sexta-feira, 23 de novembro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Amnésia fenomenológica

Aparecido Raimundo de Souza

NÃO ESTOU CONSEGUINDO ME ACHAR. Em canto nenhum eu estou. Já me procurei em casa, em residência de amigos, parentes mais chegados, no cafofo das duas namoradas, nos lugares onde compro a crédito, no supermercado, na farmácia, na padaria, no salão onde corto o cabelo e faço a barba. Enfim, eu sumi, desapareci misteriosamente do mapa. Como se tivesse sido tragado. Estou diante da vacuidade da minha própria imbecilidade vivendo, ou melhor, vegetando o desprezível da pior parte da existência humana. O não saber quem sou.

Tudo aconteceu por conta da última saída que fiz até à estação do Metrô Barra Funda. Em algum lugar ali, ou lá, não sei, perdi todos os documentos. Não restou sequer um que desse conta de mim. Ao menos a carteira de habilitação com uma foto, para provar que, realmente, eu sou eu. Eu quem? Aparecido, 65 anos, nascido em Andirá, Paraná, filho de meu pai e da minha mãe, ambos enterrados vivos, trancafiados na falsa lucidez maçante de uma burguesia truncada.
- Sabe ao menos o nome de seus genitores – perguntou uma policial do posto de atendimento ao cidadão que disse ser minha amiga e querer me ajudar?

Meu lado curioso dentro do inevitável deu sinais de vida.
- Que diabo venha a ser isto, genitores? Algo que se mastigue?
A estranha ponderou carinhosa:
- Genitores. Quero dizer seus pais.  Sabe o nome deles?
- Não, respondi seco.
- Dos seus avôs, prosseguiu ela?
- Deu branco.
- Algum irmão?
- Devo ter, mas não sei o nome de nenhum, assim de momento...
- Tem esposa? Filhos? Sabe sua idade?
- Estou mais por fora que peixe à larga do cardume.
- Estranho!

Concordei com a jovem. Muito estranho. Além de estranho, esquisito também. Como podia uma pessoa, de repente – pelo fato de perder a sua carteira com os documentos pessoais ir junto, de roldão, e escafeder na poeira, sumir de vez, no ar? Nunca vi fato igual. Nada parecido. Nem aparecido. Parecia loucura. Pensei estar em outro mundo. O pior, nessa confusão toda – não me recordei de ter sido abduzido. Virei uma espécie de Holden Caulfield moderno, aquele personagem de J.D. Salinger evidentemente sem a voz do Apanhador no Campo de Centeio, todavia de um apanhador de um campo de sem telhas.  Sem telhas, sem capa e sem guarda chuva. Tentei o celular. Não deveria deixar nada ao acaso. Quem sabe ele não me direcionasse para algum lugar. Qual o quê! Bateria descarregada.

Procurei daqui, futuquei dali. Achei o carregador acolá. Ao menos, se alguém ligasse, partiria de algum ponto menos obscuro. Uma hora depois o troço funcionou. Arrisquei, na memória um conhecido. Vazia. Ligações. Nenhuma. Efetuadas. Zero. Mensagens enviadas e recebidas. Neca de pitibiriba. Estou “fu...”.  De verde e amarelo com bolinhas da mesma cor. De repente, o telefone saiu do mutismo. Finalmente me verei longe deste embuste que o destino me preparou, e voltarei radiante ao mundo de onde nunca deveria ter saído.
Atendi pressuroso.
- Pronto?
“Quem fala?” – questionou a voz do outro lado.

- Como quem fala? Sou eu, o Aparecido.
“Aparecido? Não conheço nenhum Aparecido. De onde você apareceu?”.
- Como, de onde? Pergunta besta. O amigo acabou de me ligar.
 “Eu, em! Acho que me enganei. Devo ter digitado algum número errado...”.
- Como é seu nome?
 “Fogaça”.
- Como? Sem graça?
“Fogaça cara. Fogaça. Vou soletrar. F, de família, o de organização, g de galho, a de amarelo, cedilha de caçarola e novamente a, de amendoeira. Anotou? Fogaça”.

Desliguei. Inútil gastar vela com defunto fresco. Realmente não me acudiu ninguém com aquele nome. A policial não desistiu. Fiel até debaixo d’água. Um anjo em meio a esta cidade imensa e barulhenta. Uma mulher assim me cairia como luvas de pelica. Tirou uma foto minha com seu celular e passou para seus companheiros. Quase final de expediente, por volta das seis da tarde, saiu de sua mesa e veio ter comigo cochilando na recepção. 
- Eureka!! - Berrou a dita numa euforia ímpar. - Meu prezado amigo, se alegre. Trago boas notícias. Achei você. Sei quem é e onde mora. Pedirei autorização a meu superior. Vou levá-lo em casa.
- Como fez isto?
- Lembra que tirei uma foto sua?
- Tirou? - E aí? Seu celular se assustou comigo e também criou pernas?
- Nada disso, engraçadinho. Agora sei quem é o que faz e onde mora.
- Legal! E onde eu moro?
- Jabaquara.
Algum tempo depois, em meu loft, me sentei, em equilíbrio no braço de um sofá azul de dois lugares. Na frente dele, uma televisão tela plana. Ao lado, em contraste, um toca-discos do tempo em que as pessoas andavam de bicicleta numa roda só. Nada aqui me pareceu familiar. Tive uma ideia. Resolvi bater no apartamento do meu vizinho. Ou vizinha, sei lá. Toquei a campainha. Surgiu, no umbral, uma linda mulher. E que mulher!...

Um pedaço de mau caminho da minha altura, uns vinte e cinco anos, tão bonita e encantadora quanto a policial. Por momentos fiquei com ares de apatetado. Aparvalhado, fraco como Oswald de Andrade quando deu seu “último passeio como tuberculoso, pela cidade, de bonde”.  A deidade possuía os olhos plissados, enfiados em órbitas opíparas e exuberantes, terminavam enfeitando uma tez de princesa dos tempos de Cinderela. Vestia uma blusa do Flamengo e um shortinho de lycra que lhe escancarava o umbiguinho de fora além de um resto espetaculoso que delineava pecaminosamente as outras partes secretas de seu corpo perfeito. 
- Puta que pariu. O senhor de novo?
- Como, de novo?
- Bateu aqui às seis horas. Despertei sobressaltada...
- Eu bati aqui?

- Não, seu panaca, o Homem Aranha. Claro que o senhor. O único vizinho chato e pegajoso que tenho e não me dá sossego.
- Não me recordo de ter vindo aqui! E também me foge à memória me dirigido ou falado à sua pessoa...
-Mas veio e falou... e ainda me deu uma cantada idiota. “Nossa, você é a pitada de açúcar que faltava no meu café com leite”.
- Esquece essa parte. – Ralhei. - O que eu queria exatamente?
- Me torrar o saco. Escuta o que vou dizer. Dá pra errar meu apartamento?
- Fala sério, moça. O que eu queria? O que eu procurava exatamente?
- Último aviso: se o senhor voltar a me importunar ligarei no mesmo instante para a polícia.
- Polícia? De novo a polícia?

Recebi, em cheio, uma tremenda e violenta portada na fuça. O estrondo se fez tão pavoroso que estremeceu os latões de lixo no corredor. Sem falar no elevador atemorizado, coitado, se refugiou no décimo segundo com receio de tomar uns pescoções. Engraçado! Até então não havia percebido. Havia um aviso logo abaixo do olho mágico da minha vizinha encantada. Informava, numa grafia perfeita: “Não bata a porta. Ela está segurando a parede”. Este gesto da minha moradora contígua restou cabalmente fulminante. Decisivo. Ultrajante. Acabou com a minha autoestima. Fiquei literalmente para baixo, pior que nota de falecimento em rodapé de jornal interiorano. Deprimido. Deprimidérrimo! Quem sou? E agora, quem poderá me ajudar?  Quem realmente sou eu? Até agora...

Voltei em meus passos, me tranquei a sete chaves e um ferrolho velho que cantou antes de entrar em seu buraco.  Revirei a casa de pernas para o ar. Nada, nada que delineasse a minha silhueta – que mostrasse meu rosto, ou que me fizesse um ser igual aos demais. No espelho do banheiro encontrei um sujeito arquétipo, de perfil vulgarizado, barbudo, olhos vermelhos, me espiando, amedrontado. “Aquele ali - disse para a escova de cabelos jogada perto da bacia da privada - não é o Aparecido que conheço”. Apalpei as maças da face deformada, arregalei os olhos, balancei a cabeça, nada. “Não sou – repeti cinco ou seis vezes – não sou eu aquele sujeito refletido”. Voltei à sala. Separei as cortinas. Abri a janela. Espiei para cima. Contemplei o infinito acima. Uma traição momentânea de um céu reverso e cheio de estrelas cintilantes se depunha avesso ao meu drama pessoal. Os prédios em derredor do meu se quedaram numa paisagem híspida. Um avião passou em direção ao aeroporto. Nesse interregno, batidas na porta me trouxeram à realidade.
- Quem é? – Perguntei encostando o ouvido à altura da maçaneta.
“Abra, é a polícia” – gritou uma voz lá do corredor.

- Polícia? O que eu fiz de errado para a polícia estar aqui? Seria a vizinha?
“Vamos contar até três. Abra ou arrombaremos. Um...”.
- Polícia? Polícia? Como vou explicar quem sou? Cadê meus documentos?
“Dois...”.
Procurei ganhar tempo.
- O que vocês querem?
“Abra...”.
Ouvi novas pancadas. Não propriamente pancadas. Porradas mesmo. A porta estava sendo arrancada. Em outras palavras, arrombada. Os policiais entraram, invadiram, se agigantaram numa gritaria só. Oito ao todo. O que parecia ser o chefe ordenou: “mãos na cabeça, deita no chão, de costas, quieto, não se mexa ou morre”.

Morrer deve ser (e acredito piamente nisso) uma transição inoportuna, veloz, como um tombo repentino e inesperado entre a lavanderia e o quarto, ou entre a sala e a cozinha, com a diferença que, no tropeço comum, a gente se levanta e na embocadura da morte, a pancada recebida não dá nenhuma opção de troca nos botões do menu. 
“Três!...”.
Dei um salto da cama como um rato faminto que se assustasse com um gato mais esfomeado que ele na busca pelo mesmo prato. Acordei meia noite em ponto, em sobressalto. A camisa molhada, o suor a escorrer pelos poros e o tétrico atroz e infernal fazendo meu coração bater acelerado, como se quisesse saltar boca afora. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De São Paulo Capital. 23-11-2018

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