terça-feira, 13 de junho de 2017

Do tempo de Salazar

Helena Matos

Temer não recebe Marcelo nem Costa. Logo conclui o PR: só dança quem está na roda. Portugal é hoje uma versão acanalhada do "Pátio das Cantigas".

Foto: Tiago Petinga/Agência Lusa
Escrevo. Paro. Escrevo… A vizinha que tem uma garagem e é uma “doçura de mulher “está transformada por este mês de junho numa omnipresença sonora. “O faduncho choradinho de tabernas e salões” que na cantiga que se dizia uma arma na luta contra a burguesia e rimava com “desalento misticismo e ilusões” tornou-se estética e politicamente obrigatório. As juntas de freguesia da capital legislam sobre a obrigatoriedade da música portuguesa nos arraiais e as forças vivas da pátria denunciam o excesso de turistas no centro das cidades. O pimba saiu das festas de aldeia e chegou ao Chiado. Portugal, 1937? 1957? 1967? Não, 2017.

Nas cidades e muito particularmente na capital, para mais em ano de eleições, a autarquia transformou-se numa comissão de festas, montando até arraiais onde eles nunca existiram e compensando nos decibéis a ausência de populares.

Não é por acaso que em 2017 acabamos a viver em êxtase patriótico o Festival da Eurovisão, mais os jogos da seleção. O cinema português deixou de querer ser novo e faz remakes dos velhos sucessos que não tinham mensagem e que por isso mesmo até foram banidos da RTP nos idos de 1974. O fado foi recuperado e o pimba está mainstream: esgotadas as fanfarras militares do MFA, a democracia não foi capaz de criar um imaginário próprio.

A Europa ainda não é sentida como a nossa História (e não se sabe se alguma vez o será porque uma máquina administrativa e uma moeda comum enchem milhares de boletins oficiais, mas não fazem um povo vibrar!) e o regime democrático que se construiu por antítese com o passado – o antifascismo, o antissalazarismo, o Portugal bafiento, salazarento, o país cinzento e triste… – ficou cativo desse mesmo passado. E é ao que dele nos ficou que o país do presente e os políticos do presente recorrem para nos fazer celebrar, rir, chorar e pegar na bandeira nacional.

Dir-me-ão que desse tempo felizmente não temos a repressão. É verdade, mas não duvido que ela seria legitimada se, para obter mais contribuições e impostos, fossem eficazes alguns dos procedimentos outrora adoptados na António Maria Cardoso (e sempre acrescento que o nível de informações que os estados hoje detêm sobre as vidas de todos nós, todos mesmos, ultrapassam muito, muito mesmo, aquilo que as polícias da primeira metade do século passado sabiam sobre alguns cidadãos.)

A democracia já conta com quatro décadas e quase meia, mas às vezes parece que não conseguimos ser mais do que uma versão acanalhada do Portugal “Pátio das cantigas” que fomos no Estado Novo. Com uma agravante: onde estava a “Canção de Lisboa” mais as marchas criadas por Leitão de Barros estão agora clones vários de Quim Barreiros trauteando “Quero cheirar teu bacalhau, Maria”. O pimba faz agora parte da Política do Espírito devidamente transfigurada em festivais populares e multiculturais.

Desafortunadamente o que deixamos cair do “tempo de Salazar” e, para sermos verdadeiros, de alguns dirigentes da I República, e que alguns dirigentes da democracia tentaram recuperar, foi a consciência aguda por parte de quem nos governava, de que num país, para mais pequeno como Portugal, a prudência não é uma virtude mas uma necessidade; a formalidade institucional não é um protocolo ultrapassado mas sim uma táctica perante os poderosos do mundo e o sentido de Estado não é um patriotismo bacoco mas sim a mais valia de um País que não pode esbanjar recursos na hora de se fazer valer.

Percebe-se a falta que tudo isto faz quando se constata que neste ano de 2017 o Presidente do Brasil se achou suficientemente à vontade para anular o encontro que tinha marcado, para mais num 10 de Junho, com o Presidente da República e o Primeiro-ministro de Portugal. “Só dança quem está na roda”, disse a propósito (ou a despropósito que para o efeito tanto faz) desta situação por assim dizer inédita na nossa história diplomática, o nosso Presidente da República que acrescentou que Portugal está “mal habituado” porque tem um Presidente “com uma disponibilidade constante que não é habitual noutros Estados“. Vamos lá deixar de fazer figura de parvos: alguém imagina Eanes, Soares ou Cavaco Silva a deixarem-se enredar numa situação destas? E a andarem de riso estampado na cara a fazer de conta que é tudo muito normal?

Essa espécie de duo dinâmico que por agora ocupa São Bento e Belém parece apostada em que destes dias para o futuro fique algo que vamos querer esquecer.

Ps. Por enquanto, mas acredito que este por enquanto não resista por muito tempo, nas aldeias as festas ainda nascem das contribuições e da iniciativa dos residentes e dos ausentes – há quem tire férias para as organizar – mas lá chegará o dia em que, tal como nas cidades, se imporá a municipalização das bifanas e o cantor de serviço pedirá uma salva de palmas para o senhor presidente da câmara e para a senhora presidente da junta que é tão simpática e não para de dançar desde que se ouviu o primeiro acorde de “Quem será. Quem será”.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 13-6-2017

Relacionados:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-