sexta-feira, 30 de novembro de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Grosso duro de romper

Aparecido Raimundo de Souza

VIVIAM E CEZAR SE ENCONTRAM à saída da faculdade onde estudam. Logo que chega, a moça ao invés de lhe dar um beijo de bom dia, parte para uma pequena discussão.

VIVIAM (Muito séria. Ela realmente está muito séria):
- Cezar, você tem certeza que me ama de verdade como acabou de me falar há dois segundos atrás pelo celular?
CEZAR:
- Claro, Viviam. Por que esta cisma boba agora?
VIVIAM:
- Não sei. Ultimamente você anda estranho e desligado!
CEZAR:
- Meu amor, deixa de besteiras. Eu te adoro. Você é a mulher da minha vida. Faz uma pausa e grita: A MULHER DA MINHA VIDA. EU TE AMOOOOOOO!...

VIVIAM:
- Será?
CEZAR:
- Duvida?
VIVIAM:
- Às vezes sim, outras também.
CEZAR (Apaixonado):
- Eu te amo, Viviam. Amo você desde a primeira vez em que coloquei meus olhos nos seus. Foi como se uma fada madrinha tivesse batido com a varinha de condão e me despertado para um sonho lindo.
VIVIAM (Fria e desligada):
- E a Marina?
CEZAR:
- O que tem a Marina?
VIVIAM:
- Como o que tem a Marina? Você se esqueceu dela?
CEZAR:
- Completamente!
VIVIAM:
- Não entendo! Você não gostava da beldade com uma intensidade acima do normal?

CEZAR:
- Acabou Viviam. Terminou. Marina é carta fora do baralho.
VIVIAM:
- E o bilhete dela que eu peguei no seu bolso?
CEZAR:
- Nada a ver!
VIVIAM:
- Tudo a ver.
CEZAR:
- Viviam, esquece a Marina e aquele maldito bilhete. Aliás, se você leu, e tenho certeza que sim, deve recordar que nele só estava escrito que ela queria o livro do Veríssimo de volta que havia me emprestado. Viviam, sua bobinha, meu amor é você.
VIVIAM:
- Prove.
CEZAR (Tira do bolso traseiro da jeans, uma caixinha embrulhada em papel de presente):
- Veja o que eu trouxe.
VIVIAM (Desembrulha atabalhoadamente):
- O que é isto? A chave de uma Ferrari?

CEZAR:
- Deixe de ironia.
VIVIAM (Retira a tampa da caixinha):
- Meu Deus, Cezar. Um par de alianças. Caraca! É de ouro?  Espera aí, o que significa? Quem é a felizarda?
CEZAR (Sorri mostrando certa decepção):
- Viviam, fala sério. Felizarda? Preciso dizer?
VIVIAM:
- Ao menos seja romântico... e sincero... alguém que eu conheça?
CEZAR:
- Viviam, me escuta. Olhe para mim.  Este par de alianças...
VIVIAM:
- É um presente para a outra? Tudo bem, numa boa. Só me diga quem é a vagabunda. Quero dar os parabéns. Sem mágoas...
CEZAR:
- Viviam... Viviammmmmm... presta atenção! Isto aqui é mais que um presente. Significa um pedido.
VIVIAM (Coça uma comichão imaginária na orelha direita):
- Um pedido? Que pedido?

CEZAR (Se ajoelha aos pés de Viviam):
- Viviam, minha gatinha linda, quer ser minha mulher?
VIVIAM (Coça agora a outra orelha):
- Sua o quê?
CEZAR:
- Minha esposa, mãe dos meus filhos, a deusa do meu coração? Viviam, minha paixão, quer viver ao meu lado até o fim dos nossos dias?
VIVIAM (Se abre num sorriso maroto):
- Por acaso está me pedindo em casamento?
CEZAR (Muito compenetrado):
- Oficialmente.
VIVIAM (Brinca):
- Com vestido de noiva, véu, grinalda, padrinhos, igreja, padre, buquê de flores pra eu jogar para meus amigos e amigas, limousine rosa com teto solar, motorista com quepe abrindo as portas, um monte de latinhas de cervejas amarradas no para-choque, lua de mel num paraíso fiscal e tudo mais? 
CEZAR:
- O que você quiser, minha linda. O que você quiser. Menos o paraíso fiscal.
VIVIAM:
- Deixo o paraíso fiscal de lado. Antes que eu responda sim ou não, esclareça um ponto obscuro. Tenebrosíssimo por sinal. Você teve um caso com a Walquíria?

CEZAR:
- Por tudo quanto é mais sagrado, Viviam. Estou lhe pedindo, aqui, de joelhos, na frente de toda essa galera transitando pra lá e pra cá... na verdade estou implorando para ser minha esposa e você me vem com esta paranoia de ciúme besta desenterrar fantasmas do passado?
VIVIAM (O dedo em riste):
- Não se faça de desentendido. Walquíria não é nenhum fantasma do passado, nem estou com ciúme. O problema é que até um mês atrás vocês viviam num chamego, num agarramento e numa beijação... nossa mãe santíssima. Dava raiva ver vocês dois. Puta que pariu...
CEZAR:
- Walquíria é apenas uma boa amiga.  Dessas que a gente guarda a sete chaves, num lugar secreto dentro do coração. Lembra da música?

VIVIAM (Se concentra num cachorro vadio que aparece do nada):
- Lembro. Aquela antiga do Roberto Carlos. Amo essa música. Uma das minhas preferidas. Meu livro de cabeceira. Não mude de assunto. Voltando à Walquíria. Só amiga?
CEZAR:
- Só amiga e também uma grande companheira. A música que você diz ser a sua preferida e de cabeceira (nunca ouvi dizer que existisse livro-música de cabeceira), não é de Roberto Carlos, mas de Milton Nascimento. Deixa pra lá. Então, aceita ser minha cara-metade? A pedra que faltava para completar o mosaico da minha existência? Meu chinelo faltoso?

VIVIAM (Com o semblante apaixonado):
- Me beija...
CEZAR (Abre os braços):
- Me abraça com força, meu amor...
Cezar obedece prontamente.

VIVIAM (De repente dá um passo atrás. Limpa os lábios com as costas das mãos):
- Ei, calma aí! Pera lá! Estou enganada, ou este beijo que me deu se parece com aquele insosso e sem graça que você tascou, um mês atrás, se não me engano, em Ana Paula? Aliás, por falar naquela sirigaita, acaso tem se encontrado com ela?
CEZAR:
- Viviam, por tudo quanto é mais sagrado. Pelo leite que mamou na sua mãe, esquece a Ana Paula.
VIVIAM:
- Posso até esquecer... mas aquele beijo... ali teve coisa. Ah, teve! Rolou química. Você levou aquela magricela pra cama?
CEZAR:
- Viviam, minha linda e amada, me beija e esquece o que passou. Me dá, de novo, um forte abraço... venha...

VIVIAM (Se achega ao rapaz e o abraça. Todavia...):
- Ah, ah...! Este abraço, meu lindo e “galinhoso” Cezar... me trouxe à memória aquela outra, a Sophia. Peguei você na cantina da faculdade com ela... os dois emboladinhos, comendo você um sanduiche de queijo, ela um pão com manteiga e ambos, veja só, ambos dividindo o mesmo copo de refrigerante. É mentira minha?


Cezar está no limite. Se emputece de vez. Não é pra menos. Inopinadamente passa os cincos dedos no par de alianças, joga no meio da rua e aplica um tremendo tapa no rosto da namorada. Viviam começa a chorar. Em contínuo, Cezar vira as costas, entra em seu carro e racha no trecho.

Alunos que transitam por ali, em vozes uníssonas, soltam um “Meu Deus, que horror! - Quanta violência! - Miga denuncia este crápula”.
E acorrem todos a socorrerem a pobre indefesa sentada, desconsolada, no meio fio.   
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Rio de Janeiro, 30-11-2018

Colunas anteriores:

3 comentários:

  1. Ficção ???
    Mulheresw como Viviam , não gostam de homens , apenas sonham com as aventuras que eles tem com outras mulheres , com uma certa curiosidade , mas sem coragem para experimentar.
    E o que faz a Marina ,falando pelos cotovelos,na ilustração do texto?
    Seria uma destas ?
    Paizote

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A ilustração é de minha responsabilidade.
      Simplesmente, e como sempre faço, fui em busca de uma ilustração. Digitei "Mulher chata", e dentre as figuras que me apareceram, escolhi esta. Se se digitar "Falando pelos cotovelos" a mesma figura aparece, mais vezes.

      Excluir
    2. 😂👍🐢

      paizote

      Excluir

Por favor, evite o anonimato! Mesmo que opte pelo botãozinho "Anônimo", escreva o seu nome no final do seu comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente.
Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-