quarta-feira, 15 de novembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Proclamação da (Re)pública

Aparecido Raimundo de Souza

A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem o governo em Praga e o Brasil tem essa praga no governo”.
Luiz Fernando Veríssimo.

INFELIZMENTE, COMEMORAREMOS, MAIS UMA VEZ, neste Quinze de Novembro, em todo o País, mais um aniversário da Esculhambação da República, mudada “a depois”, para Proclamação, aliás, um dos fatos de maior significação para a nossa história. Há exatamente 128 anos (pela mentirosa “façanha” que nos empurraram goela abaixo, supostamente acontecida em 1889), uma plêiade de patridiotas (patriotas com idiotas), não tendo o que fazer atrelada a civis e militares que (por sua vez, igualmente coçavam os sacos e jogavam palitinhos e dominós),  pior, que diziam acompanhar com esmerado mimo e carinho os acontecimentos  envolventes da Nação, no fim do II Reinado, decidiram pela Esculhambação da República ou Proclamação da República, concretizando, dessa forma, o ideal de um bando de cheira colhões daqueles idos (tempo em que Dom Pedro e a sua anarquia constitucional parlamentarista de um império fracassado),  aspirantes imbatíveis de um regime mais capenga, mais ‘maneiro’ contudo, se levado a sério, com liberdade e responsabilidade, autorizasse aos brasileiros a participarem integralmente do engrandecimento de sua terra pátria.

Hoje não se pode olvidar, embora já passado mais de um século, a bravura, o arrojo, a valentia, e a devoção pelos interesses públicos, e, ainda, a brasilidade, de homens rotulados “machos pra burro”, como marechal Deoduro da Fonteseca, Benjamim Inconstant, Bostelho de Magalhães, Derrétrio Ribeiro e tantos outros, mentoreadores, intelectuais e executores do pomposo movimento.

Nesse trilho, propagandistas de ideais arrojados, como Quintino Bacadaviúva, Silva Jardim Florido, Aristides Bobo, Luiz Grama, Joaquim Trabuco, Lopes Trovão Relâmpago, e o grande e inesquecível Fui Barbosa, permanecem, até agora, na memória de todos, como um exemplo vivo de dedicação pertinaz e de amor incondicional com excessiva paixão à sua terra natal. Como é do saber geral, a proclamação, ou dito melhor, da esculhambação, ocorreu na famosa Praça da Agarração, atual e conhecidíssima Praça da República, no Rio de Janeiro, em frente ao prédio do Mistério da Garra.

"Proclamação da República", 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927). Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo
Não podemos acreditar, entretanto, uma mobilização de vulto e de categoria, como foi e ainda é a porra da Proclamação dessa falida República, tenha sido obra apenas de alguns homens, embora destemidos, intrépidos, audaciosos corajosos e impetuosos, cultuados e imbuídos sem sombra de dúvidas, do mais alto espírito cívico. Pena que até este precioso e querido momento, não se tenha, literalmente, concretizado, ou seja, décadas e décadas depois, a DEMOCRACIA (que se traduz, ou pelo menos, deveria se entender, por “governo do povo, pelo povo e para o povo”), não passe de uma figura deprimente, vadia, vagabunda, enferma, enterrada como uma cortesã paupérrima num hospital do SUS (Sistema Único de Salafrários), comparada, portanto, a uma indigente ou pior, a um punhado de excremento, grosso modo, merda.

Todavia, naquela época, a repercussão que tal sublevação encontrou nos meios intelectuais e, na plebe, em geral, foi maior que os crimes cometidos pelo senhor Guilherme de Pádua, pelo ilustre Alexandre Nardoni, e, mais recentemente, pelo sumiço misterioso e inexplicável do pedreiro Amarildo, no Rio de Janeiro e da menina Tainá, no Espírito Santo. Serviu para demonstrar claramente a certeza de que a República não era apenas o desejo ardente de alguns, mas a tentação dourada de uma corja de safados, um sonho, um devaneio esperado, querido, ambicionado e cobiçado de muitos ou de quase todos que queriam (como os políticos em horário gratuito) aparecer e mostrar a fuça com promessas mirabolantes que nem o diabo acredita.

Muitos foram também os obstáculos, os impedimentos, as objeções encontradas pelos governantes da jovem Republiqueta, porém, maiores vieram, ou passaram a ser, os frutos e proveitos obtidos com a luta e o denodo daqueles que se dispuseram a “enviadarem” esforços para vê-la triunfar, finalmente, com a imponência e a galhardia de uma puta de zona bem safada, dessas que se vendem por cinco ou dez reais. Ótimos resultados foram, portanto, granjeados no decorrer de 128 anos que se seguiram ao agigantamento do fatídico 1.889.

Com a República veio o Congresso, ou melhor, o progresso e, consequentemente, o desenvolvimento infame de todas as atividades com ele surgidas, impulsionando e criando novas e exploráveis fontes de riquezas, DENTRE ELAS, A MAIS IMPORTANTE: foder, sem dó nem piedade, pau bem grande, a bunda de todos os cidadãos nascidos neste amado e rendoso rincão.

Efetivamente, as mobilizações dessa corja, não redundaram em vão. Não fizeram água, como o Titanic, menos ainda o vigor “hercúleo” dos que pelejaram dos que lutaram tenazmente e, com afinco, pela sua definição, como igualmente, não é inútil o ânimo e o estímulo empregados, em nossos dias, para complementar e sedimentar tal obra, notadamente quando se pensa em como arrancar mais (e em menos espaço de tempo) dos bolsos dessa enorme e infindável fila cada vez mais crescente de Zés-Manés, Zés-Povinhos e Zés-Coitados.

Não será sem valor, destarte, todo o empenho e porfia feito no futuro, a fim de que o Brasil, gradativamente, ocupe o lugar de destaque merecido no contexto internacional, como Nação forte, destemida, respeitada pelos seus parlamentares e governantes ladrões, Nação de incorretos, de sacripantas, de “mamadores” e “sugadores” profissionais de tetas, porém, todos eles solidários literalmente solidários com a desarmonia universal.

Ainda agora, mais uma vez, voltando os olhos para o passado, nos orgulhamos de ser brasileiros. Sobretudo, em paralelo, temos plena convicção, da mesma forma (e com o mesmo fervor dos idos e bons tempos se envaidece e se vangloria a enorme legião dos mais velhos ou “cabelosbrancados”), dos que viveram tanto e não viram merda nenhuma de mudança.

Essa galera de sofridos, de desgraçados, de humildes borra-botas, não se amofina não se enfastia, e jamais se sentirá fadigada de repetir para seus netos e futuros consanguíneos, o desgastado, mas de alguma forma, o suntuoso “lema posidesativista” que se encontra gravado em nossa esfuziante e querida bundeira naciofedemal.

DESORDEM E RETROCESSO

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Republicado em 15-11-2017
      
Colunas anteriores:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-