terça-feira, 28 de novembro de 2017

[Aparecido rasga o verbo] A Procissão das labaredas

Aparecido Raimundo de Souza

Minha casa era modesta, mas eu estava seguro, não tinha medo de nada“.
“O Divã” de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

AQUI ONDE EU MORO, a coisa anda pra lá de interessante. Além do pai e da mãe, dez outras bocas famintas ajudam a aumentar as despesas, tirando, é claro, as quatro do fogão. Embora essas não sejam humanas, consomem rapidinho com o gás das duas botijas que mantem as panelas com os fundos de suas bundas quentinhas. Ao todo, somos doze cabeças (seis homens, Élcio, Elias, Eliandro, Eliodoro, Elmo e Elenilson -, não necessariamente nessa ordem, e quatro fêmeas: Eliza, Elizandra, Enia, e Eunice, essas beldades, todas de tirar o sossego do Papa), não computadas com as duas do vídeo e a de Bibi. De Bibi falo daqui a pouco. Os números de pés chegam a dezesseis, não contando (do mesmo modo) com os de Bibi e as três da geladeira. Felizmente, os pés da geladeira, não utilizam sapatos.

O coitado do refrigerador, com menos de um ano de uso, veio da casa de tio Firmino, irmão de papai que morreu recente, do coração. O aparelho ficou capenga em decorrência da mudança. Os carregadores, mais desastrados que apressados, ou as duas coisas juntas, gentilmente quebraram um deles, na descida do caminhão. Moramos numa casa bastante espaçosa, incrustrada elegantemente dentro de uma chácara pequena cheia de árvores e deveras aconchegante. A construção é engraçada, todavia, extremamente funcional. Dois andares amplos com vista panorâmica para a cidadezinha que parece ajoelhada a seus enlevos. Há um terraço panorâmico e uma piscina que nunca foi terminada. Existe uma escada interna em formato de caracol ligando o andar térreo ao superior e este ao terraço. Nesse piso, vários quartos se alinham juntamente com três banheiros extras. De manhã, mesmo com esses cagatórios em dose repetida, é um verdadeiro inferno, com toda a galera querendo, ao mesmo tempo, fazer uso das privadas. Se alguém não conseguir segurar as necessidades mais prementes, urge correr no mato, nos fundos do quintal, ou sujar as calças de bosta ou urina, se não aguentar segurar o tranco.

Não dormimos em beliches, mas em colchonetes espalhados pelos assoalhos. Nossos velhos são os únicos que utilizam uma cama de ferro acomodada em lajotas, presente também do Tio Firmino. Na entrada dos lavabos meu irmão Élcio botou uma espécie de prateleira presa a braçadeiras de ferro, onde são guardados produtos para a higienização dos dentes entre outras quinquilharias de uso não só masculino, como feminino.

Temos o Bibí, lembram dele?, uma espécie de doméstico. Sujeito bom, de rosto pálido e idade indefinida. Parece uma versão antiga de Freddie Mercury depois de morto, em decorrência da magreza que o acompanha. É considerado, além de quebra galho, membro da família. O coitado só tem um defeito. Não fala absolutamente nada. Como se diz por aí, um sujeito sem palavra. No bom sentido. Bibi ficou interdito de comunicação e virou literalmente criado-mudo depois que perdeu a língua num assalto. Os bandidos que o renderam, além de levarem todos os pertences, um fusquinha 68, alguns trocadinhos e os sapatos, acharam por bem lhe faturar também o órgão do paladar.

Meu irmão mais novo, o Elenilson, engajou na escola do exército, em Agulhas Negras. Quando está de folga (permanece muito tempo aquartelado), a gente costuma lhe apresentar a vassoura de piaçava para varrer em redor da construção. O cara fica muito irado, porque a vassoura não tem cabo e ele, para dar conta do recado, precisa se curvar sobre a barriga. Sua pele, nessas horas, parece ostensivamente molhada, úmida, de uma maneira chamativa e elegante, como se ele tivesse acabado de sair de baixo do chuveiro.

Papai colocou na sala junto com a sua cadeira preferida e o Puff Fofão, de mamãe, um sofá de canto com o estofado bege supermoderno de cinco lugares, com braços longos e aconchegantes. Quando não cabe todo mundo, os retardatários se acomodam as pernas dos demais que tiveram a sorte de chegar primeiro e se hospedaram em melhores condições. Nessas horas, para assistirmos a televisão tela plana (parece até um painel de cinema particular), desligamos os lampiões de gás sobre a estante. Imagine!, lampiões de gás. Temos luz elétrica lá para dentro, mas o Eliodoro, meu irmão eletricista, ainda não achou tempo de puxar a fiação e botar os bicos de luz nos cômodos faltosos.

Eliodoro, realmente não tem tempo, coitado. Passa o dia todo com Fernanda, a sua namoradinha, trancafiado dentro do seu quadrado. Eles nunca parecem notar que as paredes onde se abrigam não bloqueiam nenhum som. Sabemos quando trocam juras eternas, brigam ou fazem sexo, devido aos gritinhos de ambos, estrondejando por toda parte. Tenho em conta que nasceram grudados. É uma agarração, uma beijação, um lambe-lambe, tipo tirando feijão da boca um do outro. Mamãe diz que, se alguém clicar a Fefê, sai meu irmão dependurado na calcinha dela. Ou, ao contrario, se uma foto dele pintar nas redes sociais, de contrapeso, vem, com certeza, a infeliz atarracada em seus colhões. Deixando de lado esses pormenores, Fefê é uma boa moça, de família, vizinhos próximos, leais e prestativos. Todos sem exceção se gostam e se respeitam.

No imenso quintal de quase cinco mil metros quadrados, plantamos de tudo. Inclusive mandioca, à noite, quando nossos pais estão entretidos com os telejornais e as novelas. Eu com minha noiva Tatiana, de um lado, quase subimos pela escada de Jacó, até o infinito que nos contempla. Eliza com Fagundes, da padaria, encostados no barracão da bomba fazem miséria, e a Eunice com o Godofredo, professor de artes marciais, sob o pé de bananeira, viram anjinhos. Nossa irmã Elizandra é crente, vive com a bíblia pra baixo e pra cima. Não namora, diz ser pecado. A Enia, por seu turno, não arranjou alguém pra lhe esquentar as orelhas. Parece ter perpetuado seus dias invocando a santa paciência de Penélope.

Voltando as plantações, cultivamos das alfaces, para as saladas, aos maracujás e acerolas para sucos. Mamãe ganhou dos pais de Fefê, namorada do meu irmão Eliodoro, um louro que não voa, anda a casa toda como um idoso, não deixa coçar o piolho, é traíra, gosta de tomar banho duas vezes por dia, adora café na colher, comer couve refogada, bicar a gente, e ojeriza a ficar sozinho, quando o colocamos junto ao chiqueiro de porco. Para completar, não repete nada do que falamos, vive de olho num gato esquisito que Eunice faturou de uma amiga da escola, quando completou quinze anos.

Enia é a menina dos afagos e carinhos de papai. Ele ficou cego, de um olho, por causa da diabete e Enia é quem o leva todo mês na caixa para receber a aposentadoria e pagar as contas. A nossa rua não é propriamente o que poderíamos chamar de avenida. Está mais para um beco apertado. Não tem saída. Tio Chico, irmão de mamãe, que mora ao lado da nossa propriedade, a apelidou de “via curta”. Não dá mão. Nem pé. Quando o bauzão do mercado entra para vir fazer a entrega das compras (ou um carro de passeio ou a carrocinha do gás, estaciona em outros portões de garagens), os motoristas se vêm com os nervos em frangalhos. Chegam a arrancar os cabelos.

Os que são carecas, falam mal, esbravejam, vomitam pelos cotovelos. Xingam o prefeito. Dão chiliques. É muito divertido. Os melhores dias, aqui em casa são, realmente, os finais de semana.  A galera, em peso, se reúne na velha mesa de cozinha para o almoço. Alguém põe para assar uma carne de traseiro. Arrastamos o móvel da vitrola e as caixas até a varanda e a coisa só não fica cem por cento animada, quando o braço do “toca-discos” resolve empacar, e, por conta desse entrave, não pousa a agulha de cristal nos surrados bolachões de vinis.

Às vezes, me bate na consciência, a teima de que papai está prestes a chegar ao seu limite de abdicação e madureza de espírito, se é que não os alcançou (a doença o deixa desanimado, às vezes triste e melancólico). Ele não transparece essas deficiências, porém, pela convivência contínua, pelos acanhamentos e imperfeições, que se fazem gritantes e perversos, sentimos (ou pelo menos eu, em particular, percebo) ele trava uma luta interior furiosamente desigual. Apesar disso, entendemos (e aqui faço referencia aos outros irmãos), assimilamos, ou concebemos que o mais importante se resume num milagre divino. Papai está direto ao nosso lado, dando o devido apoio e procurando manter a moral erguida e a prole unida. Até agora, apesar dos percalços, tem conseguido segurar as rédeas firmes de seus intentos.

Não posso deixar de falar no nosso poço. Temos um. A nossa escavação é desses artesianos. Quase cinquenta e dois metros de fundura até o lençol freático. Papai, de quinze em quinze dias, costuma mandar o Bibí até lá nas profundezas do bicho, para ver, e não só isso, fotografar não sei o quê. Acho que deve ser para se certificar de como está à água, no solo, que graças a Deus, jorra em abundância e enche não só as nossas caixas, como as demais de meia dúzia de vizinhos.

Dizemos, quando esses eventos ocorrem, que Bibi vai e volta do fundo dessa grota com uma velocidade incrível, acomodado numa caçamba presa a várias roldanas e fortes correntes de aço acopladas a uma máquina potente comprada quando papai ainda trabalhava numa empresa mineradora. Tio Chico é quem manuseia essa máquina com destreza, embora, pela idade dele, fiquemos com certa apreensão de que algo saia errado e Bibi acabe se estabacando.

Quase sempre, meu velho tem umas recaídas brabas. Talvez pela doença, quem sabe por não poder fazer mais do que gostaria por todos nós. Nessas ocasiões, se tranca, no quarto, para chorar escondido, no colo de mamãe. Nessas oportunidades ela se transforma numa espécie de santa protetora: não fala com ninguém, não atende nenhum de nós e só tem olhos para o esposo (afinal, são quase sessenta anos de convivência). Toda vez que isso acontece ficamos apreensivos, pensando que talvez papai, desiludido com a vida, acabe por se sentenciar por conta e dar cabo da existência, se atirando, por exemplo, na linha do trem que corta os extremos do outro lado do muro do nosso terreiro.

Pondo de lado esse nosso medo diário, e outros fantasmas retardatários, a vida segue tranquila. Sem maiores complicações. De noite, até altas horas, eu e Tatiana fazemos a festa enquanto tomamos cerveja, comemos batatinhas fritas e apreciamos a lua e as estrelas. Tatiana mora oito portões abaixo do nosso e, quando resolvemos que está na hora de cada um ir conversar com seu travesseiro, a minha preciosa chega em cinco minutos, seis no máximo. Dai nos falamos pelo zap-zap. O mesmo quadro se repete com as manas Eliza. Ela some com o Fagundes, da padaria, para perto dos galinheiros e a Eunice, com o Godofredo, fazem ginastica encostados no muro que protege a herdade da linha férrea. Relembrando, o Godofredo é professor de artes marciais e como todo bom profissional, não pode perder o pique. Dessa forma vamos tocando o barco, a vida, os dias, as horas, a espera que nada mude. Do jeito que está, tenho com meus botões, se melhorar... se melhorar, estraga.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Campo dos Goytacazes, Estado do Rio de Janeiro.  28-11-2017

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2 comentários:

  1. Esse texto imita a minha vida e consequentemente ESSA VIDA ERA UMA "ARTE" literalmente.Pena que melhorou e estragou. Muitos dos quatorze irmãos se profissionalizaram e procriaram e a bagunça aumentou e eu fui cair na besteira de cursar uma faculdade e outros cursos e pronto: nunca mais sobrou tempo para mais nada, nem para tentar ser feliz!

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  2. Obrigado, amiga Deusenir, por deixar seu comentário ao meu humilde texto. São esses pequenos mimos, que me fazem seguir em frente. Eles me trazem alegria e satisfação, em saber que alguém teve a paciência de ler, e, carinhosamente, deixar viva uma lembrança, um agrado, um jeitinho gostoso de deixar nosso (meu) coração em festa. Que Deus a proteja. Saúde, Graça e PAZ. (Aparecido Raimundo de Souza).

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