segunda-feira, 13 de abril de 2020

A epidemia de oportunismo

Estão todos caladinhos no seu confinamento moral assistindo aos arroubos de tiranetes pelo país afora — governadores e prefeitos excitados com o estado de exceção viral

Guilherme Fiuza

Ronaldo Caiado mandou caçar um trabalhador em casa e levá-lo para uma delegacia. Ronaldo Caiado é um governador de Estado. A delegacia estava fechada pelo confinamento, mas foi aberta especialmente para fichar o cidadão — ou, em português mais claro, para intimidá-lo. Para coagi-lo. Para ameaçá-lo. O crime do cidadão foi repudiar a violência da polícia de Caiado contra uma trabalhadora. Ou seja: o governador de Goiás defende seus atos violentos usando a violência. É um homem coerente.

Esse tipo de ação brutal está acontecendo em vários pontos do território nacional sob a justificativa de combater um vírus. No Rio de Janeiro, concretizando as ameaças públicas do governador Wilson Witzel de prender o cidadão que circular além do limite que ele deixa, a polícia arrastou de forma animalesca duas mulheres que andavam na orla.

Você está há anos vendo e ouvindo evocações constantes à ditadura militar como alerta para os perigos que rondam a democracia brasileira. Bolsonaro foi recebido como uma ameaça à democracia. Temer foi recebido como uma ameaça à democracia — as reformas trabalhista e fiscal foram denunciadas até no exterior como o início de uma guinada autoritária da elite branca e velha contra o povo (tinha a PEC do Fim do Mundo e outras pérolas). Fernando Henrique Cardoso foi recebido como uma ameaça à democracia — o Plano Real era um golpe neoliberal e a privatização da telefonia era um ato fascista, tudo em conluio com representantes da ditadura, como Antonio Carlos Magalhães.

Curiosamente, após umas três décadas ouvindo a resistência democrática alertar para a volta da ditadura, hoje você está ouvindo o silêncio.

As duas cidadãs que foram barbarizadas pela polícia na orla de Niterói (RJ) ficaram gritando sozinhas. Os meganhas chegaram em velocidade e atravessaram sua viatura na avenida litorânea, trancando o trânsito como se estivessem na captura de um comboio de assassinos. Vários homens armados cercaram as duas mulheres — vamos repetir: vários homens armados — e as arrancaram de seu caminho à força para empurrá-las para dentro da viatura.

Essa cena brutal e ditatorial — de verdade, não de filme — não comoveu um único humanista de plantão. Não indignou um único ativista da resistência democrática. Não inspirou um único arauto do apocalipse fascista. Não revoltou uma única feminista. Estão todos caladinhos em seu confinamento moral assistindo aos arroubos de um tiranete e seus brucutus fardados, ou melhor, de vários tiranetes pelo país afora — governadores e prefeitos excitados com o estado de exceção viral.

Em Maringá (PR), os boçais legalizados e armados a serviço do tiranete local estrangularam no meio da rua, até o desmaio, um rapaz que estava lavando um carro. Silêncio absoluto da OAB, da ABI, das ONGs, das Anistias, dos Maias, dos Observatórios, Human Rights e vigilantes associados. Todos os megafones ficaram com defeito ao mesmo tempo. Todos presenciando e consentindo a brutalidade estatal do conforto de seus confinamentos conscientes.

O que terá acontecido com tanta solidariedade? Com tanto amor pela liberdade?

Vai aqui uma pista singela. Examine o que todas essas autoridades locais, entidades de classe e movimentos sociais estavam fazendo antes da chegada do corona. Antecipamos aqui o que você vai encontrar no Google: dez entre dez deles estavam tentando sabotar a agenda de reconstrução do país. Fazendo política (rasteira) enquanto fingiam defender a democracia contra o inimigo imaginário. Será que quem faz política rasteira fingindo defender a democracia é capaz de fazer política rasteira fingindo defender a vida? Isso você não vai achar no Google.

A paralisação sem precedentes das atividades econômicas e sociais vai gerar uma destruição abismal de valores materiais e humanos nas sociedades. Quanto mais longa a paralisação, mais extenso será o estrago — e mais desfiguradas estarão as instituições. O cenário de terra arrasada costuma ser fértil para os oportunistas e os parasitas. A OMS já informou que as frentes de contágio agora estão dentro das casas. A FAO já alertou para o risco iminente da escassez de alimentos no mundo com o atual estado de imobilização. É um cenário complexo que traz vários dilemas — mas para os talibãs do confinamento total é tudo muito simples: não se mova.

O tempo vai esclarecer tudo isso. E não vai demorar. Mesmo com todas as estatísticas voadoras, que não distinguem mortos com covid de mortos por covid — o que é grave. Mesmo com fotografias de covas no Brasil circulando o mundo com a mensagem falsa e criminosa sobre uma mortandade que não havia — e não há, ao menos por enquanto, em nenhuma projeção honesta que constatará diversas epidemias contemporâneas mais letais.
Até o remédio para tratamento do coronavírus foi politizado e ideologizado de forma chocante. As mentes estão gravemente infectadas. Esse tipo de epidemia não tem remédio no mercado — e não costuma acabar bem.
Título e Texto: Guilherme Fiuza, Revista Oeste, 10-4-2020, 07h38

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