sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Liberalismo a metro

Sérgio Barreto Costa

Janeiro de 1702. Charles Louis de Secondat, vulgarmente conhecido como Montesquieu, entra na adolescência e recebe de presente um exemplar do Segundo Tratado do Governo de John Locke. Descontente com um dos parágrafos em que se expunha a nova teoria liberal, deixa-se tomar pela ira e convoca o filósofo inglês para um duelo: quem conseguisse fazer xixi mais longe ficaria com o título de pontífice máximo do liberalismo. Entretanto, desde esse momento fundador, várias foram as vezes em que a popular competição das distâncias foi levada a cabo pelos defensores do governo limitado e das virtudes da iniciativa e propriedade privadas. O economista Jean-Baptiste Say, por exemplo, gabava-se de ter ultrapassado a marca histórica do seu colega Adam Smith em 34 centímetros. E toda a gente se lembra do dia em que Hayek e Milton Friedman, aproveitando um pequeno intervalo na reunião da Sociedade Mont Pèlerin, se viraram para o Lago Léman, desabotoaram as respectivas calças, e deram início às hostilidades.

Não foi por isso de estranhar que, após a divulgação da declaração de princípios do novo partido de Santana Lopes, onde eram reveladas as suas tendências liberais, tenha imediatamente surgido, da parte de outros grupos políticos, uma reação do tipo “eu sou mais liberal do que tu” e o consequente desafio urológico-métrico. Estes concursos, apesar de ligeiramente infantis, são sem qualquer dúvida preferíveis à picareta que Estaline mandou cravar no couro cabeludo de Leon Trotsky, evento que integra a epopeia concorrente intitulada “eu sou mais socialista do que tu”. É também por estas pequenas diferenças que escolhi este lado do combate de ideias, um lado que, até ver, não dá tantas dores de cabeça.

Há muitas pessoas que não conseguem entender a obsessão pelos purismos ideológicos no espaço político que defende a “sociedade aberta”. Dizem que o liberalismo, mais do que uma ideologia, é um conjunto de tradições que podem e devem estar presentes em partidos conservadores, democratas-cristãos, sociais-democratas e, até, nos que pertencem ao campo do socialismo democrático. Para estes excêntricos, que ignoram os prazeres das competições com líquidos, mais importante do que a existência de partidos liberais é a existência de liberais nos partidos – e quanto maior o número, melhor. Notoriamente, não percebem nada do assunto. E bastava que analisassem a história recente do Reino Unido e o caso concreto de Margaret Thatcher para entenderem. Sendo mulher, nunca reuniu as condições anatómicas indispensáveis à boa prestação no confronto urinário, e esse facto, catastrófico, condenou o seu país a uma década sem vestígios de liberalismo.
Título, Imagem e Texto: Sérgio Barreto Costa, Blasfémias, 6-9-2018

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