domingo, 22 de março de 2020

[As danações de Carina] Pato silencioso

Carina Bratt

Ontem, sábado, quase meio dia, passeando aqui por Coqueiral de Itaparica, em Vila Velha, ou mais precisamente pela Avenida Santa Leopoldina, me deparei com um restaurante de nome engraçado. Zepellin Gourmeteria. Me deu uma fome danada, eu saíra de casa sem tomar meu dejejum de todas as manhãs. Consultei o relógio. Uau! Quase uma hora da tarde. Resolvi parar e fazer uma visita a esse espaço, fugindo um pouco do “De Lira”, perto de meu apê, na Avenida Hugo Musso. De vez em quando é bom mudar de ares, ver coisas diferentes, pessoas novas, enfim...


Ademais, não estava muito propensa a voltar para casa, pelo menos naquele momento em que a minha barriga roncava esfomeada. Na verdade, queria também variar um pouco o local costumeiro. Sempre que damos uma folguinha nas viagens, Brasil afora, e conseguimos alguns dias em Vila Velha, eu e Aparecido, meu patrão, frequentamos os mesmos  restaurantes, e agora, com essa história do coronavírus, sem dia para voltarmos aos aeroportos e aos aviões, decidi sair do carro e dar uma espiada no cardápio.

Estacionei, entrei e me acomodei numa mesa a três passos da porta principal. O garçom, alto e magro, me lembrou um desses pau de vara tripas, com uma gravatinha borboleta amarela apertada em volta do pescoço. Cheio de mesuras, me endereçou uma boa tarde e com um sorriso amplo no rosto cheio de espinhas, deixou o menu.
- Fique à vontade, senhorita. Qualquer coisa, é só chamar.
- Antes de escolher, por favor, me traga um guaraná bem gelado...
- Ok. Em seguida. Com licença.

Ia retrucar mais alguma coisa, quando percebi o ingresso de um rapaz de bermuda jeans e camiseta branca. Nessa camiseta se lia “Silent duck” em letras pretas. Um outro garçom que espreitava, acorreu ao encontro dele, igualmente diligente e prestativo.
- Boa tarde, senhor?  Mesa?
- De preferência. Se tiver uma em formato de tambor, adoraria...
O garçom ficou meio sem graça, se envergonhou dando um sorriso amarelo ao tempo em que indicava uma peça igual justaposta ao meu lado, porém, com quatro assentos. 

- Então, o que vai ser?
O engraçadinho não esperou para mandar a resposta:
- O que sugere? - Esquece, meu amigo. Manda aí, no capricho, um Parmentier de canard.
- Não entendi, senhor.
- Amigo, essa “comida” é típica das brasseries, geralmente é preparada com purê de batatas e carne de pato conservada na gordura e desfiada.
O pobre do garçom vermelhou as faces. Nunca ouvira falar naquele tipo de alimento.


Para amenizar a sua falta de conhecimento, disse que iria consultar a gerente e logo traria a resposta.   
- O senhor o que toma?
- Eu tomo uma boa vitamina logo que acordo, remédios para combater meu mau humor e, como hoje é sábado, mais à tardinha, apesar do toque de recolher por causa da pandemia, uma cervejinha com os amigos...
- Acho que o senhor não me entendeu. O que perguntei é o que o senhor gostaria?

O metido a Tiririca de meia tigela, não se fez de rogado:
- Ah, bom! Eu gostaria de ser rico, ter uma cobertura na beira da praia, um helicóptero a minha disposição, um chevrolet Camaro conversível, de preferência azul, um iate, viajar bastante e juro a você, meu caro, pediria a essa lindeza aqui ao meu lado em casamento...
O sujeitinho me apontou com o dedo, o que fez o garçom me endereçar um olhar de rabo de olho, avexado e contrafeito.
- Senhor, o que eu quero saber é o que o senhor quer para beber - completou o funcionário, irritado e quase a perder o bom humor.

- Vamos perguntar a esta senhorita linda e encantadora. Boa tarde, princesa. Meu nome é Rui. E o seu?
O garçom se colocou entre mim e o tresloucado. O varapau que me atendera chegou portando na mão direita uma bandeja com a bebida e um copo.
- Senhor, por favor... Senhorita, desculpe...
- Fica frio, estou acostumada a esses tipos de cantadas.
- Venha se sentar aqui comigo, ou me permita me acomodar ao seu lado.
O garçom aproveitou a chegada do colega de labuta que rodava como ele, em meio ao enorme salão, e questionou sobre o tal preto pedido.

- Senhor, repita o nome do prato, por gentileza!
- Pode ser de louça mesmo. Dispenso esses de plástico.
- Senhor, o prato que o senhor pediu... Para degustar...
- Ah, sim. Parmentier de canard.
O meu garçom da gravatinha amarela apertada em volta do pescoço balançou a cabeça.
- Senhor nunca ouvi falar. Vou solicitar a presença da Íris, nossa gerente. Aguarde só um instante, por favor.

- Essa Íris é bonita? - Se for igual a que você está tendo a honra de servir... Eu levo pra casa... Estou apaixonado por essa graciosa.
Ambos os garçons ficaram momentaneamente sem palavras.
-  Senhor, o que vai beber?
O garçom que atendia o idiota se afastou. Voltou dois minutos depois cochichando com a tal Íris, a gerente:
- Pois não senhor? Está sendo bem servido?
- Seu garçom nunca ouviu falar no prato que pedi...

Íris se abriu numa mesura ensaiada:
- E qual seria, senhor?!
- De novo? Vou repetir pela última vez: Parmentier de canard... Conhece?
- Claro, estive na França, e cansei de prepará-lo... O senhor tem bom gosto. Parabéns.
- Ótimo, até que enfim... Alguém inteligente...
- Senhor, o que vai beber – perguntou a encantadora Íris com um sorriso de um canto a outro da boca:

-  O que é que você tem?
Íris resolveu colocar um ponto final na conversa fiada, sem perder a elegância trazida das terras francesas.
- Eu? Nada senhor... Só estou chateada porque precisei mandar duas garçonetes para o hospital suspeitas de estarem com o coronavírus, meu time perdeu, o salário daqui é muito bom, porém, acredite, ganho o suficiente para chutar a sua bunda, porta afora, quando meus funcionários (apontou ambos os garçons) vem até mim e reclamam de figuras  chatas e pegajosas como o senhor...
Sem dar uma palavra, o babaca se levantou e cabisbaixo, rachou no trecho. Sumiu na poeira. Sequer ousou olhar para trás.
Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo. 22-3-2020

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3 comentários:

  1. Que texto maravilhoso!! Uma cena do cotidiano que nos faz refletir sobre as nossas atitudes e também a do próximo. E ao mesmo tempo, nesse tempo de quarentena, um texto que nos faz rir, contado de uma maneira leve!!

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  2. Passei para agradecer à amiga Bia, as suas palavras elogiosas ao meu humilde texto. São esses pequenos mimos, essas intervenções maravilhosas que me fazem seguir em frente. Obrigada pela sua participação.
    Carina
    Ca
    de Vila Velha, no Espírito Santo.

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  3. Para meus amigos de casca grossa como eu, o tal "parmentier" é a mesma coisa que o nosso DELICIOSO ESCONDIDINHO. Como detesto aves e similares, adoro ESCONDIDINHO DE CARNE OU DE VEGETAIS VERDES COM BACON, OU AINDA O PURÊ DE BATATAS PURO.

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