de uma semana, o Presidente dos Estados Unidos desvalorizou a NATO, atacou de forma violenta os líderes de dois dos seus principais aliados – a Alemanha e o Canadá –, tuitou que a União Europeia era um adversário dos Estados Unidos, tratou de interferir nos assuntos internos do Reino Unido e trocou cumprimentos e amabilidades com Vladimir Putin. Dir-se-ia que só podemos, e devemos, tratá-lo como os manifestantes de Londres, que trataram de insuflar um gigantesco bebé Trump, birrento e de fraldas.

Contudo... contudo aquilo que começamos a ler na imprensa internacional, na mais conservadora e na mais esquerdista, é um alerta: por detrás do furacão e da aparência de caos pode haver uma lógica, e sem entender essa lógica nunca saberemos como enfrentar os desafios desta nova ‘desordem’ internacional. Eis por isso alguns textos que nos ajudam a ir um pouco além do cliché.

Primeiro ponto: por detrás da descortesia e da brutalidade das palavras, há muitas verdades naquilo que Trump disse. Ou há, pelo menos, verdades em que muitos acreditam, mas que calam. Isso mesmo sublinhava hoje no The Times de Londres Matthew Parris em Donald Trump tells us truths we don’t want to hear: “Donald Trump doesn’t care to think too much before he speaks and has a habit of saying what he thinks. And the trouble with us, not him, is that what he thinks is what plenty of more genteel and considered folk do actually think, but don’t like to say. Trump’s right, isn’t he, about the European end of Nato not pulling its weight in defence spending? His criticism of Germany for free-riding has been heard in European corridors of power for decades, but more quietly.

Segundo ponto: gostemos ou não de Donald Trump, há uma coisa que tem de se reconhecer, ele tem feito o que prometeu fazer. Isso mesmo notou o ex-primeiro-ministro da Austrália, Tony Abbott, numa palestra reproduzida pela Wall Street Journal, An Ally Sizes Up Donald Trump. Eis uma parte do seu argumento: “Erratic and ill-disciplined though Mr. Trump often seems, there’s little doubt that he is proving a consequential president. On the evidence so far, when he says something, he means it—and when he says something consistently, it will happen. He said he’d cut taxes and regulation. He did, and the American economy is at its strongest in at least a decade. He said he’d pull out of the Paris climate-change agreement and he did, to the usual obloquy but no discernible environmental damage. He said he’d scrap the Iranian deal, and he did. If Tehran gets nuclear weapons, at least it won’t be with American connivance. He said he’d move the U.S. Embassy to Jerusalem, and he did, without catastrophe. He said he’d boost defense spending. That’s happening too, and adversaries no longer think that they can cross American red lines with impunity.”

Terceiro ponto: não se pense que toda a má imprensa que o inquilino da Casa Branca está a ter no seu país afeta por aí além a sua popularidade, algo que Cas Mudde (autor de um livro recente sobre populismo) defendeu no The Guardian em The Nato summit proves Europe doesn't get Trump – or the US: “The last week once again showed that Europe understands neither Trump nor the United States. Europeans see Trump as an aberration, whose policies are not just out of touch with their own priorities and values, but also with those of the majority of Americans. They feel strengthened by US foreign policy elites, who for decades have made policies without much public input or scrutiny. (...) Trump is certainly a different political leader and US president. His style is unique, but he mainly says out loud, and more vulgarly, what many Americans, including political elites, think in private. America First has always been the motto of US foreign policy, even if previous presidents believed this was better achieved through a (US-dominated) liberal world order. The sooner Europeans come to turns with that, and start planning for a future without US dominance, the better.”


Este é um argumento que se aproxima do de dois analistas portugueses, João Marques de Almeida (que escreve no Observador) e Jorge Almeida Fernandes (do Público). O primeiro, em Os tweets de Trump, dá um conselho aos mais sentenciosos: “O comportamento da administração Trump pode colocar em causa instituições e alianças centrais para a segurança e o bem-estar económico dos europeus. Mas, apesar de um comportamento errático, há uma estratégia política. O poder e a importância dos Estados Unidos exigem que se tente entender a estratégia de Trump, sobretudo quando se discorda dela. Deixo assim um conselho aos nossos cronistas e políticos. Chega de queixas e de lamentações que não servem para nada. Façam um esforço para analisar e compreender. Terão a humildade suficiente para o fazer?

Já o segundo dá um interessante contributo para esta reflexão em O cisne negro, onde estabelece um paralelo entre a ocorrência deste presidente e a quase total improbabilidade de ocorrer um cisne que não branco: “Donald Trump representa um acontecimento extremo, imprevisível, que desfaz os esquemas estabelecidos e põe em causa a própria noção de Ocidente.”

No mesmo Público Teresa de Sousa discorre sobre precisamente os desafios que este “cisne negro” coloca à Europa, fazendo-o de uma forma mais próxima da ortodoxia europeia mas sem deixar de sublinhas que a eficácia de Trump deriva muito de ele ter enterrado o dedo em feridas vidas. Em Um cenário de pesadelo nota mesmo que “Quando acusa a Alemanha de ser a principal responsável pelo gigantesco défice comercial dos EUA em relação à União Europeia, sabe que está a tocar num ponto sensível para outros países europeus, que criticam o enorme excedente comercial alemão, acusando-o de desequilibrar as contas externas de outras economias europeias. Quando singulariza a política de imigração da chanceler, sabe que está a tocar noutro ponto particularmente delicado, em que as suas ideias começam a ter eco. Pode não dominar os pormenores e ignorar muitos dos factores que sustentaram a relação transatlântica, mas sabe exactamente o que quer. E o que quer é um verdadeiro pesadelo para a União Europeia, já de si a braços com problemas políticos enormes.”

Que fazer então? Duas respostas possíveis: 
·        Bullied by Trump, here’s how Europe can punch back defende Paul Taylor no Politico Europa: “Overall, Europe can make multilateralism work better where its tools are strongest — but it is not yet living up to its own ambitions.The biggest obstacle to assuming more responsibility for the multilateral system is the EU’s own debilitating internal divisions. Beggar-thy-neighbor squabbles over cross-border migrant flows, east-west differences over the rule of law and an open society, efforts by northern countries to rein in Franco-German leadership, and perennial interinstitutional squabbles in Brussels all sap Europe’s international ambitions. (...) But Europe would be wise to plan on doing more for itself and with like-minded partners in case the darkness in Washington gets worse and lasts longer than we all hope.”
·        Reciprocity Is the Method to Trump’s Madness, escreve Victor Davis Hanson na conservadora National Review, num texto onde procura explicar a lógica que sustenta a acção de Trump: “A rich and powerful U.S. was supposed to subsidize world trade, take in more immigrants than all the nations of the world combined, protect the West, and ensure safe global communications, travel, and commerce. After 70 years, the effort had hollowed out the interior of America, creating two separate nations of coastal winners and heartland losers. Trump’s entire foreign policy can be summed up as a demand for symmetry from all partners and allies, and tit-for-tat replies to would-be enemies. Did Trump have to be so loud and often crude in his effort to bully America back to reciprocity? Who knows? But it seems impossible to imagine that globalist John McCain, internationalist Barack Obama, or gentlemanly Mitt Romney would ever have called Europe, NATO, Mexico, and Canada to account, or warned Iran or North Korea that tit would be met by tat.”

Para o final desta recolhe guardei um texto do antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães, que escrevendo na mesma National Review procura explicar Why We Need a New Transatlantic Alliance. É um texto onde recorre à sua experiência pessoal para defender que a Europa, e a Alemanha em particular, devem mudar de atitude: “As for Merkel, she too is captured by her own instincts. Many times during the euro-zone crisis I could see how — when pressed hard in private meetings — she would inevitably return to a binary opposition between following the rules and sliding into barbarism. But rules-idolatry did not serve her well then and will not serve her well with Trump. Germany today has direct economic relations with Russia and China, so it makes little sense that it continues to delegate its defense to Washington — defense against, oddly, the same countries it does business with. Nor can it expect the United States to be more generous than any other bloc on trade, when it is precisely Germany — with a current-account surplus amounting to 8 percent of GDP — that is most in need of an open trade system.”

Espero que alguns destes textos ajudem os leitores desta newsletter a colar os cacos que a passagem do elefante pela delicada e periclitante loja de porcelana que é a Europa dos nossos dias deixou espalhados por toda a parte. De resto, despeço-me com votos de que tenham um bom descanso ajudados por boas leituras. 
Título e Texto: José Manuel Fernandes, 16-7-2018

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