terça-feira, 21 de novembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Tô fora... ou melhor, I’m out, o que dá no mesmo

Aparecido Raimundo de Souza

POR TUDO QUANTO É MAIS SAGRADO, Emengarda, afinal de contas, o que você quer de mim? Vamos, responda. Seja mulher com “m” maiúsculo, ao menos uma vez. O que você quer de mim? Com certeza não é acasalar. Meus sensores permanentemente expostos à sua mesquinhez me advertem que você está aprontando. O quê?! Talvez me ver atirado ao deus dará chafurdando, enlodado, em meio a ratos ou rastejando a carcaça lânguida e combalida nas calçadas da Avenida Paulista, ingerindo restos de comida, bebendo sobras de latinhas de refrigerantes jogadas nos lixões por transeuntes com espíritos de porcos e almas de rinocerontes enfezados.

Talvez você deseje ou ambicione mais. Saber pelos noticiários que me flagraram tomando banho (banho...?) no chafariz de alguma praça no centro de São Paulo, e, por causa dessa situação vexatória e deprimente, precisei botar sebo nas canelas e correr mais rápido que o etíope Leul Aleme dos guardas quando me viram pelado, bunda murcha e pinto magro, ambos de fora dos meus parcos andrajos. Não sei!  Você é, ou melhor, sempre foi uma espécie de imagem queimada na visão embargada dos meus pensamentos mais lúgubres e infaustos. Nunca sei o que você se predisporá a fazer no minuto seguinte. Cheiros e odores de coisas boas, não, com certeza. Você é tão imprevisível como rabo de juiz e cabeça de criança recém-nascida com caganeira.   

Eu prefiro, minha linda, por conta desse rosário de aprontações, ficar o mais distante de você. Eu adoto, Emengarda, o prazer de estar num shopping movimentado em frente de uma tela plana exposta nessas lojas que vendem eletroeletrônicos, vendo o Lula com aquele chapeuzinho de fresco enterrado na cabeça, a mão com o dedo a menos apontando as merdas do Temer e latindo as trapalhadas do Fernandinho Segóvia, o novo diretor da Policia Fedemal, nos horários políticos. Não, o Temer não! Seria um atentado violento, não ao pudor, todavia, a minha estupidez diante do óbvio massacrante que me atormentaria depois. Melhor ainda se você topasse comigo sentado no parapeito do Viaduto do Chá, ou no terraço do edifício Copan lendo a biografia de Machado de Assis aventurando descobrir de quem ele herdou o machado, e, se realmente a ferramenta era ou não do tal do Assis.


Ontem foi um dia maneiro. Você não merece, mas, mesmo assim, me deixa contar. Saí de um restaurante perto da Praça da Sé, aos safanões, em decorrência de uns tabefes, segurado fortemente por um segurança porreta (imagine a cena), quando tentei entrar de penetra para comer algumas coisas diferentes, como asas de galinhas que não voam mais, acompanhadas de batatinhas fritas vencidas, saladas de alface de sábado passado, sobras de um bife a cavalo, sem São Jorge montado nos costados dele. E sem o infeliz do dragão soltando fogo pelas ventas. Tudo estava saindo dentro dos conformes, não fosse uma senhorinha moradora de Botucatu ter se assustado com a minha face suja e suada de tarado fujão. Creio, foram os gritos de socorro da minha barriga vazia de fome que a deixaram com o coração espetado no medo, ou, talvez, o sórdido desconforto de perder a bolsa que carregava com ambas as fraquezas dos braços escaveirados e pelancudos, como um relíquo antigo herdado de tradicional estirpe dos tempos medievais. De repente, ela me lembrou sua mãe. Me desculpe a comparação, Emengarda. Sem ofensas. Sua mãe é um pouco mais putaquepariu! Putaquepariu assim mesmo, tudo junto e misturado.

Você acredita que as sacudidelas e os sopapos do segurança me deixaram meio zureta? Por alguns minutos, vi as coisas diante do nariz, se desenrolando como se tivesse entornado todas. Mas Deus é testemunha. Nenhum café, nenhum copo de água ou um pedaço de pão dormido, dispensado de alguma janela das redondezas. Tão abilolado e lerdo eu fiquei que, diante de meus esbugalhos, se delineou, de repente, a Flávia Alessandra, não, perdão, a Grazi Massafera, que droga, nenhuma das duas, era a Sabrina Petráglia, isso mesmo, de vestidinho branco muito curto e uma blusa cor de abacate com um caroço deste tamanho, e, veja só, uma espécie de engasgo da mesma cor. Ou sei lá, possivelmente a Roberta Miranda de jaqueta de couro preta, calça jeans e botas de vaqueira conversando animadamente com um sabiá no ombro direito? Ou era o esquerdo? Vai se saber!

Há tempos, Emengarda, desconheço o que é tomar uma lavadura decente, com água quente, sabonete de alfazema e xampu que não arde nos ouvidos. Esqueci até da cara com o semblante cheio de furinhos do chuveiro! Meu desamparo é tão profundo e minha realidade tão derrotada e amarfanhada, que lhe asseguro, se cair do céu uma ducha diante do espanto horrendo que me persegue posso pensar na minha insanidade, ser o Jorge Piccicciani, ou o Romero Jucacá, ou o Lucio Fufunanaro, quem abe o Alexandre Baldydy ou mesmo a bosta fedorenta do Jair Bolsodofunaro de pires nas mãos, pedindo votos. Aliás, você sabe perfeitamente que é nessas ocasiões importantes (as eleições), que a gente se dá um pouco melhor. Os políticos chegam vindos de todos os lados, como baratas atrás de doces. Como vermes saídos das pocilgas e cagaçais imundos. Prometem, afirmam, asseguram, avalizam, creditam... dão até o moedor de carne. Tudo em troca de voto.

A sede de poder é tanta e tamanha -, tamanha e tanta -, que eles se esquecem, que euzinho, como tantos e demais espalhados por aqui e acolá, estamos agarrados à sandice do destino ingrato e traiçoeiro. Somos vagabundos, moradores sem teto, “noiados”, extraviados da sorte benfazeja, como postes em busca de cachorros e linguiças cegas atrás de gatos vira-latas. Como personagens desta vida desgraçada, Kikikikikikikiki, creia, Emengarda, não dispomos, sequer, do sagrado e cagado direito de votar. Ora, Emengarda, se não votamos, igualmente não voltamos. Seguimos adiante, como uma matilha de bois, perdão, mamada (eu não quis dizer mamada), manada, o certo é MA... NA... DA... em proa ao matadouro.

Por isso, minha esvoaçante e querida Emengarda, eu lhe peço encarecidamente: vá embora. Suma, desapareça, escafeda da minha beira. Deixa eu continuar aqui quieto, com meu colchonete furreca, meus fantasmas iracundos, minhas aparições e visagens de dias mais abastados. Siga seu caminho. Quer saber? Os quintos fica logo ali, depois da Brigadeiro Luiz Antonio. Se você quer me ver de quatro, a retaguarda desguarnecida, como uma vela de castiçal de igreja assustada, sem rastilho, ou pior, arreganhada a carvalhos e pavios voadores, perdeu seu tempo. Emengarda, acredite! Perdeu seu tempo. Estou em outra.

Busco éticas falsas, caminhos obscuros, sentidos nada passivos dentro do meu eu impassivo, a fim de torná-los claro como uma noite bem sombria. Mesmo me sentido como um cabide dependurado dentro de um armário velho, um sapato sem pé, um carro sem motorista, um país sem ladrões, um cavalo sem pasto, uma cadela sem cachorro... mesmo sem você fazendo cafuné e masturbando meus dedos com artriste, digo, artrite, Emengardaaaaaaaaaa... eu... eu...  estou  literalmente em outra.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Ribeirão Preto interior de São Paulo. 21-11-2017
      
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Um comentário:

  1. Aparecido, parabéns! adorei. Essa crônica leve e sorrateira nos leva a enxergar como vão as coisas por aqui, ou seja; de mal á pior. Hilariante sua forma de descrever tão bem a "bagunça" no plenário, onde não há ética e cada um querendo cada vez mais. Ao citar o nome do famoso escritor "Machado de Assis" enriqueceu ainda mais o texto. Pois, sub entende-se que somente ele saberia desenrolar tudo isso.

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