George Friedman
Muitos cadáveres foram vistos
na Síria, chegando a centenas, na semana passada e foi dito que foram todos
vitimados por gás venenoso. São em sua maioria civis não engajados na guerra
civil, incluindo mulheres, crianças e idosos. As fotos e vídeos circularam em
todo o Ocidente, não faltando aqueles que dizem se tratar de imagens falsificadas,
além dos que dizem que as armas químicas foram empregadas pelos rebeldes.
Todavia, a visão dominante da barbárie é a que afirma que foi o regime de
Bashar al Assad que cometeu a prática de genocídio.
O fato de os Estados Unidos terem
até agora evitado o envolvimento unilateral com a guerra civil na Síria, não
significa que a Casa Branca tenha qualquer simpatia para com o regime de Damasco.
Os estreitos laços Bashar al Assad com o Irã e a Rússia já são motivos mais do
que suficientes da desconfiança e de certa hostilidade dos Estados Unidos em
relação à Síria, não fosse também a atitude desse país para com os vizinhos do
Oriente Médio, principalmente em relação ao Líbano e Israel.
Desde que os americanos
ajudaram de modo efetivo a fazer recuar as tropas sírias do Líbano, Washington
parece ter aprendido a se preocupar não apenas com regimes hostis, mas também,
e principalmente, com o que pode advir de tais regimes. O Afeganistão, o Iraque
e a Líbia têm mostrado aos americanos que, depor um regime ruim, déspota e
sanguinário, o regime substituto pode ter que ser engolido mesmo sendo longe do
ideal, em termos dos interesses ocidentais.
O Ocidente parece que se
convenceu de que não se pode esperar que países que nunca conheceram uma
democracia antes, passem a praticá-la da noite para o dia. Nesses casos, a mudança
de regime costuma rapidamente enredar os Estados Unidos em guerras civis, cujos
resultados não valem a pena o preço pago pelas intervenções. A Rússia que o
diga, com o que sofreu no Afeganistão. No caso da Síria, os insurgentes são
muçulmanos sunitas cujas facções mais organizadas têm laços com a Al Qaeda e o
Hezbollah libanês.
Por outro lado, como muitas
vezes acontece, muitas pessoas nos Estados Unidos e na Europa, revoltadas com
os horrores da guerra civil, pedem aos Estados Unidos para que façam alguma
coisa. Os Estados Unidos relutam em atender a essas súplicas e a explicação
para isso é simples. Como disse antes, Washington não tem interesse econômico
ou político direto no que pode resultar a guerra civil na Síria, mas apenas o
interesse geopolítico de manter um equilíbrio de forças na região, de
preferência sem perder seus aliados tradicionais, como Egito, Arábia Saudita, e
Israel, entre outros. Isso ocorre, principalmente, porque todos os resultados
possíveis dessa guerra são ruins para a perspectiva americana na região.
Além do mais, é bem provável
que os que são mais enfáticos em dizer que os EUA devem fazer algo para impedir
a carnificina serão os primeiros a condenar o país quando tal ação começar a resultar
em mais mortes para parar o genocídio. O fato é que não se acaba uma guerra
civil com flores e palavras bonitas e qualquer intervenção vai gerar mais
mortes, talvez em maior número do que seria ocasionada pela não intervenção.
As Linhas Vermelhas de Obama
Assim sendo, ao dizer que os
EUA não se envolverão unilateralmente na Síria, Obama adota uma postura
compreensivamente cautelosa, a mostrar que, mais do que intervir diretamente no
teatro de operações da guerra civil, o melhor é tentar limitar a capacidade de
ação de Damasco, seja pelo estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, seja
por um bloqueio que impeça o regime de Assad de respirar. Tal atitude,
entretanto, pode mudar caso o ditador sírio intensifique o emprego de armas
proibidas pelo consenso internacional e, mesmo assim, caso haja o aval da ONU
para uma intervenção militar da OTAN.