quinta-feira, 2 de abril de 2020

Paulo Baldaia: um esclarecimento

Rui Albuquerque

Na terça-feira passada recebi o telefonema de um amigo que se queria justificar por ter faltado a uma reunião por videoconferência, que eu tinha agendado e onde ele devia ter comparecido. Disse-me – o que me comoveu bastante – que tinha em sua casa um filho asmático, com apenas cinco anos, com o vírus COVID-19. Mas não só: também o seu pai, com 78, a sua mãe e a irmã tinham igualmente contraído o vírus. Não tive resposta para lhe dar. Talvez por estar com vontade de desabafar, o meu amigo contou-me que o estado de saúde do seu pai piorara uns dias antes, tendo sido internado no Hospital de São João, no Porto, onde entrou com os rins e o fígado já em processo de falência. Os médicos que o receberam e acompanharam no internamento hospitalar ter-lhe-ão dito que era grave o estado em que o seu pai se encontrava e que, mais dois ou três dias em casa lhe teriam sido fatais. Foi tratado no hospital, tendo-lhe sido administrada hidroxicloroquina. Nem uma semana depois, mais precisamente seis dias, já se encontrava em casa, obviamente ainda abalado, mas estabilizado e em franca recuperação. Ou seja, com o seu estado clínico completamente revertido.

Achando que a recuperação do pai de um amigo, possivelmente devido a uma substância sobre a qual existem expectativas sérias de poder ajudar na cura deste vírus, podia ser, nos tempos sombrios que correm, uma história inspiradora, resolvi partilhá-la no Twitter. Limitado pelo reduzido número de caracteres que um tweet comporta, circunscrevi-me ao essencial: que uma pessoa conhecida dera entrada no S. João, já em fase adiantada da infecção provocada pelo COVID-19, com alguns órgãos a entrarem em falência, e que, ao fim de alguns dias, tinha regressado a casa e estava bem, tendo-lhe sido administrada, no tratamento hospitalar, a hidroxicloroquina. Algumas pessoas colocaram likes, outras retuitaram e comentaram o post, entre elas o Carlos Guimarães Pinto. Todas o fizeram urbanamente, mesmo as que suscitaram reservas sobre a eficácia do medicamento, o que, num momento em que ainda não existem certezas derradeiras, é uma posição tão sensata quanto a de dizer que já houve pessoas que se curaram com ele.

Numa coisa que me parecia pacata e sem qualquer motivo para provocar polêmica, foi com espanto que constatei que o jornalista Paulo Baldaia [foto], em resposta direta ao mencionado like do Carlos Guimarães Pinto colocado no meu post, entrou na conversa, com um comentário que integralmente reproduzo:


Seguiram-se algumas centenas de comentários e posts a explicar a Paulo Baldaia que, ainda que não haja certeza científica do potencial curativo da hidroxicloroquina em relação ao COVID-19, os seus efeitos são inequivocamente positivos em muitas pessoas, de tal modo que o Infarmed e a Ordem dos Médicos o recomendam no tratamento da doença, sobretudo quando já está em estado avançado, mas não só. Disso mesmo sou eu também testemunha direta, já que um outro amigo muito próximo – aliás, figura pública, com internamento noticiado na comunicação social – recebeu o mesmo tratamento e também já teve alta e se encontra bem, na sua casa. Todavia, mesmo depois de se lhe ter explicado o óbvio, Baldaia persistiu em escrever disparates, em vez de ter arrepiado caminho e saído discretamente de uma contenda que, de modo grosseiro, arrogante e, no mínimo, desinformado, provocou.

Ficamos, assim, a saber que, para Baldaia, dizer-se que a hidroxicloroquina tem potencial curativo do COVID-19 é ser-se adepto de Bolsonaro, e que a validação de resultados científicos se faz pela publicação de notícias nos jornais. É esta a forma mentis de um opinion maker que já exerceu e exerce funções de responsabilidade em vários órgãos de comunicação social. É bom que todos tenhamos consciência disso, de quem nos “informa” e de como somos “informados”, razão   única pela qual me dei ao trabalho de escrever este post.
Título e Texto: Rui Albuquerque, Blasfémias, 2-4-2020

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8 comentários:

  1. Paulo Baldaia foi (ainda é?) diretor do quase falido Diário de Notícias, demitiu o agora colunista do Observador, Alberto Gonçalves.

    Atualmente, para minha desagradável surpresa, anda pelo Porto Canal entrevistando socialistas ou puxa-sacos da geringonça = solução governativa que António Costa inventou.

    Repare na estupidez do fulano JORNALISTA, obnubilado pelo ódio a Bolsonaro (que governa e chefia a República Federativa do Brasil, não tem nada a ver com Portugal), ele não esconde a torcida contra a cura, pois isso pode dar razão a Bolsonaro!
    É foda!
    Depois, ficam pelos cantos chorando a falta de leitores e pedindo ao Estado que os ajude!

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  2. Sette Piani

    No extraordinário conto Sette Piani (Sete Andares), Dino Buzzati descreve a história de um advogado – Giuseppe Corte – que, em virtude de uma doença ligeira, se hospeda num moderno hospital italiano. O hospital ocupa um edifício com sete andares e tem um curioso sistema de repartição dos pacientes pelo espaço: no último piso estão os doentes menos graves; os restantes pisos são ocupados por pacientes com maleitas de gravidade inversamente proporcional à distância ao solo; no rés-do-chão ficam os que já têm as malas aviadas para o outro mundo. O dr. Corte dá entrada no último piso, já que quase nem estava doente. No entanto, uma série de acontecimentos improváveis – todos sem qualquer relação com o agravamento da doença – fazem-no sucessivamente descer de piso, até ao infernal rés-do-chão.

    O conto descreve com mestria o esvaziamento progressivo da esperança de regresso à vida normal com que o protagonista é confrontado, à medida que passa para os pisos inferiores, por razões incompreensíveis. Lembrei-me deste conto, que li há quase vinte anos no n.º 3 da Revista Ficções (revista que pode ser descarregada no site do Instituto Camões) ao ver o Decreto Presidencial n.º 17-A/2020, que renova o Estado de Emergência e agrava, sem qualquer razão aparente (nada se vislumbra no prefácio do decreto presidencial), as medidas que podem ser adoptadas pelo Governo ao abrigo de tal estado de excepção.

    Tal como o protagonista do conto de Buzatti, vejo o regresso à normalidade como algo cada vez mais distante, pois é evidente que o sr. Presidente parece apreciar os poderes de excepção de que dispõe (nem me atrevo a imaginar o que estará a preparar para inevitável terceiro decreto desta série) e o Governo, embora mais moderado, também parece estar a tomar-lhe o gosto. A sensação de que recuperar o estado de normalidade constitucional pode vir a ser mais difícil do que a recuperação da economia é aterradora.
    Carlos Loureiro

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  3. Atualização
    3 de abril, 16h52

    No mundo:
    1 056 777 casos/55 781 mortes/ 221 595 recuperados.

    Espanha: 117 710/10 935

    Itália: 115 242 casos/ 13 915 mortes

    França: 59 942/5 387

    Portugal: 9 886/246

    Brasil: 8 195/332

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  4. Parece que o diretor desse DN é Ferreira Fernandes, um "jornalista" cuja imparcialidade é arrepiante.
    Há momentos caíu na minha caixa postal um artigo desse senhor acusando, claro!, os EUA de piratearem máscaras!
    Um lead da matéria informa que o demônio do Donald Trump não querer usar máscara!! Terrível! Delenda Trump!
    Mas o puxa-saco do FF não tem o mesmo colhão para cobrar dos governantes portugueses o uso da máscara!

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  5. https://www.google.pt/amp/s/www.tsf.pt/portugal/sociedade/amp/a-inutilidade-da-hidroxicloroquina-na-luta-contra-a-covid-19-12197514.html

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  6. Gostaria de fazer um grito cultural sobre máscaras.
    Cada máscara tem vida útil de 2 horas.
    Poucas pessoas trocam as máscaras ou os filtros das que possuem tal, a cada duas horas.
    As vagabundas custam 3 reais cada, em pacote de 3 9 reais. ou 5 quilos de arroz.
    As eficientes vão de 27 reais até 65 reais cada.
    Ninguém troca os filtros a cada 2 horas.
    Aquelas de pintor feitas de papel compro 10 por 5 reais, e não embaçam os óculos.
    Poucos compram as boas, alguns as ruins e pobres que se fodam.
    quem vai deixar de comprar 5 quilos de arroz para comprar máscara com a família passando fome?
    Eu boto essas de papelão de pintor vou ao super ou ao banco e jogo fora.
    Não fico duas horas na rua, nem sou privilegiado.
    Dar cestas básicas e não doam máscaras.
    Fazem-nas de pano e as vezes na periferia não tem água para lavar.
    Eu acho que alguns governadores estão fazendo hipocrisia.
    O dodo de São Paulo copiou o trabalho do dudu do Rio Grande do Sul, a pandemia coloridas em 5 fases.

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    1. Rochinha,
      Eu uso uma das quatro máscaras, reutilizáveis e laváveis, que comprei em estabelecimento de artigos médicos. Uso quando saio com o meu cachorro, mais por respeito ao cidadão que cruza comigo – cabeleira branca, enrugado – grupo de risco, não vá ele fazer um direto no WhatsApp denunciando esse velho sem máscara!, do que propriamente me proteger. Também a uso quando vou ao supermercado, porque sou obrigado.

      Quando os supermercados passaram a vender as máscaras, ou seja, quando já havia máscaras em quantidade suficiente para todos, o seu uso passou a ser obrigatório. Onde eu moro até o “homem das castanhas” passou a vendê-las! Comprei uma por 5€ com a bandeira de Portugal, porque não tinha o escudo do Vasco da Gama, nem do FC Porto...

      Usei uma vez essa máscara. Numa live com a família. 😊

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