terça-feira, 29 de outubro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] O pintinho do meu neto


Aparecido Raimundo de Souza

MEU NETO JOÃO EDUARDO está feliz da vida depois que descobriu o seu pintinho. Desde então, novidades uma atrás da outra. A começar pela mais nova, ou seja, a de não saber o que fazer com ele. Para que servia o tal pintinho? Chegou a me perguntar, de chofre, levado pela curiosidade da inocência fluindo pôr todos os poros: “vovô Licido” (ele não sabe pronunciar Aparecido e, pôr essa razão, no entendimento de sua cabecinha em formação passei a ser à carga de um batizamento espontâneo, “vovô Licido”) -, “vovô Licido”, como é que eu vou usar esse negócio?.

A galera aqui em casa só faltou me bater. Marlúcia, minha “ex”, avó do guri, emprestando estranheza às palavras, me xingou todinho numa gulodice de fazer dó. Todinho aqui se subtenda da planta dos pés à raiz dos cabelos. Disse com todas as letras, no seu reclamão mal programado, que o guri era pequeno demais para compreender essas coisas de pintinho. Amanda, minha filha, mãe do ilustre jovenzinho, fez igualmente rostinho de zanga, porém, no final das contas, enfurnada nos laços virtuais do seu aparelho celular, se conformou. Suas preocupações passaram batidas como nuvens claras num céu de brigadeiro.

Apesar disso e da balburdia toda formada em torno do pintinho do meu neto, estou contente. Feliz, realizado. João Eduardo rindo de um canto a outro da boca, falando, como sempre, pelos cotovelos, mostrou o pintinho para os tios, para os primos e primas e até para os coleguinhas da rua. A bisavó, ou (carinhosamente “Vovó Cobrinha”), mãe do pai da minha “ex” ressalvando também, de passagem, ex-sogro, voou mais longe. Viajou na maionese. Em sua ancoragem transitória em torno do assunto, torceu o nariz. Carafeiou os modos à Dercy Gonçalves. Na pele da dita, soltou a língua, atropelou cobras e lagartos... Para ela, o pintinho de João Eduardo se consubstanciava num evento desastroso, como se tivesse pintado no pequeno mundinho do meu neto, a mente em formação, um elefante entre galinhas, um touro tropeçando por cima de bercinhos com nascidos recém-desmamados dos seios de suas respectivas mães.  

Antes da concordância derradeira, aboletada ainda no seu ritual de passagem pelo meu escutador de novelas, me escrachou barbaramente. Rezou um terço com todas as contas do rosário, observando que eu poderia ter falado ou pior, tocado ou mostrado ou ainda, dado a conhecer, ao infante, uma coisa mais educativa. Não liguei, não dei à mínima. Entendo, pelos anos vividos, pelo menos sabendo da existência do pintinho, João Eduardo crescerá uma criança sadia, esperta, mais do que se mostra às pessoas hoje e, sobretudo, seguirá seus caminhos porvindouros não renegando a segundo registro as pequenas coisas boas da vida. E quando amanhã, se fizer adulto... 

Fui levá-lo na escola. Alegria em profusão. Antes de chegar à porta da creche, João Eduardo se desdobrou tagarelando, ou melhor, gritando, com os coleguinhas que encontrava pelo caminho (a maioria companheirinhos com os quais dividia o mesmo espaço num segundo lar comum. A escola, para quem não sabe, é um segundo lar comum) o bate papo não outro senão o bendito pintinho.
- Du, ele faz piu, piu, piu, piu – indagou um dos moleques a certa altura?!
João Eduardo me encarou serio:
- “Vovô Licido”, meu pintinho faz piu, piu, piu, piu?

 - Acho que sim. Quando chegarmos em casa de volta, a noite,  perguntaremos a ele. O que acha da ideia?
- Não sei! Acho que ele faz sim...
Dentro da confraternização da sala de aula, irmanada na sociedade escolar, uma confusão maior se formou estupenda. Fiquei sabendo depois, o furdunço se propagou ao tamanho de um desespero inesperado que chegou de mansinho, sem prévio aviso. João Eduardo contou para toda a turminha, do seu pintinho, acendendo aqui e ali, a curiosidade criminosa de outras cabeças adultas com ideias perversas, o que deixou as professoras com os semblantes fechados. Na saída, às cinco horas em ponto, minha “ex” foi buscá-lo e, logo que a coordenadora avistou a avó, chamou-a com ênfase, os olhos piscos no interstício da porta de acesso, deixando transparecer às mãos nervosas e no rosto branco como uma vela acentuada expressão de nervosismo.

Queria saber, à língua anfíbia... Na verdade buscava como numa reciprocidade de proteção aos demais que frequentavam o mesmo espaço, esclarecimentos pormenorizados a respeito do mais novo personagem que bailava na ponta da língua do João Eduardo. “Dona Lucia, perdão, dona Marlúcia, o tempo todo Dudu não fez outra coisa a não ser falar do seu pintinho...”.

E a Marlúcia bondosa como sempre, carismática e gentil explicou devagar, pausadamente, aclarando as objeções da jovem dirigente. Mais calma, do alto do seu posto de comando, embora uma nuvem de anseios incontidos continuasse a lhe pendurar no rosto uma maquiagem de coloração vencida por sobre a pele molengada e sem rigidez, como se quisesse se desculpar pelo incômodo que houvera provocado em cima de uma situação tão banal que não requeria procedimento tão devasso, a autoritária serviçal sorriu sem graça e pediu mil desculpas:

- Foi o avô – completou, por fim, a Marlúcia, sem perder a meiguice do sorriso franco. Imagine! - Foi o avô que teve essa ideia. Comprou na feira de domingo e deu de presente ao neto.  Acredite moça, o bichinho pia o dia inteiro, pia sem dar um minuto de folga na minha cabeça. Esse danado desse pinto era só o que me faltava! 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro. 29-10-2019

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