quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] A garota de programa

Aparecido Raimundo de Souza

UM
PARAMÉLIO RESOLVEU LIGAR PARA UMA DESSAS acompanhantes de executivos que infestam os classificados dos jornais. Queria passar algumas horas com alguém diferente, uma jovem travestida na pele de uma cortesã com quem pudesse aparecer em público, ir a um bom restaurante, jantar como um casal romântico, à luz de velas, tomar um vinho, quem sabe, dançar um pouco e, depois, bem, depois partir para as coisas boas que a tentação da carne oferece. 

DOIS
Agradou de uma tal de Paloma. “18 anos, seios pequenos, olhos verdes, BB empinado, insaciável, massagem promoção”. Bingo! Discou para o celular que aparecia logo abaixo do nome e de suas características.
- Paloma, boa noite.
- Boa noite!
- Pois não? Com quem falo?
- Paramélio Fiambrudo.
- De onde?
- Do centro. Vi seu telefone e me interessei. Você é como está no anúncio?
- Sem tirar nem pôr. Loira, cabelos compridos, olhos verdes, bundinha empinada, seios pequenos e fartos. Faço tudo. Libero geral. Barba, cabelo, bigode, cavanhaque, costeleta e sobrancelhas. Levo você às nuvens...
- E depois traz de volta?
- Engraçadinho! 

TRÊS
- Quantos anos?
- Dezoito.
- Suas medidas são essas que estou lendo aqui?
- Sim. Tenho 1,70 de altura, 35 quilos, 60 centímetros de quadril...
- Gostaria de sair comigo e jantar fora?
- Você quer fazer um programa?
- Na verdade... na verdade, queria alguém que me acompanhasse a um desses restaurantes aconchegantes, onde pudéssemos jantar como dois pombinhos...
- Cobro R$ 200 reais por hora.
- Não estou interessado em quanto você cobra por hora. Antes saber se está a fim de alguma coisa diferente. Um fim de noite fora dos convencionais a que está acostumada, se é que entende o que digo.
- Você é veado?
- Não. Sou homem e muito macho. Gosto da coisa ao vivo e a cores, pode acreditar. Ao me referir a um fim de noite fora dos convencionais eu pensava em sair com você como se fôssemos um...
- Você me parece carente.

Risos.

- O que foi que falei de engraçado?
- Nada.
- Para os carentes é mais caro ou tem algum abatimento? 

QUATRO
- Não faço nenhuma restrição ou distinção. Meu preço...
- Como você é mercenária. Só fala em dinheiro, só pensa em grana. Credo!
- Sem ele não se sobrevive, meu amigo. Acho que ninguém...
- O dinheiro não é tudo.
- Mas ajuda um bocado.
- Então, chegamos a um consenso?
- Você tem carro?
- Sim.
- Pode vir me encontrar agora?
- Perfeitamente. Basta dizer aonde.


- Encontro você na esquina da Avenida Atlântica com a Souza Lima, perto da Galeria Alaska. Sabe onde é?
- Conheço Copacabana como a palma da minha mão. Essa Souza Lima é pertinho da Sá Ferreira. Como te reconhecerei?
- À primeira vista. Vou estar na calçada do lado direito de quem segue em direção ao Forte. Aposto que ficará encantando com o que verá pela frente. Usarei uma saia preta e, para não haver dúvidas, colocarei no pescoço um lenço branco.  Qual é o seu carro?

CINCO
- Um Lamborghini Gallardo vermelho conversível...
- Nunca ouvi falar nessa marca de automóvel
- Poucos o possuem no Brasil. Ele é equiparado a uma... uma Ferrari.

Risos.

- Fala sério!
- Esteja lá e verá que não estou blefando. 
- Um cara com uma quase Ferrari, atrás de uma prostituta? Vou fingir que acredito. Daqui a meia hora está bom para você?
- Perfeito. 

SEIS
Quando Paramélio encostou a sua carreta italiana no local combinado, Paloma já estava à espera. Ambos ficaram espantados. Ela, com a máquina que o seu futuro cliente pilotava e ele, por sua vez, igualmente boquiaberto e embasbacado com a beleza e a garbosidade da moça. A safada, apesar de meretriz de carteirinha, era um tremendo de um avião. Sua atração, como um todo, chegava a ser quase hipnótica.  Lembrava uma boneca de vitrine de butique sofisticada, tão perfeito se entrelaçavam seus traços com o impecável ondulante das curvas sinuosas. Trazia no conjunto uma pecaminosidade muito leve, presentes no decote ousado contrastando com a saia preta aberta num dos lados por uma fenda que lhe revelava a maciez das coxas fartas. Realmente uma fêmea indiscutível e indescritível. E aquele lenço branco em volta do pescoço... 

SETE
- Olá, você deve ser o Paramélio?
- Fiambrudo. Paramélio Fiambrudo, em carne e osso.
- Paloma. Muito prazer.
Num gesto de delicadeza, Paramélio esticou o braço esquerdo e abriu a porta.
- Entre...
- Primeiro combinemos o preço e quantas horas eu ficarei a sua disposição.
- Ora, relaxe, sente. Não vou dar o cano.
- Assim ou nada feito.      
- Três horas, está bem?  
- Para mim tudo ok.  Passe a grana: R$ 600 reais.
- Aqui, no meio da rua?
- É pegar ou largar. Não gostou do visual?
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Até duas.
- Por que você não é um pouco mais romântica e gentil?
- Romantismo é dinheiro aqui dentro da minha bolsa, amigo. Quando vejo um monte de notas de cem, passo a ser generosa e... gentil... entre outras coisas... seu belo carrão, apesar de ser espetacular, não me enche os olhos.
- Mata uma curiosidade. Se depois do jantar – só para saber, não quer dizer que vá colocar em prática – se depois do jantar - lhe pedisse uma seção de sadomasoquismo, estaria disposta a colaborar? 

OITO
A beldade pensou um pouco antes de responder.
- É para você me bater ou apanhar?
- Qual a diferença?
- Se for para te sentar o cacete, mais R$ 200 reais.
- E para eu te descer o pau?
A rapariga fez um gesto gracioso e fingiu uma provocação ensaiada, seguida de um sorriso zombeteiro que se formou em seu rosto.
- Você bate muito? Costuma machucar, deixar marcas, essas coisas?

- Não. Não deixo marcas, nem lesiono. Uso um cassetete de borracha. Esse aqui. Olha só o tamanho do bicho...
Juntando as palavras ao gesto, Paramélio puxou de baixo do banco do carona um bastão de borracha maciça desses que os policiais usam quando estão em serviço e o exibiu a Paloma. E completou estranhamente eufórico:
- Ganhei de um primo meu que é militar. Prometo solenemente que encaçaparei seu corpinho escultural até você devolver o dinheiro... 

NOVE
A garota, de repente escondeu a magia do semblante alegre. Ficou muda, séria, silenciosa. Empurrou, com força bruta, a porta do carro e deu alguns passos atrás.
- Isso é alguma brincadeira? Tá tirando um sarro com a minha cara?
Paramélio saiu ao encontro dela. Vista de perto, o pedaço de mau caminho lhe pareceu mais bonito ainda. Os olhos eram esplendorosos, emoldurados por cílios longos e escuros. O perfume que exalava dos seus cabelos tornava-a mais voluptuosa e desejada.
- Paloma, só estava brincando. Deixa de bobeira, vamos sair, numa boa... 

DEZ
O encantamento dela, vista ao reflexo da lua clara, se espalhava por todo o corpo, como a luz e a sombra ao se refletirem sobre a superfície de um lago de águas mansas e cálidas.
- Venha comigo. Por favor... estava brincando... me perdoe... Paloma, Paloma...
Não teve jeito. A boazuda desistiu do seu intento. Acenou para um táxi e sumiu na poeira, deixando, no ar, o vazio imensurável dos seus olhos espantados, e nos de Paramélio a ausência sombria de uma interrogação indescritível.

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Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista, de Vila Velha no Espírito Santo, 15-2-2017   

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