domingo, 8 de março de 2020

[As danações de Carina] Pela passagem do nosso “DIA INTERNACIONAL DA MULHER”, em certos casos, melhor prevenir do que remediar

Carina Bratt


Nosso dia é hoje, 8 de março. Viva nós. Já que é o nosso dia, vamos focar em um problema que está se alastrando pelo mundo pior que o coronavírus. Aliás, amigas leitoras, uma questão delicada que envolve todas nós, o belo sexo. Faço referência ao ESTUPRO. O que é o ESTUPRO? Crime que consiste no constrangimento (constrangimento é a mesma coisa que coagir, forçar, ser colocado em situação vergonhosa alguém e com esse alguém, obrigar a manter relações sexuais por meio de violência, ou atos libidinosos. Em outras palavras, o mesmo que forçamento).

Nesse patamar, não importa qual seja a violência usada. Aqui todas elas se enquadram perfeitamente. Nos últimos anos, acreditem, houve um grande aumento no número de estupros denunciados (sem falar naqueles que ficaram às escondidas e não foram relatados). O estupro, segundo estatísticas recentes, mostram que houve um aumento de mais de 400% no número de estupradores, conforme noticiaram em seu artigo Clariana Leal Sommacal e  Priscila de Azambuja  Tagliari,  publicada na revista da ESMESC,  sob o título “A Cultura do Estupro: O Arcabouço da Desigualdade, da Tolerância à Violência, da Objetificação da Mulher e da Culpabilização da Vítima”.

Nesse trabalho de fôlego, tomamos conhecimento que “Esses 400% incluem estupradores admitidos nas prisões do Estado de Nova York nos últimos cinco anos em relação aos seis anos anteriores. Não se sabe se essas estatísticas refletem um crescimento dos estupros cometidos ou apenas dos estupros denunciados. O estudo das doutoras acima indica que em 20% dos estupros denunciados, as vítimas tinham menos de doze anos. Cerca de 60 mil estupros se tornaram público anualmente nos Estados Unidos, e, igual número, aqui no Brasil”.

Guilherme de Souza Nucci em seu brilhante “Crimes Contra a Dignidade Sexual”, em sua 5ª edição, pela Forense, esclarece que “as mulheres que tiveram filhos ou que mantinham relações sexuais podem sofrer um trauma físico mínimo em consequência de estupro. Porém, as virgens e crianças, as lacerações vaginais podem ser severas. Logo após o estupro, a mulher deve procurar ajuda médica de um pronto-socorro ou de seu ginecologista. As lacerações vaginais podem ser graves a ponto de exigirem uma cirurgia para reparar os danos e controlar a hemorragia”.

E conclui mais a frente: “Essa reparação deve ser feita tão depressa quanto possível, para evitar infecção ou perda excessiva de sangue e para assegurar uma cicatrização adequada. Se a vítima for uma criança (não importa a idade), deve ser internada num hospital. Com frequência, a menina precisa de anestesia geral para ser examinada e tratada, pois pode estar assustada a ponto de não permitir um exame adequado”.  Sohaila Abdulali trouxe para nosso deleite, o “Do que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro”, pela Editora Vestígio, com tradução de Luis Reyes Gil. 

Em linhas gerais, ela informa que “Infelizmente, não existem instruções ginecológicas claras que ajudem a mulher que está sendo estuprada a evitar os traumas físicos e emocionais, uma vez que cada caso de estupro é completamente individual. Se não for possível escapar e for inútil gritar, talvez seja aconselhável deixar o estuprador levar à cabo seu intento sem resistir. Lutar pode provocar mais violências e ferimentos. Já se sugeriu como meio de proteção, que a mulher faça alguma coisa que ‘corte o barato’ do atacante, tal como vomitar, tirar a peruca e jogar nele, tirar a dentadura, ou mesmo urinar ou defecar. Esses atos, em vez de irritar, talvez choquem o estuprador em potencial’”. 

Claro, amigas leitoras que isso não se aplica às crianças e as meninas longe da idade adulta e dos entendimentos e esclarecimentos necessários. “Se for estuprada, a mulher deve entrar em contato imediatamente com seu médico -, ensina Leslie Jamison em seu ensaio ‘Exames de empatia’ e observa: “Também deve denunciar o fato à polícia, dando a descrição clara do assaltante e das circunstâncias do ataque. Se os órgãos genitais ficarem traumatizados, é preciso ajuda médica imediata’”.

No mesmo seguimento, entretanto mais para o lado romanceado, porém verdadeiro, Lena Dunham em “Não sou uma dessas: uma garota conta tudo o que ‘aprendeu’”, alertando que “mesmo sem trauma físico, a mulher deve procurar assistência médica por dois motivos importantes. Primeiro, nessa situação de emergência, se houver possibilidade de gravidez em consequência de estupro, ela poderá receber uma ‘pílula do dia seguinte’ para evitar a concepção; segundo, deve fazer exames para doenças venéreas. Se houver suspeita de doença, deve tomar antibióticos. Outro motivo importante para o exame médico é obter evidências materiais do estupro, tais como amostras de esperma na vagina ou a descrição de lacerações vaginais’”.

Numa visão geral, frequentemente  nós mulheres, as representantes do belo sexo (mas também do sexo frágil) ficamos com vergonha de procurar ajuda médica e legal, pois nós todas, as eternas vítimas de estupro, muitas vezes  somos maltratadas e humilhadas pelas próprias pessoas que deveriam nos ajudar, aqui incluo (são raras as exceções) nossos parentes mais chegados, e claro, os médicos e a própria polícia. Por isso, muitos estupros não são denunciados. Venturosamente, essas atitudes estão mudando para melhor, e, a cada dia, novas vítimas de estupros recebem assistência psicológica. Por aqui, com o aumento das Delegacias da Mulher, operadas por mulheres, estão especificamente treinadas para atender a esse tipo de crime, a meu ver, hediondo, tanto ou quanto pior que aqueles elencados na Lei Maria da Penha.

Não poderíamos deixar de mencionar Drauzio Varella, que certa vez, no programa ‘Fantástico’, da Rede Globo, em relação ao trauma psicológico do estupro, assim se posicionou: “Mesmo quando há um trauma físico mínimo, com frequência o estupro provoca trauma psicológico. Esse trauma pode ser grave a ponto de influenciar para sempre a visão da vítima sobre o sexo, os homens a ela mesma. Frequentemente, a mulher fica chocada e temerosa de que o crime possa voltar a acontecer. As relações sexuais voluntárias com um parceiro desejado podem ser perturbadas pelo medo do sexo originado na experiência do estupro; às vezes esse medo chega a provocar vaginismo’”. 

Amigas e leitoras, para terminar as minhas “Danações” de hoje, vou tentar, em poucas palavras, esclarecer como prevenir o estupro. Como acontece em relação a muitos outros crimes, é muito difícil ou, às vezes, se torna quase impossível ‘sairmos fora’ do perigo iminente (iminente é aquilo que está prestes a acontecer). Aconselho adotarem os conselhos que me foram passados pela minha ginecologista. As precauções são as mesmas para prevenir assaltos e roubos: quando estivermos sozinhas, pelas ruas, evitarmos os caminhos desertos, notadamente à noite.

Se formos seguidas por um carro, moto ou bicicleta, darmos meia volta e sairmos correndo. Se abordadas num prédio, é melhor gritarmos FOGO do que SOCORRO, para que nos abram as portas. Os trincos de janelas e portas devem ser adequados; jamais deixarmos que entrem estranhos não identificados. A lista de conselhos é grandiosíssima e poderia seguir indefinidamente; o principal deles é simplesmente sermos cuidadosas e prudentes e evitarmos, em vez de confrontarmos as situações consideradas perigosas, fugirmos delas. 

Os pais (e isso serve para todos os papais e mamães e demais responsáveis) saber sempre onde estão as filhas, os filhos os netos e as netas, adverti-los sobre os perigos representados por desconhecidos, ou até mesmo de membros da própria família, neles incluídos os amigos mais chegados, aqueles que frequentam nossa casa, nosso meio, nosso dia a dia, etc.  Lembrem sempre dessa frase: “uma mulher prevenida, vale por duas. Duas mulheres prevenidas, não sobra nenhuma”. (axioma pinçado de “Frases geniais” de Paulo Buchsbaum – Ediouro 2004). Sem mais para hoje, curtam nosso dia. E viva esse domingo, 8 de março, dia de todas nós, “AS MULHERES DO BRASIL”.
Título e Texto: Carina Bratt, do Rio de Janeiro. 8-3-2020

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2 comentários:

  1. Quando o assalto e o estupro for inevitável, RELAXE e "STAYING ALIVE".

    DIA DA MULHER QUE TODO HOMEM AMA.
    SEJA MÃE, IRMÃ, AMIGA, NAMORADA OU ESPOSA.
    DEIXO MINHA HOMENAGEM À ELAS COM UM POEMA DE 1969.

    Qual a mulher ideal, para mim?
    "SEU NOME É JAQUELINE".
    Lembro-me de que respondi que ideal é sempre a mulher que a gente gosta,
    e que nos compreende. Mas pensei depois no assunto, e nasceu o poema. A mulher ideal, única, tem seis faces. Seis faces que a tornam múltipla, e infinita, para a nossa vida, a nossa ternura, o nosso amor. Na realidade, há todas as mulheres, na mulher que a gente ama. Disse isto no poema:

    ” As Seis Faces… ”

    Quando te encontro e observo que ficaste mais linda
    e soltaste os cabelos para me agradar,
    e me entregas os lábios num beijo leve e morno como a aragem,
    e tranças os teus dedos em meus dedos, e me olhas
    como no dia em que te tirei para dançar pela primeira vez,
    é que percebo que continuas
    a namorada.

    Quando te preocupas com o tempo porque vou sair,
    e recomendas detalhes como se me visse criança,
    e repreendes a minha falta depois que as visitas se foram,
    e endireitas a minha gravata, e escolhes a minha camisa,
    e me fazes trocar os sapatos que não combinam;

    Quando surpreende o meu cansaço, e me enlaças,
    e recosta a minha cabeça em teu colo,
    e me dás conselhos como se eu pudesse segui-los,
    é que descubro que há em ti, para mim, até mesmo
    um pouco de mãe.

    Quando te consomes muito mais com as minhas preocupações
    e advinhas meus pensamentos, me prevines contra falsos amigos,
    e te empenhas em partilhar também minha luta;

    E economizas, como se com isso poupasses minhas forças,
    e, sem querer, com uma palavra, desvendas uma solução
    tão próxima e tão evidente, mas que meus olhos não percebiam;
    quando à noite , na sombra, sem tocarmos os corpos,
    conversamos, esquecidos, como dois amigos numa encruzilhada,
    é que compreendo que tu és
    a companheira.

    Quando chego, e ao abrir a porta, estás à espera
    com tua felicidade que me envolve e me aconchega,
    e tirar da minha mão a pesada pasta de couro,
    e me entregas os lábios (úmidos e trêmulos);
    Quando te encontro depois, em todos os detalhes cotidianos
    e prosaicos, que fazem o melhor da vida:
    minha toalha de banho no lugar; meus chinelos no seu canto;
    minha roupa limpa sobre a cama; aquela jarra com flores arrumada;
    Aquela mesa posta, com seus talheres brilhando;
    aquele odor de refeição que é o perfume do lar;
    quando te vejo, leve e diligente, a circular pela casa
    que consideras teu Reino, teu Mundo, teu Universo;
    sei que tu és então
    a esposa.

    Quando à noite, de tarde, ou de manhã, (é um momento imprevisto
    e nunca marcado) sinto que precisas de mim, que te faço falta,
    como do ar, ou da água, de alimento, ou de vida,
    e te encontro ao meu lado sempre irrevelada, e te dispo,
    e se desencontraram as mãos e nossos corpos
    e subitamente nos jogamos, como banhistas
    contra o mar, contra as ondas, o mar desconhecido
    as ondas que afogam e arrastam,
    e de súbito estamos salvos na areia, como náufragos, és
    a amante.

    Quando te encontro ao meu lado, deitada numa nuvem
    a acompanhar outras nuvens preguiçosas e itinerantes
    no céu do coração;

    Quando te pões a falar como crianças nas brincadeiras
    em diminutivos, em “faz-de-contas” de pura imaginação,
    e de ti restou apenas o contato dos nossos corpos, que
    permaneceu em nós
    entretanto distante, imaterial, a planar
    como aquela gaivota na vaga luz da tarde que se esvai;
    quando estirados na areia, cansados, mas felizes,
    já podemos conversar, eu diria nesta hora que tu és
    simplesmente
    a irmã.

    Quando penso em ti, e te sei tantas, no milagre da multiplicação
    do amor,
    recolho-me a ti, como pássaro às ramagens, onde encontra
    a sombra, o ninho, o balanço, o fruto, – o impulso
    para o vôo.

    E amo, e trabalho, e sonho, e canto.

    Fonte:
    JG de Araújo Jorge. “No Mundo da Poesia ” Edição do Autor

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  2. Boa noite a todos e todas, especialmente ao amigo Roccha, que sempre me prestigia deixando um comentário. Esse poema de J. G. de Araujo Jorge, é, sem duvida alguma, uma pérola nacarada. E Roccha o escolheu, acredito, com todo o carinho que emana do seu coração. Parabéns pelo texto aqui deixado. Eu fiquei imensamente feliz com a sua participação e, claro, o mais importante, o poema de José Guilherme diz tudo aquilo que a gente gostaria de ouvir todos os dias. Uma poesia cujas palavras tem o condão de massagear nosso ego. Se o meu outro amigo e editor Jim me permitir, gostaria de lembrar igualmente um texto de Aparecido Raimundo de Souza que foi publicado nesta revista em 06 de março de 2017, sob o título "Ser mulher é...". cujo link segue abaixo:
    http://www.caoquefuma.com/2017/03/aparecido-rasga-o-verbo-ser-mulher-e.htmlm=1&fbclid=IwAR1ZZkChuEkLlITDwcfRClsNymuSF4NpRXfdL_k4dIz3tzuVAWgHrWAwd

    Aparecido é outro que sabe o caminho das pedras e tem as palavras certas para alegrar nosso dia a dia e fazer com que nosso cotidiano seja um pouco mais feliz. Parabéns, pois, a ele também. Roccha e Aparecido. Fico feliz por vocês dois fazerem parte da minha vida.
    Carinhosamente,
    Carina Bratt.
    do Rio de Janeiro.


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