domingo, 3 de fevereiro de 2019

[As danações de Carina] A embriaguez da existência: o amor

 Carina Bratt

Nada como viver um grande amor, estando em Roma.
Eduardo J. Bichê

Quando de nossa passagem meteórica por Brumadinho (minha e de Aparecido), dona Alice Quinteiro uma das muitas assistentes sociais, pessoa muito alegre e simpática, divertidíssima, desenvolvendo um trabalho voluntário grandioso em socorro às vítimas, a certa altura da nossa amizade, me perguntou, de chofre, “o que significava o amor, ou melhor, o que era o amor para mim?”. Na hora, pega de surpresa, respondi o que me veio à cabeça.  Depois, no hotel, fiquei pensando naquela pergunta. E mais ainda, na resposta frívola e vazia que devolvi.

“O que é o amor?”. Poderia ter respondido com uma das muitas frases célebres de Luiz de Camões, tipo: “O amor é um fogo que arde sem se ver” ou daquele outro conhecidíssimo autor de “Le Petit Prince”, Antoine de Saint-Exupéry, que escreveu o seguinte: “Amor não é apenas olhar um ao outro, é olhar ambos na mesma direção”. Poderia ter ido mais longe, e, como o português Júlio Diniz, em “As pupilas do senhor reitor” ter mandado esta: “O amor é um som que reclama um eco”. Se este eco não vier do coração, não haverá amor, apenas troca de afinidades.


Amor, Amor, o que é o amor? Antes de tudo, o amor é uma afeição. Um sentimento bucólico e agradável que impele as pessoas a um termo que lhes pareça belo e desejado. A palavra amor tem vasta sinonímia real e figurada. Assim pode significar a um só tempo, amizade e ligação espiritual. O objeto, ou a coisa amada. A benevolência, o carinho, a simpatia, a tendência, o instinto sexual. Ou, via outra, o desejo sexual para ser mais direta. Ou mais objetiva: não só o desejo sexual, a cópula carnal.

Já que toquei em instinto sexual, desejo sexual e cópula, quem bem sintetizou o amor, sem dúvida alguma, não outro, senão Vinícius de Morais. “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Kikikikikiki. Ao que eu acrescentaria: “Ou enquanto dura”.  O amor também pode ser visto como ambição ou cobiça, culto, veneração, caridade, coisa ou pessoa de gestos temperados. Criatura prendada, pessoa bondosa, como minha amiga Alice Quinteiro.

Alice deixou a sua casa, em Sombrio, extremo sul do litoral de Santa Catarina, o casal de filhos, o marido, para ser voluntária, sem ganhar nada em Brumadinho. Por vezes sem conta a flagrei beijando crianças, abraçando senhores e senhorinhas que chegavam aos prantos em busca de uma palavra amiga. De um consolo. De um ombro, de um colo, de um “fique bem, guria. Amanhã tudo melhorará”. Entraria aqui a prova viva da caridade, do coração aberto, do corriqueiro, do “se dar sem receber”. Amor é loucura. É estar grudado no chão, na Avenida Paulista, em São Pulo, estando na Quinta Avenida em Nova York. Isto é desatino é pura loucura. Nietzsche ensinava que “sempre há um pouco de loucura no amor, porém, sempre um pouco de razão na loucura”.

Amor é também o termo técnico para as relações sexuais. No plural, tem o sentido específico de fornicações ilícitas, comércio amoroso, putaria, depravação. Sodomia e Gomorra. (Gomorra??!!). “Durma com outra que não eu, sua esposa, e amanhecerás inteiramente brocha dos testículos” escreveu Eunice de Sá, pensadora de rua (sobretudo guerreira e sonhadora), morando ao relento e vivendo de pequenas doações, na rodoviária de Pará de Minas, em Belo Horizonte. Também no plural, em caminho paralelo, a Mitologia. Nela designa as Divindades menores subordinadas à Vênus e a Cupido. Em outra linha, uma planta leguminosa papilionácea, a Meibomia discolor, recebendo, ainda, os nomes de Carrapicho e Marmelada-de-cavalo.

Mudando de relógio de pulso para relógio Cuco de parede, curiosa é a representação artística de Heros, o deus do amor. A princípio, inseparável da mãe, o amor (Heros) representado sozinho, a partir do século IV, com asas e o corpo nu de adolescente desaforado. Aparece mais tarde com os traços da infância, como nas terracotas de Tânagra (estatuetas) e, em Roma, nas pinturas de Pompeios. O renascimento faz surgir à figura úscula do amor em muitos trabalhos alegóricos de Botticelli, como a (A Adoração dos Magos), de Perugino (Retábulo de Fano), de Rafael, em (O Casamento da Virgem) e outros. Úscula aqui tem como definição, o “amor incondicional, ou amor acima de qualquer suspeita”.

Na França de W. Somerset Maugham, autor de “Um Gosto e Seis Vinténs”, no século XVIII (aquele Xis que só vê três, nunca enxerga quatro), diversos pintores se inspiraram de maneira encantadora do “AMOR”, deixando obras maravilhosas como “O Amor no Teatro Frances”, de Watteau, e “Templo do amor”, de Burne-Jones. Como citei Somerset, nada melhor que uma frase dele, sobre o tema: “O amor é o que acontece entre um homem e uma mulher que não se conhecem muito bem”. Depois que passam a se conhecer a coisa muda. Entra em cena uma declaração de amor meio que bombástica do comediante Rodrigo Sant’Anna a seu namorado, o roteirista Junior Figueiredo: “a vida a dois sempre vira um caos total, principalmente se vivida a três”.      

Vejam que coisa engraçada. Por mais estranho que possa parecer, não há na linguagem dos selvagens que habitavam determinada região do Congo, palavra que significasse amor. Possivelmente por eles serem selvagens. Kikikikikiki. E o que dizer do amor perfeito?  Existe? Claro que sim! O amor perfeito é aquele “amor” do compositor Erasmo Carlos, de 77 anos, pela Fernanda Passos, de 28. Do cantor Frank Aguiar, de 46, pela estudante de 21, Carolina Santos.

Vamos mais? Do Romeo and Juliet, tão bem descrito por Shakespeare. Amor perfeito é o do empresário Flávio Briatore, 68, pela modelo Elisabetta Gregoracci, de 38 anos. Do ator armênio Armen Dzhigarkhanyan, com 83 e Vitamina, desculpem Vitalina Cymbalyuk, de 40. A listinha é grande... o cardápio variadíssimo. Por esta razão, “amar uma mulher nova, sendo velho, é como perder o caminho da cama estando dentro do quarto do casal, e, pior o mais humilhante: com o pinto escondido no congelador”. Tompson de Panasco.



Amor perfeito pode ser ainda e, de fato é, uma planta violácea, cujo nome científico é Viola Tricolor. Se você minha amiga é tricolor e gosta de viola ou do Fluminense... há anos se obtém dezenas de espécies variadas de amor perfeito. É europeu, porém, muitas das suas espécies vieram da Sibéria. Para quem nunca viu, falo de uma planta de folhas ovais, de grandes flores irregulares de cinco pétalas, duas superiores, muitas vezes da mesma cor. As três restantes variam desde o amarelo, até ao violeta carregado.

 Finalizando, falemos do amor platônico. Esta expressão provém de ter tratado Platão (filósofo Grego) desta espécie de amor em alguns de seus célebres diálogos sobre o amor e a amizade. Até os nossos dias ainda se discute sobre qual seja, ou qual seria, precisamente, a espécie de amor enaltecido pelo filósofo. Entretanto, de qualquer maneira, se consagrou a expressão para indicar o amor espiritual entre pessoas de sexos diferentes. A amizade pura, sem interferência de desejos sexuais. Amor platônico pode ser também o meu amor declarado e não correspondido pelo meu... 
Título e Texto: Carina Bratt, de São Paulo Capital. 2-2-2019

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2 comentários:

  1. KA ETERNA APAIXONADA...
    AMOR É O "SENTIMENTO????" MAIS EGOÍSTA DO UNIVERSO SUPERANDO O PRÓPRIO EGOÍSMO, SENDO SEU SUPERLATIVO MAIS PERVERSO.
    Já escrevi, creio aqui mesmo que sentimentos são produzidos pelos nossos 5 sentidos, isso nos dá consciência das experiências que possamos obter em nossa curta vida.
    A MENTE é um computador, alguns dizem-no quântico outros líquido, pouco importa, a mente é um HARD DISK captador de dados.
    Sentimentos existem porque captamos DADOS e os transformamos em CONSCIÊNCIA.
    Não podemos deixar a consciência consumir nossas mentes.
    Não podemos consumir nossas vidas por causa de outras pessoas.
    AMOR É UM VÍCIO POR UMA DROGA ESPECÍFICA.
    Cada um é uma marca única de computador, apesar que muitos confundem mente com consciência e tornam-se escravos de ideologias, e se tornam prisioneiros dos seus sentidos.
    Tudo que nos causa prazer poderá nos trazer muita dor.
    Embora eu não consigo entender que gosta de sofrer.
    A mental produz a necessidade da falta.
    Falta por fazer, por ter, por ver, por ser, a eterna procura por ver, fazer, ter, ser, e a principal delas, sobreviver.
    Tem pessoas que não querem sobreviver, quando lhes falta, ver, ter fazer, etc..
    Perder o óbvio não nos devia causar sofrimento.
    A mente é só um computador, nós não somos!
    Nossa Consciência deve perceber os mecanismos mentais, as experiências externas.
    Enquanto não percebermos que somos consciência e corpo e nos livrarmos do somos mentais, somos indiferentes a vida.
    Esse é um dos poucos pensamentos hinduístas que aprecio.
    Às doenças mentais não existem reparações, programações e tratamentos, apenas paliativos.
    Vinícius queria dizer que só há amor enquanto DURO.
    Sexo é apenas MENTAL.
    Depende de olhares, ouvidos, sabores, olfato e TATO.
    Sem TATO não há carícias, afeto e ORGASMO.
    Sem olfato não há feromônios nem TESÃO.
    Certa vez li um ensaio que o estuprador sente no olfato , o medo da vítima. Não consegui achá-lo de novo.
    Percebem. O medo tem cheiro.
    Eu não tenho filhas, mas para amigas e sobrinhas eu sempre dou o mesmo conselho.
    Quando o SEXO lhe chamar Vá, mas para viver um bom casamento, procure entre os seus amigos.
    SEXO muitas vezes é indiferente à amizade e o companheirismo.
    fui...

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  2. Prezada Carina,
    Quem me dera eu tivesse conhecido alguém que conhecesse tanto de amor, inclusive teoricamente!
    Mas deveria que ter sido há pelo menos 30 anos passados, quando na plenitude das emoções, e sem compromissos, e restrições que a idade nos impõe.
    Sou um seu admirador, mas o faço com uma certa inveja.
    Livre é, e pregas a liberdade, em especial nos sentimentos!

    Ah!? Quase esqueço, o motivo deste comentário…

    Os meus parabéns pelo texto sobre o amor!

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