quarta-feira, 29 de abril de 2015

Adivinhe quem quer fechar a TAP…


Dinis de Abreu
O título desta coluna é deliberadamente provocatório. E a resposta, que nunca será unívoca, dependerá do quadrante ideológico do observador ou da sua relação sentimental com uma companhia que nos habituámos a ver de bandeira mas que cresceu em dimensão e em prejuízos - suportados sempre pelo contribuinte.  

Esta realidade, contudo, nunca foi suficientemente dissuasora para os sindicalistas que representam as tripulações de bordo - e, em particular, os pilotos - com as suas próprias bandeiras, bem menos nobres, e que emergiram em força a pretexto da privatização.

De facto, a iniciativa da privatização - também partilhada em tempos por governos do PS -, descobriu uma curiosa duplicidade dos pilotos: são contra, a menos que sejam beneficiários de uma participação accionista na futura empresa, de preferência a custo zero ou perto disso.

Esta bipolaridade constitui um dos vínculos marcantes do activismo sindical, praticado por um sector profissional que não desistiu de se considerar élite, apesar da massificação do transporte aéreo. E com essa presunção refinou e sofisticou-se, actuando, porém, com métodos que lembram os da CGTP.

A cereja em cima do bolo foi a anunciada greve de 10 dias, com início no 1º de Maio. O PCP e a sua central sindical agradecem. Não podiam esperar melhor…

A 'luta' dos pilotos da TAP - à qual se juntaram os da Portugália - reacendeu-se, precisamente, quando se convenceram que o Governo tencionava levar por diante a privatização da companhia. E veio mesmo a calhar à lógica do PCP.

Ora, os sindicalistas sabem que o simples anúncio de uma greve - mesmo sem a amplitude desta -, é suficiente para comprometer as reservas de passagens aéreas e de hotelaria, afectando gravosamente o fluxo turístico, porque ninguém programa uma viagem para se defrontar com incertezas.

Feito o mal e a caramunha, de pouco servem a requisição civil ou a desconvocação da greve de véspera. Os prejuízos são irreversíveis, no imediato e na imagem exterior da companhia.

É um jogo irresponsável e lesivo da TAP e da economia portuguesa, como se tem visto, mas prosseguido com grande frieza e indiferença pelas consequências.

Seria oportuno que o cineasta António Pedro Vasconcelos, tão lesto, ultimamente, a apadrinhar o slogan 'Não tap os olhos' (talvez à míngua de filmes subsidiados…), os abrisse para esta realidade - que entra pelos olhos dentro -, e que é o facto de a TAP se ter transformado num saco sem fundo, agravando défices insustentáveis.

Se a privatização falhar - hipótese que se desenha na altura em que escrevemos - por que não fechar a TAP, abrindo em seguida outra ao lado que fosse herdeira do melhor do equipamento, destinos, know-how e recursos humanos, sem vícios majestáticos, como foi feito pelos suíços em 2001 após a falência da Swissair?

Por acaso, a Swissair estava à época a completar 70 anos de existência - tal como agora a TAP - e ensaiava uma fuga em frente perante o volume de prejuízos que desfiguravam a virtuosa gestão helvética, negociando a compra de outras operadoras europeias (uma delas, por acaso, a TAP, imagine-se!).

De súbito, os aviões da Swissair começaram a ficar retidos em terra, por falta de dinheiro para combustível. O desfecho estava traçado. E, em Abril de 2002, nascia a Swiss Air, por fusão com uma companhia regional (a CrossAir), mais tarde adquirida pela Lufthansa, e hoje lucrativa.


Sejamos claros: a TAP tornou-se ingovernável e somente um hábil gestor de marketing, chamado Fernando Pinto, há muito seu presidente - contando com cumplicidades e simpatias nos media e em sucessivos governos -, conseguiu atenuar o impacto público do imenso buraco financeiro que estrangula a empresa, desde opções erráticas na operação aérea (como foi notório no caos do Verão passado) até à aquisição da famigerada empresa de manutenção no Brasil.

Os pilotos estão a desferir o golpe de misericórdia, à pala de um alegado acordo datado de 1999, nunca validado em Conselho de Ministros - como João Cravinho, então governante com a tutela, veio agora recordar, declarando, preto no branco: «A existência de um alegado direito adquirido no contexto da reprivatização da TAP é uma total falsidade, montada a partir do nada».

A questão que se coloca é, pois, a da viabilidade da empresa. E se esta apenas sobrevive à custa de endividamentos sucessivos, a solução só poderá ser fechá-la e abrir outra, expurgada de gigantismos e práticas laborais viciosas.

Pedro Passos Coelho, que teve a coragem de dizer não a Ricardo Salgado, só poderá seguir o mesmo caminho perante a chantagem dos pilotos da TAP numa companhia arruinada. Por favor, 'não tap os olhos'!...
Título, Imagem e Texto: Dinis de Abreu, SOL, 28-4-2015

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