segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Brasil que aí vem

Rui A.

Foto: Fábio Motta/Estadão
Hoje foi preso Eike Batista. Lembro-me de o ver idolatrado por quase todo o Brasil, quando era um dos homens mais poderosos do seu país e do mundo. Eike já era rico antes de ser multimilionário, como ficou, pelo menos na aparência, durante os anos de Lula da Silva. Embora a sua história de ascensão e queda não esteja ainda bem explicada, parece provado que Eike beneficiou de vantagens políticas que as suas relações muito próximas do poder permitiram alcançar e que caiu quando esses poderosos o deixaram de ser. A sua entrada no mundo do pré-sal, que ditou a sua glória e ruína, terá sido conseguida com cumplicidades políticas e em troca de favores milionários. Mas muito há ainda para explicar. Caído em desgraça, há que dizer que Eike se portou com uma inusual dignidade em momentos que são certamente de extrema dureza para si e para os seus, o que é de louvar e admirar. Eike Batista não é, certamente, um criminoso de delito comum.

Há, por estes dias e pelo Brasil, quem esteja muito feliz com a «limpeza» que a «Lava-Jato» está a operar no país, operação que está a decapitar verdadeiramente a elite política e financeira que o dirigiu nos últimos anos. Afiança-se que o Brasil que sairá disto será muito melhor do que aquele que estava. Eu não estou muito certo que venha a ser assim.

O problema da «Lava-Jato» não é nem da operação, muito menos de mandar criminosos e corruptos para a cadeia. É que parece que quase ninguém escapará ao seu crivo rigoroso, o que diz mais do próprio país do que de quem vai preso. É que algo de profundamente errado aconteceu no Brasil dos últimos trinta anos para que aqueles que hoje o governam sejam praticamente todos corruptos. Se é verdade que os anos do lulismo elevaram à normalidade o velho coronelismo brasileiro, aquela sensação de que o país é património pessoal de quem o governa, também não duvido que o lulismo é um filho, e um filho bastardo, desse sistema, que não inaugurou e que duvido venha a terminar com a sua derrocada. Um sistema destes, ainda que muito agravado recentemente, tem certamente razões na História que não se apagam, nem mudam com facilidade, nem à força das grades das prisões. Se é que alguma vez mudará.

E sobre o dia seguinte há uma preocupação evidente: quem é que substituirá as centenas, ou milhares, de líderes e dirigentes políticos afectados pela «Lava-Jato»? Sendo certo que as elites dirigentes não se criam por geração espontânea e que não há um escol de virtuosos a aguardar que o poder os chame e lhes seja confiado, a nova classe dirigente federal e estadual terá de vir, forçosamente, de quem anda na política local. O que faz antever o pior.
Título e Texto: Rui A., Blasfémias, 30-1-2017 

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