domingo, 15 de julho de 2018

Será isto tão difícil de compreender?

Rui A.

Uma empresa é uma conjugação de recursos humanos e materiais, com o objetivo de prestar serviços a clientes (mercado) e, com isso, obter um resultado financeiro que cubra os custos correntes, permita o eventual crescimento do negócio e remunere o capital e o esforço investidos (lucro).

Quando uma empresa apresenta resultados negativos anuais sucessivos, isso pode significar duas coisas que, em última análise, redundam numa só, que é a última das duas: que a empresa produz bens e serviços de que o mercado não necessita; que a empresa é mal gerida, isto é, que a afetação dos seus recursos não cumpre os desígnios necessários aos seus pretendidos fins.

Vindo isto a propósito desta notícia sobre a CP, várias coisas se tornam necessárias ponderar.

Primeiro, a decisão dos atuais governantes em reverterem o processo de privatização em curso lançado pelo governo anterior. Na altura, a coisa foi posta como sendo a defesa dos interesses nacionais e da população, que a privatização – visando o maldito lucro – poria em causa. Analisada a decisão pelos seus resultados, a CP encontra-se à beira de uma iminente e ruinosa falência, a que a decisão conduziu.

Segundo que os serviços que a CP presta ao país são necessários e têm clientes. Bastará ver, por exemplo, a permanente indisponibilidade de lugares nos Alfa, por sinal os comboios mais caros da companhia, para se tirarem conclusões. E estas só podem ser que, como a empresa tem clientes e presta um serviço fundamental ao mercado, ainda por cima em regime de monopólio, a sua situação financeira só pode ser explicada por má gestão da empresa.

Terceiro, que a empresa já estava em situação financeira muito grave quando os anteriores governantes a quiseram privatizar. Aliás, foi por isso mesmo que o tentaram fazer: para desonerarem o estado de mais responsabilidades no pagamento das dívidas sucessivamente acumuladas por uma gestão incompetente e irresponsável, entregue frequentemente a boys and girls dos partidos do regime.

Quarto, sobre o futuro da companhia: como não foi privatizada, mas a sua atividade não poderá cessar, por mais falida que esteja, os aportes de capital necessários a que continue a trabalhar serão cobertos pelo estado. E, como quem diz estado diz contribuintes, será mais uma conta – e uma conta muito pesada – a cobrir pelos nossos impostos, com o sacrifício de (quase) todos.

Quinto, como o estado entrará com o dinheiro estritamente necessário à satisfação das necessidades mais urgentes da empresa, ele servirá apenas para pagar aos credores imediatamente indispensáveis à continuidade da sua atividade, pelo que não sobrará qualquer dinheiro para investimentos. Ou seja, as condições de funcionamento da CP vão continuar a degradar-se e os clientes serão cada vez pior servidos.

Sexto, e último, qual seria a diferença, para os consumidores, da privatização da CP? Porventura os carris desapareceriam? Os comboios deixariam de circular? Claro que não: a empresa seria vocacionada para ter lucro, isto é, para ter mais clientes e servi-los melhor, porque, de outro modo, passariam a fazer os seus trajetos de outro modo – carro, camionete, etc., e a empresa continuaria a acumular prejuízos. Com a vantagem de que seriam os novos donos da companhia a assumirem os custos do passivo e os de investirem num negócio que, sem prosperar, estaria condenado ao fecho e à perda do capital investido. O que, obviamente, nenhum investidor deseja.

Em conclusão: empresas + privatização + lucro = serviço público e satisfação dos clientes; e empresas + estado + gestão partidária ruinosa = prejuízo + mau serviço + aumento de impostos. Tudo o resto é preconceito ideológico. Será isto tão difícil de compreender?
Título, Imagem e Texto: Rui A., Blasfémias, 11-7-2018

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