sábado, 31 de dezembro de 2016

[Aparecido rasga o verbo] Encaminhamento

Aparecido Raimundo de Souza

Dias atrás, nos deu na telha, e resolvemos fazer, por conta própria (levando em conta o avanço da idade, e, sobretudo, a necessidade de cuidarmos da saúde precavidamente) duas ultrassonografias distintas, ou seja, uma abdominal total, e, a outra, próstata e vesícula seminal via transretal. Essa segunda é aquele exame (Ana Maria Braga apresentadora do “Mais Você” fez e, na época, detectou um câncer) mais detalhado, mais esmiudado, onde o médico enfia um troço comprido e desconfortante no rabo do cidadão, carinhosamente chamado de transdutor multifrequencial.

Fortificado nessa tecnologia de primeiro mundo, portanto, de ponta, o troço opera milagres. Para esse fenômeno levar a termo o que se busca, é usado uma espécie de bastão comprido (Modelo Xario da Toshiba), em cuja cabeça, vem equipada  uma micro câmera no orifício do nariz. Essa geringonçinha faz o diabo. Mapeia tudo lá por dentro em Doppler colorido. Passa pelos rins, visita a bexiga, toma um café no baço, lancha no pâncreas, janta no fígado (não necessariamente nessa ordem), e à medida que passeia, vai relatando detalhadamente, numa gama completa de imagens precisas, o volume urinário pós-miccional, descriminando o peso e a medida da glândula onde fica o escroto e os ovos, dá uma parada básica na vesícula, solta uns peidos violentos, caga e acaba, por fim, saindo no buraco esquerdo do ouvido direito.

Procuramos um desses centros de diagnósticos por imagens e, como não temos plano de saúde, dissemos à amabilíssima senhorita que gentilmente nos atendeu, na luxuosa recepção, queríamos pagar, era particular, não existia convênio com nada, nem plano de saúde. Ela foi ao computador, olhou a agenda do especialista (não havia um médico ultrassonografista disponível, porém, no lugar dele, um técnico em radiologia, se fazia, às vezes de...) nos informou que só teria vaga para dali a quarenta dias. Vai daqui, cutuca dali, acabamos por convencê-la a abrir uma brecha numa  modalidade bastante conhecida nesses consultórios impecáveis: o famoso jeitinho brasileiro conhecido como “encaixe”.

Fomos, portanto, engaiolados, perdão, amados, encaixados, para dez dias depois. Pelos exames desembolsaríamos a bagatela de R$ 760 reais. Puxamos a carteira da mochila para pegar o dinheiro e ela alertou, num gesto vago, não se faria necessário, pelo menos naquela altura do campeonato. Observou, todavia, um dia antes, o call center da clinica ligaria para confirmar o atendimento, ou como queiram os senhores, o “encaixamento”.

Dia aprazado, lá estávamos nós dentro da unidade do CDI com todas as recomendações passadas previamente. Além do cuzinho limpo e cheiroso, não comer isso, não comer aquilo, não foder (nem a paciência dos outros), abster-nos de exercícios físicos, como correr, nadar, ter relações sexuais agarrados em árvores frutíferas, ou em cima de guarda-roupas com mais de seis portas. Afora isso, não deveríamos, igualmente, pularmos sobre a cama da amante, caso fossemos casados, e o mais importante, atentem, senhoras e senhores, não andarmos em hipótese nenhuma a cavalo. Pensamos com nossos botões: seria para não cansar o animal?

Na hora em que o técnico em “curologia” nos sinalizou para a sala dos procedimentos, outro problema surgiu à baila. Precisava haver um encaminhamento, sem o que o “dotor” não realizaria os tais exames. Ponderamos com o cidadão que pagávamos em dinheiro vivo, a coisa seria particular, lembramos que ele poria no bolso, sem maiores atropelos, o jabaculê... a bufunfa, o faz-me rir entraria no ato para o caixa da clínica, etc. etc. Qual o quê! Não teve conversa, meus amigos. O filho de uma égua queria a solicitação prescrita por um clinico geral.

Injuriado, insultado e enxovalhado, conseguimos convencer o cara a nos conceder algumas horas à frente daquele mesmo dia, final da tarde, para dar tempo de procurarmos um diplomado em medicina com a finalidade de nos fornecer o tal documento que culminaria dando ingresso à conclusão dos nossos objetivos. Estivemos em vários consultórios. No mais modesto a consulta girava em torno de R$ 350 reais. Achamos uma baita, ou pior, uma puta sacanagem pagar tanto dinheiro assim, para se tomar no cu. Verdade seja dita, nos emputecemos, ficamos literalmente brabos e enraivecidos.  Qualquer um, em nosso lugar, com sangue nas ventas, perderia a razão, o bom senso, a serenidade.

Visitamos vários hospitais, UPAs (Unidades de Pessoas Assustadas), PAs (Profissionais Amargurados), UBSs (União de Bandidos  Sindicalizados), URSs (Usina dos Roedores Silenciosos), demos uma espiada no SUS (Sistema Unificado de Sacanagens) e nada. Nem sinal de um galeno com disponibilidade de macaco para quebrar o galho. Graças a Deus, no derradeiro que visitamos, por sinal, particular, conseguimos “catar” na sala da assistente social, um jaleco branco. Destarte, disfarçados na pele de um funcionário (Ziraldo Pinto, Enfermeiro Chefe), subimos e descemos, descemos e subimos, transitamos por todos os pavimentos, sem sermos molestados até, quase a desistirmos da empreitada, na ala do necrotério "afanamos" um bloco de receituário para prescrição de qualquer tipo de procedimento que desse na telha. A sorte, nessa hora, sorria matreira e arisca, ao nosso lado.

De volta ao tráfego do sobe e desce, desce e sobe, vira aqui, volta ali, na maternidade, na sala dos Asclépios, passamos os cinco dedos num carimbo com CRM, os cambaus. De roldão trouxemos umas folhas específicas para a concessão de atestados.

Fora das dependências da unidade de saúde, num barzinho ao lado, saboreando um copo de água gelada e um cafezinho, preenchemos, com a nossa letra, o direcionando devido a quem se fazia necessário. Utilizamos uns garranchos esquisitos, como os esculápios costumam praticar nas diariaedades (até o tinhoso ficaria com a pulga atrás da orelha) das suas funções. Observem senhoras e senhores, como ficou bonita a coisa: "Requisitamos urgente ultrasonografia abdome total prostata transretal e vesícula seminal".



Fizemos os malditos exames numa boa, capitaneados por uma simpática doutora que, a vermos depois, atendia pelo nome de Sulamita Chupa Com Vontade - ginecologista e obstetra. Dia seguinte, ao retornarmos à clínica, percebemos pelo semblante carrancudo do “graduado” no cajado retofuricular, que ele nos olhou meio desconfiado, certamente em vista daquele requerimento, apresentado. Contudo, se conteve. Nada disse. Deve ter lá com seus pensamentos, ruminado consigo próprio: "Esse desgraçado é tão burro que nem falsificar sabe. Procurou logo um médico de mulher".
                                      
Exames prontos, resultados com os respectivos laudos entregues. Tudo em ordem. Achamos por bem, e, claro, por descargo de consciência, agradecer ao ilustre operário da vara, perdão, ao “curologista”, a graciosa finesa de ter, além do “encaixe”, nos encaixado, tanto na agenda dele, como, literalmente, no nosso rabo, e, isso "a depois" do horário previsto e, por derradeiro,  realizado a contento os afins que buscávamos com  ardente ansiedade.

Foi então nessa hora que resolvemos abrir o jogo e contar a verdade. Chamamos o elegante e a bela da recepção para um café (havia uma máquina no corredor de acesso às escadas do segundo pavimento), ali mesmo dentro do estabelecimento. Mandamos bala:
- Meu prezado, o senhor queria um mandado para dar cabo ao que nos trouxe aqui.  Cumprimos, na íntegra, a sua ordem. Em vista dela, realizou os exames. Gostaríamos, contudo, de dizer que aquele papel da doutora Sulamita É FALSO. NÓS O PREENCHEMOS ANTES DE VIRMOS PARA CÁ. PELO VISTO, FICOU NOS CONFORMES.

Reparamos numa rajada meteórica, que o indivíduo pretendia dizer algo à fúria incontida que capturamos em seus olhos a soltarem chispas de ódio. A gostosa da portaria engoliu um “Meu pai, que horror” tossindo, desajeitada, e sujando o jaleco branco com respingos do copo de café.  

Porém, num esforço superior a qualquer tipo de reação, se contiveram e optaram por olhar um para o outro, como se fosse a prima vez em que trocavam cumplicidades. Uma máscara sem graça cobriu o focinho de ambos. Creio, se pudessem, pulariam em nossos costados, com tapas e sopapos. 

Imaginamos de repente, se caíssem na real e se insuflassem de razões e botassem às bocas cheias de dentes num trombone qualquer (nessas horas sempre surgem, de algum lugar, um desses instrumentos musicais, como a Fênix das cinzas) sabe-se lá, acionassem a policia e, final das contas, acabássemos amargando a farsa num desconfortável e solitário xilindró.

Para evitarmos esse possível contratempo, tratamos dar no pé, tirar o time de campo, antes que os dois resolvessem praticar, efetivamente, as dores do engano brutal pelo que tiveram que segurar na goela em face do trapaceamento da fraude.

EX POSITIS, O QUE QUEREMOS DEIXAR CLARO, MEUS AMADOS, PARA TERMINARMOS NOSSA LINHA DE DIRECIONAMENTO, OU MELHOR, DE ESCLARECIMENTO, É O SEGUINTE: NESSE PAÍS DE LADRÕES, DE SAFADOS, DE PILANTRAS E PICARETAS, OS DOUTORES DE BRANCO QUEREM VER GUIAS ASSINADAS E CARIMBADAS. A SOCIEDADE, COMO UM TODO, É IMPELIDA POR DOCUMENTOS, NÃO IMPORTAM SE FALSOS OU ADULTERADOS.

O SISTEMA É IMPULSIONADO POR FALCATRUAS. OS MÉDICOS, PARTICULARMENTE, SÃO MELIANTES CREDENCIADOS PELO CRM (CONSELHO REGIONAL DE MALANDROS), PARA, MÃOS ARMADAS, ESTETOSCÓPIOS E APARELHOS DE AUFERIMENTOS DE PRESSÃO EM PUNHO, ROUBAREM NOSSAS ECONOMIAS, NOSSOS MINGUADOS REAIS, E ACREDITEM NA MAIOR CARA DE PAU. O RESTO, KIKIKIKIKIKI... O RESTO, SENHORAS E SENHORES, QUE SE FODAAAAAA!... 
Feliz ano novo a todos. Saúde, Graça e PAZ!

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Título, Imagens e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, Vila Velha, Espírito Santo, 31-12-2016

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