sexta-feira, 10 de abril de 2020

[Aparecido rasga o verbo] De trivela e sem firula

Aparecido Raimundo de Souza

DIZ UM VELHO AXIOMA, por baixo de sob má capa jaz um excelente pinguço. É o meu jeitão e bem posto que aos outros deixa na crença de que eu de nada sou. Mas nunca ninguém nem me não viu trocando as pernas, chamando urubú de meu louro, ou disfarçado de poste, em alguma rua deserta, fazendo xixi em cachorro. Memos ainda beijando mulher feia, por mais que eu tivese em antes derramado à impostura  por cima de dentro da goela. Mantenho a linha e as idéias, ainda que o mundo fique girando em ao redor de mim mesmo, como se eu fora solitário sol de um sistema planetário de cachaça e de batida...

Razão tenho de para ser comedido em nas minhas beberagens. Quem tem rabo de palha até de vaga-lume sente medo. Por falar em rabo, me recuso terminantemente a me sentar-me de traseiro em poltrona menor que os glúteos não me caibam, porque conheço, de antemão, meus favorecimentos naturais. Falar alguma coisa além do aqui está dito, é igual contrariar a concepção original e intelectual de que uma onça, embora tenha quatro patas,  poderá pegar quatro caminhos diferentes. Voltando ao foco, num desses aqueles dias doidos, eu saí da linha feiamente.

Todo jacaré tem seu momento de lagartixa, e me apequenei-me em num pileque brabo de confudir vela com osso, alhos com bugalhos e caçar rolinha com caçarolinha. Me envergonhei-me do passado vexame. Não sou de catar piolho em calvície. Buscar agulha em palheiro é querer dar nó em junco. Tenho os meus quereres e vontades fundamentadas. Vou ao no  que vou. Por uma coisa mantenho ponto-de-vista fechado: não gosto de bicha. Me explico-me: que por nome de bicha não quero dizer a fila dos portugueses, mas o aquele que não procura  prazer natural do sexo completamentar, na querida metade.

Por bicha chamo o desnaturado que só se denga meloso a abusar da maçaneta para um outro de igual sexo e idêntica falta de gosto. Entre mulher velha, desdentada e medonha, e um traveco bonito e jovem, não careço nenhum, ainda que se o mundo estivesse para acabar, eu ficaria com a engelhada, ou, no pior dos castigos, partiria para solitárias manobras arejando a pevide  ou afogando o ganso numa bacia de privada de banheiro de rodoviária. Sozinho vivo até hoje. Em casa de ferreiro, espeto de amieiro: se muita mulher conheço, no ora-veja me quedo-me na minha própria privança.

Nos domingos e feriados, tir-te de para lá os estorvos, que D. Juan sou eu mesmo, sem falsa modéstia. Por mais longo que o verão, não seca a água onde há agrião. Para a bela oposta faceira e gostosa estou sempre pronto, por menor que a abstinência. A idade é besteira. Se tenho sessenta e sete anos no avançado da vida, conto só vinte na ânsia de continuar firme e forte. A idade dos janeiros e marços vividos é o que um sente, não o que fica aniversariando, contando velinhas e recebendo “parabens” sem mérito. Reza a lenda dos antigos, que em fogo velho arde melhor a lenha verde.

Aí foi que num dia de ogano estava eu em num bar, manguaçando as tripas com os meus amigos, quando ela surge esplendorosa e esfuziante em uma minissaia que nem nunca tão curta eu vi. E nós todos a brincar perante com ela, a dizer besteiras de sobre sua visível formosura. Ela calada muito ficou, até que umas poucas disse, me dando atenção de preferência. Se belo e inimitável me pareceu o visual, ruim de por tudo era o áudio: uma voz de taquara rachada, de vadia louca, inconfundível. A boi ruim é que a ele lhe crescem melhor os cornos.

Por que é que em numa tanta elegância havia de fincar-se  essa voz de falsete? Sei que vexame às vezes a gente passa, por enganar-se com coisa pouca. Meus companheiros riram, e até me aplaudiram quando lasquei um tapa por cima de na bochecha da sem-vergonha. Sóbrio de todo, não sou de agredir ninguém. Mas bebido um pouco eu até que tinha, e, ainda por cima, não gosto que de bobo me façam. Sê besta! De puta é distancia que eu quero. Vai que ela recua com a tapona, e, o ver que eu no masculino a batizara, levanta a minissaia, zangadamente, com uma sem-cerimônia nenhuma, baixa até os joelhos a  rendada calcinha de muito azul: ali eu vi o que só mulher feminina tem, de muita sedução e leve penugem.

Acho que nem não havia risco de ninguém não se enganar. Parecia que legítima, com sem nem tirar nem pôr. No ao que ela se recompõe-se, me envergonhei-me demais. Meus amigos também sentiram o vitupério do embuste, e muitos pedidos de por desculpas lhe fizemos ouvir-nos, em nosso ferido orgulho de conhecedores. Mas que o som de sua boca se igualava como de muita mundana que ouvi, eu nem não tinha como não achar. E a trouxe-a para até a mesa, com duzentos dedos, dando-lhe um braço e lhe falando mesuras ao  pé do ouvido. O tempo passamos na chupetação de com muita pinga e cerveja; eu até dos amigos me esquecera-me, e só me fizera mãos, dedos e olhos para com a majestosa, cuja eu nem queria mais ouvir a destoante dicção, porque meu tato se escondeu encabulado e surdo.

Figo doce em na rocha má nem pardal faminto não come. Aquele sotaque estragava tudo. A certa altura, eu nem deixava que a falação dela me cortasse a gana. Em na primeira sílaba que ela tentava emitir, eu lhe entupia a boca de com beijos prolongados num entrelaçamento de linguas e salivas para observantes nenhum botarem uma pontinha de defeito. Altas horas  decidimos que o pra-frente nos carinhos não se fazia possivel mais em dentro de um tão público local. Gosto de ficar sozinho com uma, sem com esses olhares curiosos para o bem-bom. É na privança que se faz criança.

No meu apartamento chegamos. Perguntei-lhe a ela se na sala seria bom. Ela graças a Deus nada não disse. Quem da fala se ausente é que em seu calado consente. O ambiente preparo, meio trôpego de com tantas surbias  misturadas aos vapores do álcool em demasia, mas na decidida vontade de me tirar-me do jejum: fecho as cortinas, acendo a meia luz, ligo a suavidade de uma Amália Rodrigues na surdina, e um drinque preparo, para o total desfazer de inibições, se alguma pudesse haver por da parte dela. Quem o milho semeia não é feijão que colhe. Que esperar de tanto líquido a me entupir-me o papo?

Acho que ela, nua estava, no tapete, sem nada a cobrir-lhe os pudores, estendida, a me esperar-me sorrindo. Há dias onde em que a gente nem de casa não deve de sair. Só sei que a submissão de não mostrar pra ela visualmente a vontade que eu tinha, somei um outro de sujá-la toda: no que me preparava para me aconchegar-me a seu corpo, caí de tudo, como um tronco abatido, a vomitar-lhe as belezas todas. E em só dia seguinte, sol alto,  acordei, com a cabeça doendo, as partes baixas em frangalhos, a boca amargando, e ainda mais sozinho do que sempre. A casa revirada mostrava também que eu havia ficado um pouco mais pobre.

Ver, eu vi. Mas não toquei, e com todos os recursos modernos de safadeza e de sem-descaramentagem, eu, lúcido, agora, nem sei ao certo, se ela era ele, ou ambos, os dois, se constituiam a mesma pessoa numa só embutida. Que ultraje, que vitupério! Deus do céu! Furioso, aturdido e colérico, me aplico-me safanões em meio ao próprio rosto, me autoflagelando-me capiongando e me macambuzeando. Qual um Darwin em pesquisa na Geena, sobrevoo a minha imbecilidade até a exaustão, compungido, assaz, por tamanha  ignotia e assombrosa burrice.  
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo, 10-4-2020

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