terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

[As danações de Carina] Vestígios de encontros sobre o dejejum da manhã

Carina Bratt

Cantam alegres os passarinhos, lá fora, no pequeno espaço do meu quintal. Sei que é para mim. Todas as manhãs esses pequenos visitantes inesperados vêm na minha janela, como se tivessem a obrigação de me acordar. Essas avezinhas não estão presas em nenhuma gaiola. São livres como seus bateres de asas pelas poucas árvores que cultivo.

Essas gracinhas chegam de algum lugar da natureza em busca de alimentos para seus filhotes.  Animada, levanto correndo e me alegro, maravilhada pelas maviosidades do seus gorjeares incessantes. Ainda não deu seis horas. Falta pouco. Empurro a cortina, abro uma banda da janela. Uau! Lá estão eles. Ariscos, espertos, atentos ao menor gesto, como se temessem ser molestados por alguém chegado estranho.

Sorrio sabendo que a cálida manhã se vestirá dentro em breve de um bonito inexorável, um fantástico que surpreenderá a minha alma como se ela tivesse alcooolizadamente embriagada. Na verdade, está. Todas as manhãs o “meu eu” se renova, se recompõe ao se expandir para o bucólico do dia que está nascendo e breve tomará conta de tudo. Apressurada, disparo para a sala e repito o gesto maquinal de escancarar as acitaras que escondem o escuro do ambiente.

As sombras dos móveis ali dispostos, se esvaem dando lugar a uma luz resplandecente que parece trazer junto a presença marcante do Eterno. Espio compridamente para a calçada além das grades que guarnecem a minha varanda. Meus vizinhos madrugadores passam apressados, conversando entre si, misturando “bons dias” e trocando ligeiros papos ao acaso, como se quisessem, numa rapidez diminuta, renovar os diálogos e as fofocas do ontem anterior, ou restaurarem assuntos púbrios que ficaram pendentes.

Toda essa galera das residências ao comprido do logradouro, de repente silencia em direção ao ponto de ônibus. O trabalho fala mais alto. Chama, atropela, e a condução não espera nem ajuda aos que bambeiam os passos. Minha pequena rua se veste de esperanças enquanto as flores na garagem, ao lado do meu carro, brincam entre si, como se estivessem vivendo uma primavera eterna.

Entra em cena a geografia das surpresas inesperadas. Meu coração se escancara em alegrias. Sintetiza uma paixão avassaladora que deixa todo meu íntimo em ritmo de festa. Passo pelo banheiro, alívio a bexiga, escovo os dentes, penteio os cabelos, me olho no espelho e ensaio um gesto condescendente.  Na cozinha, Lilica, minha secretária do lar, me espera obsequiosa com o café acabado de preparar e os pães quentinhos recém chegados da padaria.

O cheiro da bebida é bom. Faz milagres. Opera maravilhas. No quintal, os pássaros voltam a dar sinais de vida. Nos biquinhos deles, as desalegrias dos pequenos insetos rasteiros que se deixaram ser abocanhados. É a vida que segue e se restaura e se aviva. Cumprimento Lilica, me sento, me sirvo do café, do pão, da manteiga, e volto, num ímpeto fugaz às lembranças imorredouras dos meus tempos de menina.

Papai, alegre, abraçava e beijava mamãe. Todas as manhãs ele fazia isso. Lá em cima, no céu, um azul de olhos recatados, namorava pequenas nuvens ralas, enquanto um vento soprando ameno, balançava a paisagem pastoril que formava a quinta. A noite, ah, a noite!... A noite, ainda virgem, roçava o espaço sorridente. Em derredor, estrelas viajavam e se entrelaçavam como se fossem partículas de cristais quebrados.

Muito tempo se passou desde então. Muito mesmo. Nem sei quanto! O que sei e guardo a sete chaves. Recordações, mimos, reminiscências, flashbacks de memorações antigas, envelhecidas e gastas. O que sinto? Sinto tantas coisas!... Entre elas, o perfume de papai que ficou recendendo no oco beócio do meu cotidiano brutesco. Nos lábios de mamãe, revejo as promessas de ósculos que nunca chegaram a ser dados.

Hoje, apesar de toda minha felicidade, o vazio se faz presente. Sempre se faz, apesar de mantê-lo longe. Em contrapartida, deitado ali na esquina, o meu Medo-receio, como um mendigo, apesar do canto dos pássaros, do café gostoso da Lilica, dos pães recém saídos do forno, dos meus vizinhos de sorrisos entristecidos e amarelos...  Apesar de tudo isso, meu medo se faz imediato, palpitante, atual e efetivo. O Medo... O meu Medo-receio quer saber de que lado está escondido o futuro.

Por conta disso, igualmente me junto a ele e me pego questionativa, encucada, alardeada, atordoada, fora de mim. De que lado, afinal, está escondido o FUTURO?! Não importa se desse lado ou daquele outro. O que conta, o que faz a diferença, o que me move, o que me alimenta, o que me seduz e me extasia, me revigora e me apaixona e me coloca no alto, bem acima do topo é a alegria de estar viva. O ritual incansável de reconstruir a vida plena a cada novo minuto que me é dado viver, me torna inabalável. Eu sou indestrutível.

Que se dane, pois todo o resto. Continuo aqui, firme e forte, imbatível e incansável, recolhendo com humildade, sonhos e dores, desesperos e incertezas, angústias e prostrações... Tudo isso eu guardo como se fossem relíquias benfazejas. Rebotalhos ofertados pelas mãos santas do Criador. Eu sei. Tenho certeza absoluta: vem de longe-distante a magia do amor... A feitiçaria encantada da Renovação. A Renovação fímbria em mim, se faz não só indelével e tesa, mas indesatável e firme como a rocha. Ela é solidificada e fixamente imudável. Apesar dos dissabores, dos perrengues, nunca, em tempo algum, se perdeu.
Título e Texto: Carina Bratt, da cidade de Carapicuíba, interior de São Paulo, 9-2-2020

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