sábado, 11 de abril de 2020

[Para que servem as borboletas?] Montaigne e o coronavírus...

Valdemar Habitzreuter

Situação difícil! A pandemia não cede. Sem previsão de vacina. Remédios tampouco. Mortes aos montes. Cientistas pegos de surpresa e se veem impotentes. Até quando essa situação se estende não se tem noção exata ainda. Uns estabelecem meses, outros anos….

Uma coisa inusitada há muito tempo não visto: um devastador vírus à solta ameaçando de morte os humanos. E ninguém quer morrer. Muito menos por um vírus insidioso invisível.

O negócio é preservar a vida, mantendo-se, por ora, em quarentena, sem chegar ao cúmulo de ter pavor pela morte...

Montaigne tem uma fórmula interessante que afugenta o medo da morte. De que maneira? Voltar-nos a nós próprios. Experimentar-nos a nós mesmos em comparação às experiências e opiniões de outrem.

Por que devo adotar as experiências e opiniões dos outros se eu mesmo tenho condições de formular a contento minhas opiniões e viver conforme elas?

Alimentar uma atitude cética sobre tudo o que se diz por aí é demonstrar equilíbrio perante a vida. Ser cético não quer dizer desprezar as experiências e opiniões dos outros, mas duvidar delas e fazer sua própria experiência para comprová-las ou não como úteis. Isto significa independência de autoridades com suas verdades…

Eu devo ser minha própria autoridade quando em profunda reflexão tomo uma atitude cética sobre tudo que outros estabelecem como verdade.

O filosofar deve ser um contínuo experimentar-se a si próprio, numa contínua explicação do eu a si próprio. Este penetrar-se em si mesmo dá a real dimensão da vida e que a morte é elemento constitutivo da condição humana.

Não morremos por causa de doenças; morremos porque estamos vivos. A morte insinua-se e mistura-se constantemente em nossa vida. E ter medo dela é já um sofrer. Sofre-se por aquilo que se receia.

Logo, se o homem medita sobre a morte chega à conclusão que em algum momento perderá a vida, e então dispõe-se a perdê-la sem desgosto, propondo-se a vivê-la o mais intensamente aproveitável possível.

A ideia da morte dá o sentimento de que a vida é um bem estimável e não deve ser desperdiçado por medo da morte. A certeza da morte nos ensina, então, a viver com mais empenho e entusiasticamente.

Diz Montaigne: “eu gozo a vida duas vezes mais do que outros, porque a medida do gozo depende em maior ou menor grau do empenho que nele pomos… À medida que a posse da vida se vai tornando mais breve, necessário é que eu a torne mais profunda e plena”.

Essa atitude montaigniana podemos colocar em xeque (atitude cética) se serve para nossa própria existência e o coronavírus que a ameaça…
BOA QUARENTENA e preze a vida!
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 11-4-2020

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