quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

A falência intelectual da esquerda

A esquerda tanto abraça o rigor orçamental que criticou nos alemães, como culpa o capitalismo pelo empobrecimento quando a pobreza está em queda livre. Não confere os factos e faliu intelectualmente

André Abrantes Amaral

É curioso que escreva sobre a falência da esquerda quando esta se prepara para passar no Parlamento um orçamento que se espera excedentário. Sucede que o próprio facto de tal acontecer comprova o que digo: a esquerda faliu e nada tem a acrescentar. Outra prova disso mesmo vimos escarrapachada na primeira página do Público do dia 18 de dezembro 2019, com uma citação de António Costa: “Não é de esquerda promover défices e aumento de dívida”. Podemos ver o primeiro-ministro a dizê-lo aqui. Este é o António Costa que fez parte do governo de Sócrates (que passou a dívida pública portuguesa de 72% para 114% do PIB apenas em 6 anos) e que criticou violentamente o governo de Passos Coelho por aplicar um programa com vista a travar essa mesma dívida pública socialista.

Costa não é o único à esquerda a fazer o mesmo. Qualquer socialista, tenha ou não feito parte do governo Sócrates, fosse do PS, do PCP ou do BE, acreditou durante anos que o défice equivalia ao Estado colocar dinheiro na economia. O défice era indispensável e a dívida para se ir pagando. Diziam-se keynesianos, embora Keynes nunca tenha afirmado tal coisa. E como não era verdade o que diziam nem era verdadeiro aquilo em que diziam acreditar, mudaram de opinião à primeira oportunidade. Ou dizem que mudaram de opinião porque, no fundo, nunca saberemos o que pensam e em que acreditam.

E o que é não pensar senão uma falência intelectual? É por isso que o excedente orçamental de que a esquerda se gaba (e que vamos ver se se concretiza) será conseguido por acaso, fruto da política do BCE, dos impostos altos e das cativações na saúde. Não houve reformas, não se apresentou nada de novo que não meros ajustes em folha Excel. O que o PS fez foi criar uma forma de manter os seus interesses à custa dos contribuintes e dos que precisam de cuidados sociais.

Claro que a falência intelectual da esquerda não se cinge à política orçamental. Generalizou-se em outros aspectos até porque, como dizia alguém, “há mais vida além do orçamento”. Pode até parecer que estou a anunciar uma grande novidade num país em que a maioria dos comentadores é de esquerda, ou se rende à pressão da esquerda.

Sucede que o diagnóstico já tinha sido feito em 2007 por Nick Cohen no seu livro “What’s Left? How Liberal Lost Their Way” e foi retomado por Roger Scruton com o seu “Fools, Frauds and Firebrands: Thinkers of the New Left”, saído em 2015 e publicado em português pela Quetzal. Neste, Scruton identifica o ressurgimento do discurso da esquerda após a crise financeira de 2008 e que culpa o neoliberalismo e o capitalismo de todos os males do mundo, nomeadamente do empobrecimento dos mais pobres e do enriquecimento dos mais ricos. A ideia de que o capitalismo e o liberalismo trouxeram miséria e que para os combater precisamos de um novo socialismo não só é um contrassenso, se tivermos em linha o que a história (e o sofrimento atroz de tantos) nos conta, mas também se tivermos em atenção o quanto o mundo mudou nos últimos 30 anos. Se soubermos que cerca de 10% da população mundial vive atualmente abaixo da linha de extrema pobreza, percentagem que em 1999 era de 28,6% e em 1990 de 35,9% (dados do Banco Mundial). Se reconhecermos que o tal liberalismo e capitalismo retiraram da miséria centenas de milhões na Índia, na China e em outros países até agora reduzidos a uma pobreza extrema.

Ou seja, uma realidade em total contradição com o discurso da esquerda. Não é a primeira vez que este não bate com os factos, mas o mais grave é a defesa de ideologias totalitárias. Neste sentido vale mesmo a pena ler o livro de Scruton em que essa tendência de libertar o indivíduo das estruturas sociais para o submeter às ordens de diretórios e comités de toda a espécie não se esbateu. Pelo contrário, a rigidez intelectual é tal que assistimos em 2020 à mesma lógica argumentativa que outros antes de nós combateram em 1920, em 1950 ou em 1970.

O desenvolvimento econômico de países como a Índia e a China, que até agora eram vistos pelo Ocidente como pobres e subdesenvolvidos tem despertado incerteza entre os cidadãos do Ocidente habituados a ver o seu modo de vida como sendo o de referência. É muito interessante percebermos como a esquerda (e alguma direita estatista que responde à esquerda com os argumentos desta) tem pegado nesta incerteza e incute no cidadão ocidental um receio perante a redução do peso da sua civilização em detrimento de outras, como a Chinesa. Este neocolonialismo é um dos sinais mais reveladores da falência intelectual a que me refiro.

A incapacidade para pensar aliada ao factos explicam tweets como este do Bloco de Esquerda, e a sua comparação com este de Catarina Martins, aquando dos incêndios de Pedrógão. Explicam o clima de suspeição que se pretende entre homens e mulheres, a divisão dos Portugueses entre raças e as orientações sexuais de cada um que alguns pretendem impor. Explicam o medo com o fim do planeta, caso não sigamos as medidas de certos diretórios e comités. Explicam o surgimento de um partido como o Livre que escolheu uma mulher negra e gaga para alcançar o que nenhum militante conseguiria, para depois a descartar à primeira oportunidade. O ridículo que é o Livre é outro sinal da falência intelectual da esquerda. A par do PS. Um partido que em nome do socialismo faliu o Estado para agora defender o que criticou como forma de manter à tona os interesses que representa.

A falência intelectual da esquerda é uma boa notícia já que significa que o seu fim esteja próximo, mas acarreta perigos. O país hoje é governado sem qualquer orientação, sem a mais pequena estratégia, sem o mínimo rumo. Não se sabendo o que pensam nem em que acreditam, o escrutínio e o contraditório, tão importantes numa democracia, torna-se difícil. Mas o pior é o que políticos sem um pensamento estruturado e adequado à realidade podem fazer para se manterem no poder. O que podem fazer ao futuro dos nossos filhos. É aqui que uma boa notícia se pode transformar num pesadelo.
Título e Texto: André Abrantes Amaral, Observador, 8-1-2020

Um comentário:

  1. Só agora? Mas a esquerda não foi sempre falida intelectualmente??

    Ou o cronista está a tentar convencer-nos de que a esquerda alguma vez teve algum crédito?

    A esquerda apenas existe para se vingar, para invejar quem produz e para roubar quem poupa.

    Tudo o mais que disser é apenas instrumento para iludir incautos e atingir os objetivos antes enumerados.

    João Brandão

    ResponderExcluir

Não aceitamos comentários "anônimos".

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-