sexta-feira, 16 de novembro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Neste falso silêncio que precede ao canhonaço

Aparecido Raimundo de Souza

“Populistas e populismos são os mesmos cânceres de sempre com nomes atuais, males eternos que a ciência ainda não descobriu as causas para a total extirpação”.
De “Le Grand Secret” Renê Barjavel. Editora Nova Época 1973.

O MUNDO POLÍTICO NÃO SE MOVE num universo racional e ordenado, ao contrário, oscila num vácuo de compleições imensuráveis, onde se amalgamam sentimentos e paixões, esperanças e desilusões, rancores e fervores, onde se encadeiam no mesmo apertar do gatilho, amores e ódios, preconceitos e hipocrisias, astúcias e utopias. Em tempos de eleições, este terreno se multiplica, engrossa, enriquece e espicha. A raia miúda, de um modo geral sofrida, fodida, mal paga, mal organizada, permanece à deriva, frontalmente exposta às tentações da demagogia, da ludibriação, da enganação, bem ainda dos arrebatamentos, das irracionalidades e, igualmente seduzidos pelas retóricas e carismas as mais temíveis e suspeitosas.

Neste período, conhecido como a “caça aos tontos”, e “eleitoreiros”, as sujeiras acumuladas de todos os sacos de lixo, ou como rotularíamos, dos entulhos advindos do populismo barato (ou dito, ainda, de outra maneira, dos aliciamentos, pelos doutrinadores demagogos das classes inferiores e humildes) encontram um terreno baldio de proporções imensas, adequado e conveniente, fértil e talhado para desenvolverem as suas ideias estapafúrdicas e se expandirem. E, de fato, se dilatam e se avultam de maneira jamais vista e imaginada.

Em igual fluxo, as rádios, os jornais e os canais de televisão, por sua vez, movidos pela febre hedionda do marketing fácil, notadamente pela busca incessante de audiências e IBOPE, e para satisfazerem, sobretudo, os gostos e as vontades de seus “públicos alvos”, exercem um papel primordial, fundamental e precípuo pelo culto dos espetáculos e também pelos sensacionalismos ridículos que oferecem.

A síndrome do populismo, numa rápida e rasteira “de visu”, se caracteriza ou se condensa pela denúncia caluniosa das elites dirigentes, pelas acusações contra a burocracia, ao tempo que fomenta, de maneira folgazã, a apologia da boa e simples ralé, a plebe submissa e pura e da desregulamentação do sistema político e social e daquilo que não é massa, não é gente, não é nada, enfim, a exigência de um maior e melhor acesso dos cidadãos comuns às atividades profissionais, como restauração da moral e de valores tradicionais, apelos patéticos a todos os demais sentimentos e aos fantasmas iracundos e maniqueístas, agastados e remordidos e pior, a diabolização fúnbica dos adversários e concorrentes.

A condição sine qua non do populismo é, num outro corte da faca afiada, a imposição de um clima de exasperação na sociedade. Gera numa mesma órbita o desemprego dramaticamente elevado, o poder de compra severamente se vê corroído, a inquietude social se atrela a um clima altamente explosivo e melindrado, abraçado à violência desenfreada. Os populistas que aí estão ávidos e famintos, doidos para morderem e abocanharem as tetas adotam um arrazoado dissonante e provocador a fim de atrair a simpatia dos eleitores e tem uma capacidade particular de manipulação da emotividade e do irracional. Estilos flamejantes, palavreados bonitos, pegajosos pitorescos, messiânicos em suas ações e feitos. Os populistas, na verdade, se apresentam como os intérpretes quase sagrados da vontade de todos nós.

Uma grande e estupenda mentira. Por assim, populismo, abuso da democracia, impunidade, bandalheira, anarquismo, desordem, barafunda e desmoralização caminham “pari passu”. Em linha paralela, os mosqueteiros, neste período eleitoral, surgem de todos os lugares, saídos de becos e guetos, e acreditem, até dos quintos do inferno, com as suas reputações de valentões, suas heresias e seus gostos por batalhas, suas invectivas, suas “mentiralhadas” e truculências. Travestidos, por derradeiro, de anjos, heróis e justiceiros, culminam por se engalfinharem no mais encarniçado combate para a conquista galopante do Poder.

Lembrem todos vocês, caros leitores e amigos, que esses párias, esses admiráveis cães sarnentos, esses ladrões esses sanguessugas almejam e querem, buscam o domínio, perseguem o império, correm atrás da faculdade de mando. Essas desgraças se apresentam famintas, unhas e dentes para morderem os mais fracos. Vale tudo para estarem e não só isso, permanecerem por cima da carne seca. Bem sabemos, todos aspiram sentar seus rabos cheirando a merda no penico palácio e governar esta republiqueta de bosta a qualquer custo.

Seja pisando, esmagando, seja destruindo ou prostrando, usque, sempre em mente, às chaves da porta e os horizontes do cargo de chefe da nação. Diz um aforismo antigo. “Quem quer fazer um anjo, acaba dando vida e forma ao diabo”. Isto sim, senhoras e senhores, é a mais pura verdade. Verdade incontestável. O resto, o resto é lixo, despejo, varreduras e excrementos. Como bem classificou em sua época Pandita Nehru primeiro-ministro da Índia, em 1955 em seu livro “Letters from a Father To His Daughter”. “É pura inconsequência inconsequentemente inconsequente”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. 16-11-2018

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4 comentários:

  1. Caro Aparecido!

    Gostei muito!
    E salvo engano, me pareceu uma definição dos políticos de todas as matizes , passados, atuais e futuros !
    Estarei certo?

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    1. Certíssimo, anônimo das 12.06.
      Aparecido Raimundo de Souza
      Lagoa Rodrigode Freitas RJ

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  2. Desculpe a falta de identificação, descuido meu!
    Paizote

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    1. Nada a desculpar, Paizote. Abraços, Aparecido. (Voando agora, às 14ks daqui do Rio de Janeiro para Santa Catarina).

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