sábado, 26 de outubro de 2019

Eles tomam posse e não deixam nada

Agora a sério (se possível): antigamente a sujidade da política sofria uma demão de verniz. Nas situações extremas, varria-se o lixo para debaixo do proverbial tapete. Nos tempos que correm, é isto.

Alberto Gonçalves

20 ministros? 50 secretários de Estado? Não me venham com resmungos: os Camarões, que não são melhores que nós, têm 33 dos primeiros, e sabe Deus quantos dos segundos. Os números, que a má-lingua condena, apenas demonstram a abundância de gente valorosa que gravita em redor do Largo do Rato, e que, do alto da sapiência dele, o dr. Costa quis e soube premiar. Não houve escolhas ao acaso. Houve a consagração de indivíduos (e indivíduas) cujas proezas os elevam acima do lorpa, perdão, do contribuinte, perdão, do mortal comum.


Temos governantes idolatrados por levantar a dívida pública (acima de níveis espetaculares) e apostar na carga fiscal (a mais espetacular de sempre).

Temos governantes que investiram o dinheiro que, se pudessem, os cidadãos gastariam à toa para, em boa hora, salvar a banca de percalços imprevisíveis.

Temos governantes que arruínam o Serviço Nacional de Saúde com o único – e admirável – propósito de mostrar ao neoliberalismo capitalista-fascizante o quanto o SNS era bom.

Temos governantes que deixaram de ser juízes e que, com vasto altruísmo, transportam a separação de poderes para a política.

Temos governantes casadas com juristas tão indispensáveis que vendem ao governo pareceres (e parece-me bem).

Temos governantes tão francos e modernos que protestam no Twitter a remoção das esposas do governo que eles aceitaram integrar.

Temos governantes com espírito fraternal, que pagam as oliveiras de amigos ao preço das próprias árvores bíblicas.

Temos governantes que souberam gerir, com escassas fraudes de permeio, a épica e adiada reconstrução de Pedrógão e arredores.

Temos governantes que, durante os incêndios de 2017, garantiram que os bombeiros não falassem e o povo não fosse incomodado com informações deprimentes.

Temos governantes que, por coincidência, possuem empresas no sector que passam a tutelar, e que, por pudor, despacham as empresas quando são nomeados, e que, por respeito dos valores da família, asseguram que a transação das empresas se faz com um sobrinho.

Temos governantes que confiam na economia a ponto de abrirem firmas de imobiliário no dia anterior à tomada de posse.

Temos governantes que combatem justamente os colégios privados e que, com grande sacrifício pessoal, mantêm as filhas num colégio privado por pura necessidade.

Temos governantes que, com rara visão, atribuem contratos de centenas de milhões a “startups” pequeninas (50 mil euros de capital social), jovens (três dias de existência), humildes (sediadas numa junta de freguesia) e empreendedoras (a junta de freguesia, à imagem dos dirigentes, é do PS).

Estes são só alguns exemplos. Estou certo de que todos os membros do executivo ostentam credenciais fantásticas, e que o nosso desconhecimento das mesmas reflete a nossa radical ignorância. Não é qualquer borra-botas que é selecionado para um governo destes, e não é qualquer borra-botas que aceita a seleção. No caso, são borra-botas muito peculiares.

Agora a sério (dentro do possível): antigamente a sujidade da política sofria uma demão de verniz. Nas situações extremas, varria-se o lixo para debaixo do proverbial tapete. Nos tempos que correm, é isto. Nas redes do funcionalismo partidário ou nos jantares lá de casa, o dr. Costa arregimenta umas resmas de fiéis sem nome nem escrúpulos e pronto, está constituído um governo. Perante o imenso rol de serviçais indistintos (no sentido de que nunca alguém distinguirá uns dos outros), é engraçado ver o “comentariado” oficial, assaz solene, debater as “apostas seguras”, as “apostas de risco” e as “apostas na continuidade”. Eu aposto na miséria e na prepotência e na voracidade do costume, agravadas pela crescente falta de vergonha.

E, claro, pela falta de um presidente que imponha limites. À semelhança do tango, o fandango nacional exige um par: o dr. Costa, que convoca criaturas abaixo de suspeitas, e o prof. Marcelo, que as aceita sem hesitação ou ressalva. Fica a ideia de que o duvidoso currículo de tantos governantes não é um obstáculo à respectiva “indigitação”, mas um pormenor indiferente ou um critério indispensável. Nas profundas declarações que comete, o prof. Marcelo orgulha-se repetidamente de dormir pouco: se fosse responsável por legitimar tamanha trupe, eu não dormiria nada.

Felizmente, os portugueses dormem. A sucessão de escândalos em matéria de compadrio, inaptidão, atropelos, descaramento e pura fraude que definiram o governo anterior castigaram o PS com a vitória nas urnas e o reforço da votação. Não vou discutir pela enésima vez se os portugueses preferem habilidosos deste calibre porque são iguais a eles, porque sonham ser iguais a eles ou porque não veem alternativa. A verdade é que os portugueses optaram por um governo assim porque quiseram, e esses 18% de eleitores deviam ser forçados a assistir em direto e de pé ao lindo serviço que fizeram: simbolicamente, a tomada de posse é hoje. Na prática, o PS já tomou conta disto há anos.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 26-10-2019

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