segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A confissão de Francisca Van Dunem segundo a “teoria do Daniel Oliveira”

Cristina Miranda

É tão giro ver nos intelectuais da esquerda à direita, comentadores e comunicação social, uma preocupação obsessiva com a nomeação do Juiz Sérgio Moro para ministro da justiça brasileira, alegando que põe em causa o princípio da separação de poderes. Bem, eu devo ser realmente muito ignorante por ver exatamente o oposto. Porque este medo não é normal num país cuja Ministra da Justiça veio do TCIAP e é juíza do Supremo Tribunal de Justiça. A pergunta é: que “confissão” deu Van Dunem ao aceitar o cargo no ministério ou isto passou ao lado destes comentadores? 


Não compreendo como é que um país, que além disto,  tem um PGR (Procurador-Geral da República) nomeado por governos, uma eleição de juízes por via electrónica, se acha com superioridade moral para opinar sobre outros países que, por muito que lhes custe admitir, estão a fazer melhor que nós na área da justiça. Ou já se esqueceram que no Brasil os corruptos já estão na cadeia a cumprir pena (e mais irão), os processos são céleres, e nós, além de os ter todos soltos e a viver bem – alguns até já condenados – não se prevê que sejam julgados ou presos tão cedo.  E mais: há o risco de “prescrição” de uns e o habitual arquivamento por “falta de provas”, de outros.

Por isso, é preciso ter muita falta de vergonha para certos indivíduos virem para as televisões e jornais criticar o Brasil, com um país como o nosso que protege os corruptos descaradamente.

Quem não assistiu à substituição desnecessária, pelo governo, da PGR Joana Marques Vidal, com a ajuda do Presidente da República e que estava a fazer um trabalho brilhante no combate aos crimes de colarinho branco? Quem não viu um sorteio para a escolha de um juiz da Operação Marquês, a ser selecionado à quarta vez, colocando de fora Carlos Alexandre que conduziu de forma também brilhante o processo, por outro com currículo vasto em arquivamentos e queixas do ministério público? Quem não viu no passado, Cândida Almeida, Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro a arquivar tudo o que implicava o arguido Sócrates, onde até se recortou literalmente provas do processo?  E andam estes a fingir estarem preocupados com a separação de poderes. Francamente.

Nós, como país, somos a prova que não há nem nunca houve separação de poderes. Só de fachada. Porque na verdade temos um sistema promíscuo em que o poder político tem tentáculos em todos os setores.  E movimenta-se livre, de forma escancarada, porque já se sabe que aqui, neste retângulo, só vai preso quem está fora do sistema. E não há, nem nunca houve, vontade de mudar isto. Mas disso, os comentadores do regime não falam. Muito menos a comunicação social.

Sérgio Moro, de facto, é um “perigo” no Ministério da Justiça brasileira, não pelo que o acusam, mas pelo trabalho sério, honesto e principalmente competente que vai fazer de imediato.

Porque ele conhece bem os meandros da justiça brasileira. Sabe por experiência o que funciona bem e mal, para corrigir tudo aquilo que durante anos contribuiu para a escapatória dos corruptos nas malhas da lei. E sabe como ninguém o que é que o sistema judiciário precisa melhorar para limpar a corrupção do país. Porque ninguém melhor que um profissional da área para fazer o que tem de ser feito e bem. Ora, se isto é assustador? Claro que sim, mas só para aqueles que viveram à custa do sistema corrupto do país.

É o caso de alguns políticos e empresários em Portugal. As ligações da Lava Jato têm tentáculos até nós. Um “super juiz” que já demonstrou ser incorruptível, íntegro e implacável no combate à corrupção, só pode deixar muita gente sem dormir do lado de cá. Porque de repente perceberam, que apesar de terem mudado o Juiz Carlos Alexandre, apesar de terem corrido com Joana Marques Vidal, a ameaça continua do outro lado do atlântico com o Processo Marquês e Monte Branco, ligado à Lava Jato.  Mas, que ao contrário daqui, não podem mais controlar. O PT foi corrido.

Por isso dizem-se “inverdades” sobre Moro e esconde-se as verdades. E as verdades são: que  a Lava Jato teve seu início em 2014  sem que nada fizesse prever que alguma vez Bolsonaro chegasse à presidência; que essas investigações foram levadas a cabo pela Polícia Federal sendo que Moro só as autorizou; que  Lula viu sua pena ser aceite e aumentada pelo TRF4 e não por Moro; que  Lula viu  sua candidatura ser rejeitada pelo TSE e não por Moro; que Lula teve seus inúmeros recursos negados pelo STF e STJ e não por Moro. Portanto, a “culpa” não foi de Moro, mas dos tribunais das instâncias superiores. Logo, a teoria da perseguição política é falsa.

Enquanto por cá se tenta ensinar os outros países a se governarem, nós escolhemos os ministros e secretários de acordo com os laços familiares, amizades e interesses, mesmo sem qualquer experiência, mesmo com licenciaturas falsas, mesmo sem sequer serem da área para que são nomeados. Que o diga Galamba que até conseguiu uma nomeação para secretário da pasta da… energia. Foi escolhido por saber ligar interruptores?

Num país que não privilegia o saber, a experiência como fator fundamental para uma nomeação, jamais terá a eficiência dos ministérios de Bolsonaro. E isso dá medo a quem não interessa que se prove que sem políticos a fazer política num governo, o país prospera.
Título e Texto: Cristina Miranda, Blasfémias, 5-11-2018

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