segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

[Aparecido rasga o verbo] As chuvas e o regresso de um certo pedreiro à cena do inusitado

Aparecido Raimundo de Souza

Nessa chuvarada seguida de fortes ventanias acontecida nos últimos dias, em várias capitais, muita gente ficou completamente desabrigada. Cansamos de ver pela imprensa escrita, falada, televisionada e aprisionada, os noticiários bombásticos, ruas e avenidas alagadas, carros arrastados, ônibus ilhados, com passageiros abrigados em seus tetos, comerciantes fechando seus estabelecimentos, redes de esgoto a céu aberto esborrando litros e litros de águas malcheirosas, além de um punhado de árvores caídas, pedestres feridos, postes e transformadores machucados, placas de indicações (direita, esquerda, volver) com frio nas costas, sem contar com o transito engarrafado em todas as direções, e o pior, completando o quadro caótico e desordenado, a cidade, de ponta a ponta, completamente parada. Mais parada que o ajuntamento do orgulho LGBT da Avenida Paulista, centro de São Paulo.



Segundo as defesas civis, e as prefeituras de cada uma dessas metrópoles, foram registradas várias ocorrências. A pior delas evidentemente aconteceu num longínquo cemitério de Santa Cruz dos Zés Dormidos, perto de Caraguatatuba, às margens da panorâmica rodovia Rio Santos. Várias sepulturas daquele recanto de paz sofreram fortes avarias. Um morto, de nome Eduardo Paes, saiu nadando, outro está desaparecido e um terceiro defunto (de nome Garotinho) foi encontrado numa das UPAs de Madureira em estado grave. Segundo boletim médico, a criatura teria sido atacada por “fortes dores nos colhões”.

Numa outra localidade, se não nos enganamos,  Xerém, um ex-vivo advindo do mesmo campo santo, alegou em entrevista a um repórter da Rede Globo que, para se salvar do impiedoso temporal precisou pedir ajuda a uma galera que bebia cerveja e comia churrasco num barzinho de periferia próximo à casa de Zeca Picadinho. Relatos desse “de cujus” dão conta de que os frequentadores saíram em desabalada carreira, quando o reconheceram como sendo a possível e suposta pessoa do Pedreiro Amarildo de Souza, que batera as botas e fora enterrado hipoteticamente num desaparecimento até hoje de entendimento ilógico acontecido em quatorze de julho de dois mil e treze. De uma coisa, senhoras e senhores, eu tenho certeza absoluta. Do pedreiro Amarildo, certamente ninguém se recorda. Esse fato não tem nenhuma importância. Não dá IBOPE. Todavia, dos ajuntamentos dos bissexuais e transgêneros atrelados a Rebelião de Stonewall nos idos de mil novecentos e sessenta e nove, até os cachorros caídos dos caminhões de mudanças teriam assuntos para latirem a noite toda numa pusfiga matilha super mega organizada. 

Voltando aos defuntosos -, nessas horas de aparente desespero, as pessoas (ao se verem tête-a-tête com o sobrenatural) optam por esses tipos de comportamentos anormais, quais sejam cair fora, debandar, se mandar, vazar, retirar, puxar o carro, sem socorrer a um ente que já não se encontra mais entre nós. A isso poderia se dar o nome de abandono aos extintos incapazes. Ou aos incapazes extintos. Dito de outra forma, uma espécie infame de bullyng. Para quem não sabe (bullyng é um anglicismo utilizado para descrever toda e qualquer forma de atitude de violência física ou psicológica, não importa a quem seja). Aqui, igualmente, se encaixariam aqueles que já partiram do nosso convívio e foram cuidar de seus pecados no andar de cima, usando os elevadores disponíveis para se evitar o cansaço e a fadiga da íngreme e comprida escada em direção as cercanias de São Pedro.

Deixar de prestar socorro a um morto quando bate a nossa porta (seja essa porta, a entrada de casa, de um bar, de uma lanchonete, ou até mesmo de um puteiro em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana com Siqueira Campos ou Barata Ribeiro com Raimundo Correia,) é a mesma coisa como se estivéssemos abandonando um incapaz aos revezes da sorte. Um morto, coitado, está sem vida, com fome, com sede, com frio (se imagine meu caro amigo, você, morto, duro, gelado, e jogado na rua da amargura). Raciocine. O prezado gostaria de ser deixado de lado depois de mortalmente falecido?  Evidentemente que não! Não faça, pois com os outros, notadamente com os que não estão mais entre nós, o que não gastaria fizessem a seu lindo corpinho esbelto e bem nutrido. Lembre sempre, amanhã, ou depois, o cadáver sem vida poderá ser a sua pessoa em figura de caveira personificada na sua própria máscara mortuária.

Em concluindo, ao ver um morto vagando por ai, socorra-o, se aproxime, pergunte se quer comer alguma coisa, beber, ou tomar um suco de laranja ou café bem quente. Morto, principalmente os que bateram com a caçoleta recentemente, amam café quente. Seja amigo, companheiro, solidário. Acolha. Não esqueça nunca. Vagar sem vida entre sepulturas, sepulcros, carneiros, jazigos e túmulos... é  como estar vivo (mesmo sem o sopro divino do ar benfazejo) e os demais lhe ignorarem virando os rostos.  Foi por isso que a “Justissssssssssça” do Rio de Janeiro, na pessoa da cidadã, a magistrada Daniella Alvarez Prado, da Trigésima Quinta Vara Criminal da capital condenou doze dos vinte e cinco mal (litares) pelo desaparecimento estranho e esquisito e até ontem não explicado, do pedreiro Amarildo de Souza.

Desses doze, quem pegou a pena maior (e não confundam aqui pena com pena de caneta Bic. A MM Daniella só usa canetas da grife Mont Blanc safra mil novecentos e vinte e quatro para dar sentenças consideradas emblemáticas), foi, evidentemente, como é do saber geral, a figura assobrerjética e camaliosa do “maujor”, na época, comandante da UPP (UNIDADE DE POLICIAMENTO PICARETA) sediada na Rocinha, o elemento cafunfoso que atende pelo nome de Edson Raimundo dos Santos. Dizem seus colegas de farda (agora sem) encarcerados no mesmo buraco, que tardão da noite, o “maujor” acorda suando em bicas, como uma boneca desmiolada e rebolativa, aos “gritos apavorantes” do infeliz do Amarildo em seus escutadores de novela, ameaçando: “Eu te pego, seu canalha. Juro que um dia eu te pego”.

Enquanto o pobre do pedreiro Amarildo de Souza não cumpre a palavra, e pode ser que depois de Xerém reapareça mais calmo em qualquer parte da Cidade Maravilhosa, inclusive para sua cara metade Elizabeth e a sua meia dúzia de rebentos.  Vamos torcer para que o senhor Edson Raimundo dos Santos não enlouqueça de vez e pire seu cabeção de jumento. Dessa forma, se tal desgraça vier a acontecer seus treze anos e sete meses ficariam prejudicados. A nosso entendimento, esse canalha precisa pagar pelos crimes de tortura, sequestro seguido de morte, ocultação de cadáver e fraude processual. É o mínimo que podemos esperar desse fabuloso e ao mesmo tempo vergonhoso estado democrático de direito torto.

E outra, que se cumpra sem delongas, o brilhante entendimento da meritíssima doutora Maria Paula Galhardo, da Quarta Vara da Fazenda Pública que condenou o Estado do Rio de Janeiro a pagar uma indenização de 3,5 milhões à viúva e os seis filhos do trabalhador desaparecido. Até agora, esses familiares esperam pela boa vontade. De quem? Não se sabe! O que sentimos diante de nossas fossas nasais são os podres das falcatruas dos advogados da instituição política que procrastinam com interposições de apelações e recursos no sentido da coisa esfriar e acabar caindo no esquecimento. Pizzas, a bem da verdade. Por derradeiro, que o pedreiro em questão e pivô dessa história, meu caríssimo Edson lhe seja leve na consciência suja. Pau nele, meu caro e querido Amarildo.

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COMO? SE PRETENDO CALAR A BOCA? SIM, MEUS AMADOS, QUANDO MORRER...
Título, Imagens e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, 63 anos, jornalista, 11-12-2016

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