domingo, 5 de julho de 2020

A ministra que monitoriza e o Governo que não governa

O Governo quer monitorizar o discurso de ódio. Que a censura tem muitos nomes já se sabe. Mas este é também o folclore para que não se pergunte: como pode o Governo ter falhado tanto?

Helena Matos

Monitorize, senhora ministra, monitorize. Vai ser um nunca mais acabar de monitorizações. Segundo a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva [foto], «O Governo vai monitorizar o discurso de ódio nas plataformas “online”, estando “em vias” de dar início à contratação pública de um projeto que deverá traduzir-se num barómetro mensal de acompanhamento e identificação de ‘sites’.»


Monitorize o discurso de ódio, depois o discurso que pode ser de ódio. Depois o discurso que é só discurso. Rapidamente ficaremos sem palavras, nas mãos dos monitores. Até o silêncio irão monitorizar. Porque quando se começa a monitorizar nunca mais se pára e porque enquanto a senhora ministra monitoriza e saem as listas dos monitorizados do discurso dito de ódio e de todos os outros discursos que hão-se ser inventados, não há espaço para perguntar: o que andou o Governo a fazer? Como pode falhar repetidamente no essencial? Como é possível tanta descoordenação: Covid-19: Apanhar transportes públicos em Lisboa pode significar “ficar ao colo uns dos outros” para “continuar a vida normal” Portal das Matrículas continua a dar problemas.  Hospitais desmentem números da DGS...

Desde já aviso a senhora ministra e os demais monitores que escusam de gastar o dinheiro dos contribuintes a tentar detectar o discurso de ódio nos meus textos pois a mim o que me interessa é o amor. Veja-se, por exemplo,  a própria história profissional da senhora ministra Mariana Vieira da Silva pois ela espelha um grande amor: o amor do seu pai por ela foi tão grande, mas tão grande, que Mariana Vieira da Silva integrou o mesmo governo em que o seu pai era ministro. Se isto não é amor não sei o que será o amor. Aliás o PS é um partido verdadeiramente amoroso: pais, filhos, maridos, mulheres… convidam-se e nomeiam-se num espírito que só posso definir como sendo de verdadeiro amor. Afinal, que um pai divida com os filhos o que tem não tem nada de extraordinário. Logo só por maldade – e ódio, obviamente – se critica que o PS reparta cargos. Não é o PS o dono do Estado? Então dá o que tem. Só uma pessoa imbuída de ódio pode contestar esta prática tão humana, este verdadeiro gesto de amor.

Até no detalhe de o Governo nos ter escolhido, aos contribuintes portugueses, para pagarmos a factura de Isabel dos Santos (outra filha amantíssima) na EFACEC eu vejo um gesto de amor, pois como se sabe os pobres amam mais (é o que dizem os filmes e as telenovelas). Logo, quando estivermos empobrecidos com tanta empresa estratégica para manter e com a economia real devidamente falida, viveremos com maior intensidade aquela imagem do amor e uma cabana.

Portugal é hoje um país dominado pelo amor: o Tribunal Constitucional passou a amar de tal modo o silêncio no relacionamento com o Governo que entrou para um retiro e o presidente da República de tanto amar já nem sabe donde vem nem para onde vai e muito menos com quem.

E como explicar, senão pelo extraordinário amor aos cargos que ocupam, que Graça Freitas e Marta Temido aceitem prolongar aquele número entre o grotesco e o cómico que têm em cena já lá vão mais de quatro meses? O amor de facto move o mundo e dentro dele, num movimento particular e único, move Portugal. Quando n’ “A Ceia dos Cardeais” o cardeal Gonzaga disse estar a pensar “Em como é diferente o amor em Portugal!/ O amor simplicidade, o amor delicadeza… Ai, como sabe amar a gente portuguesa!” não imaginava que muitos anos depois essa sua frase conheceria uma nova versão: a gente portuguesa socialista ama como mais ninguém.

Por exemplo, nos transportes públicos apinhados em Lisboa no pós confinamento não devemos ver nem irresponsabilidade nem incompetência, mas sim amor pelo vírus (todos merecemos ser amados, ou não?) Aliás em matéria de transportes vivemos tempos de amor seletivo: o governo não consegue reforçar os transportes na área de Lisboa – só para elaborar um estudo sobre o reforço dos horários dos comboios na Linha de Sintra, explicou o ministro Pedro Nuno Santos, são necessário três meses! – mas não hesitou em aumentar a participação do Estado na TAP, esse amor de perdição de gerações de contribuintes portugueses. Não duvido que acabaremos a trautear “anda comigo ver os aviões” enquanto compramos bilhetes duma qualquer low cost porque com o que vamos pagar de impostos para a TAP não nos sobrará dinheiro para mais. Mas não há amor sem sacrifícios, pois não?

A outra possibilidade, amorosa também ela, é o Governo reacender a sua paixão pelo BE e, tal como em 2015 entregou aos radicais a educação e a habitação social, passar a seguir-lhes os ditames em matéria de transportes aéreos, o que no caso da TAP passa pela sua desativação.

(Clicando aqui encontra-se toda esta estratégia devidamente explicada pelo especialista em alterações climáticas-genro do senhor conselheiro de Estado Francisco Louçã.
A quem achar que isto é um exagero meu, quiçá um delírio que nunca passará à prática, recordo que andamos há anos a normalizar o que considerámos delírios e que de delírio em delírio, acabámos, neste momento em que a pandemia nos veio confrontar com a desproteção sanitária e legal dos velhos institucionalizados e hospitalizados, com a deputada Isabel Moreira a coordenar um texto para uma lei da despenalização da eutanásia! Ainda acham delirante a reconversão das tripulações da TAP em trabalhadores da ferrovia aplaudida pelo BE?)

A perspectiva do amor não só muda a nossa visão sobre o mundo como esclarece o que antes não se entendia, como é o caso da estratégia do dr. Rui Rio. Tornou-se-me claro que o dr. Rui Rio é o exemplo perfeito do amor na oposição e de uma oposição que é um amor. O dr. Rui Rio veio agora propor o fim dos debates quinzenais porque “O primeiro-ministro não pode passar a vida em debates quinzenais. Tem é de trabalhar”. E tão contente está Rui Rio com o trabalho do primeiro-ministro que não só prescinde de debater com ele como manda a sua bancada parlamentar votar e “desvotar” consoante as necessidades do PS: o PSD era a favor da redução das prestações pagas pelas famílias nas creches? Pois era, mas deixou de ser. Coisa mais amorosa nunca se viu!

Até na decisão do governo inglês de não nos incluir no seu corredor de viagens eu vejo um sinal de amor. Um amor desfasado no tempo, mas amor. Recordo que começamos o ano preocupadíssimos com a degradação que os turistas estavam a provocar nos nossos santos usos e costumes. Com a gentrificação provocada pelos alojamentos locais que, garantia-se de fonte certa, tinham desalojados os habitantes tradicionais. Era urgente legislar sobre o número de turistas que nos poderiam visitar. Ora, pensariam os ingleses que agora estaríamos felicíssimos porque livres de turistas, os velhos centros urbanos poderiam ser reocupados pelos seus antigos habitantes e o Algarve regressaria àqueles tempos em que na costa só existiam pescadores e veraneava meia dúzia de famílias com apelidos aristocráticos.

Digamos que os ingleses têm dificuldades em interpretar as aparentes contradições do discurso amoroso e não perceberam que os nossos “nãos” eram “sins” e que agora os amamos, suspiramos por eles, desejamo-los… Enfim é melhor ficarmos por aqui enquanto fazemos contas ao desemprego e às falências. Ou então adaptamos à versão inglês bêbedo, bronco mas “o nosso turista” o “Mon homme ” cantado pela Mistinguett (a versão da Sara Montiel, em espanhol é igualmente sugestiva) enquanto os monitores do discurso machista permitirem tal desvio ao pensamento correto. Porque discursos para monitorizar não faltam, não é senhora ministra? O esquema é velho e resulta sempre: pega-se num bom propósito – defender a paz, combater a fome ou o ódio – e a partir daí os autodenominados defensores desses objetivos sentem-se autorizados a definir quem é o que está do lado certo. Como é óbvio a coisa não fica por aqui. A seguir vêm as monitorizações, as ameaças, as sanções… E mais discursos disto e daquilo para monitorizar.

Em conclusão, monitorize, senhora ministra, monitorize. Eu vou continuar dedicada ao discurso do amor pois Portugal só será um país decente quando os eleitores monitorizarem as consequências do que aqueles que nos governam têm feito em nome do amor que nos têm. A nós e ao país. Não sei quanto tempo mais conseguiremos suportar e sustentar tanto amor.
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 5-7-2020, 7h33

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