quinta-feira, 28 de maio de 2020

A revelação do que somos

Jean-Baptiste Noé

“As forças de uma nação se revelam nas provações”

A onda de choque da vitória do Japão sobre o império russo em 1905 foi grande. Pela primeira vez, uma nação europeia era derrotada por uma potência asiática. O choque não era tanto militar ou político: o resultado desta guerra obrigava a repensar o ordenamento do mundo. A derrota é um apocalipse: ela revela as fendas e as falhas que se camuflavam e que se acreditava inexistentes, ela nos mergulha de maneira brutal, na realidade do que nós somos.

1798 para o Egito, 1898 para a Espanha, 1940 para a França, a história das nações é percorrida por derrotas apocalípticas. O desafio posto é o de saber o que devemos fazer: eliminar ou renovar.

A epidemia do coronavírus é uma derrota para a Europa. Os países asiáticos desenvolvidos geriram melhor esta crise. Sem confinamento, mas com máscaras e ferramentas tecnológicas, eles limitaram a propagação e o número de mortos sem destruir as suas economias. Tirando proveito de experiências precedentes de contaminação, eles souberam evitar uma crise maior sanitária e econômica.

A França se gabava de ter um sistema de saúde invejado óleo mundo inteiro. Ela acabou com milhares de mortos, apesar das medidas impositivas e de despesas muito elevadas.

A União Europeia demonstrou a sua impotência: foram as nações que agiram. Será difícil para esta estrutura política (EU) justificar um poder político depois de tamanha evaporação de legitimidade.

Um desafio moral. O número diário de mortos na França, durante o pico, não tem comparação com os atentados. Por mais dramáticos que foram os atentados islamitas, eles mataram menos em vinte anos do que um dia de pandemia. Desde 1945 a França só conheceu crises de ter, com este vírus ela conheceu uma crise do ser.

As dificuldades econômicas e o desemprego são lamentáveis, mas isso torna-se menor em comparação com a perda da vida e ter de deixar os parentes morrerem sós, sem possibilidade de os acudir.

Como Tucídides já havia percebido por ocasião da peste de Atenas, o perigo está em abandonar a civilidade para assumir a barbárie.

É ilusório acreditar que depois desta crise “tudo vai mudar”, ou que “nada mais será como dantes”.  Para as nações da Europa o desafio não será tanto econômico, mas moral. As guerras mundiais foram muito mais destruidoras do que esta epidemia; por mais dura que seja a situação para as empresas, será possível recuperar as perdas materiais, pelo trabalho e inovação.

Em contrapartida, será mais difícil recuperar as liberdades fundamentais restringidas sob o pretexto de guerra sanitária. Mais difícil ainda será compreender as razões do nosso fracasso sanitário e político e de tomar as medidas adequadas para enfrentar as próximas pandemias.

Motivos de esperança. As crises são o apocalipse das nossas falhas, mas também revelam as grandezas escondidas de nossas sociedades, bastantes motivos de esperança.

Foi graças à solidariedade que o choque pôde ser aguentado e superado: as nações, as famílias, as amizades, as redes sociais, toda esta mobilização permitiu que se pudesse assistir os mais frágeis e de manter a atividade econômica.

Seja o corpo social sanitário, enfermeiros e enfermeiras, médicos, bombeiros etc. que aguentou, apesar da fadiga e da falta de meios, o corpo social da inovação e os empreendedores, que modificaram as cadeias de produção para fabricar máscaras, testes e material hospitalar, inovando para encontrar novos produtos capazes de responder à urgência, ou o corpo social da continuidade das atividades essenciais: professores, padeiros, comerciantes, serviços técnicos e informáticos etc.

A sociedade civil foi o fator-chave da luta sanitária. A revelação desta crise foi a de ter demonstrado a importância do seu papel como pilar essencial do poder. Se o exemplo do cavalo de Troia ilustra o fato que as civilizações morrem do seu interior, também é no seu seio que se encontram os meios do renascimento e da renovação.
Título e Texto: Jean-Baptiste Noé, CONFLITS, nº 27, maio/junho de 2020 
Tradução: JP, 28-5-2020

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