sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Eu não sonho em ser venezuelano

Kamel Daoud

O caos deixado por Chávez estende um assustador espelho a uma Argélia onde o populismo prospera sobre o ouro negro



Quando se é argelino, não se sonha em ser venezuelano. Sobretudo quando se é argelino, aliás. Porque é o caso exemplar de um país rico que acaba mal. Espelho de nossos possíveis futuros, entre gerontocracia, petromonarquia e “esquerdismo” das elites submetidas aos afetos do pós-colonial e aos utopismos das “massas”.

A Venezuela amedronta, apesar dos discursos, em nosso país, ao Sul, teimam em apresentá-la como vítima do “imperialismo”, como rebelião ou revolução. Pode-se escrever, até porque as palavras são gratuitas, mas a realidade é ansiógena, como é a riqueza induzida pelo gás e o petróleo: a energia petrifica as elites e os regimes. Sem jogo de palavras.

Este autor lembra-se da febre Chávez no seu país (Argélia). Era um pouco a batalha de honra da esquerda árabe, sua fantasia de terceira idade, sua moda alucinante. Este homem fez do seu país uma tribuna e uma aclamação, uma selfie para a sua pessoa e ideias. Mas com pratos vazios, uma economia da idade da colheita e uma vida política reduzida ao anátema, entusiasmo e narcisismo guevarista. Ele morreu e deixou a fatura dos seus discursos aos outros, às crianças por vir. Hoje, é um país rico, ajoelhado. Um vasto país, estreito para os seus, um país donde se foge e que se deixa, um país que é o contrário da utopia e da revolução que leva à felicidade, senão à realização. É tão somente o caos.

É por isso que a Venezuela assusta muitos argelinos. Percebe-se o que pode acontecer entre utopismo, pseudorevolução, irrealismo, culto da personalidade e governação por discursos e o preço do barril. Vê-se a inflação, a fome, o êxodo maciço. Vê-se o laboratório dos “exilados” que nos dão lições sobre identidade, nacionalismo, enquanto se instalam no Ocidente. Porque o chavismo não esvazia os pratos quando se mora em Paris ou em Estocolmo. Ele pode até se tornar moda. A gente vê esse pós-descolonialismo que reduz a vontade de ser livre à de não assumir nenhuma responsabilidade. Vemos o culto do “povo”, quando não o culto de si mesmo e como o vitimário pode se transformar em casta e inquisição.

Não, eu não sonho em ser venezuelano. Não sonho em sê-lo porque cochila em mim a desconfiança em relação ao entusiasmo e lirismo que ignoram a realidade e o esforço. Porque tenho uma desconfiança contra o populismo que acabará em casta e polícia políticas. Eu o vivenciei, sempre, como uma ilusão e uma ratoeira das concorrências ao poder. Desconfio da palavra povo, porque como um processo do indivíduo que sou, ele acaba por retirar a minha liberdade em nome da liberdade de todos, ele me libera do peso do mundo para me carregar com o peso das cicatrizes da minha história. Eu desconfio desse poder em meu nome, que recusa o meu pronome.

E tenho medo hoje, na Argélia, de sofrer a mesma sorte. De ver o meu país ceder a sua terra sob as minhas solas e partir em todos os sentidos do vento. Porque, como na Venezuela, eu sofro a maldição do petróleo, o pós-colonial como conforto e renda,  a distribuição como economia, a casta como representação, a ilusão do povo e o discurso do complô e da excepção nacionalista, narcisista, perigosa.

O guevarismo é uma bela narrativa de liberação, uma experiência necessária da liberdade e da rebelião, um enfeitiçamento da revolução. É um bom rito de iniciação para o indivíduo, mas péssimo para os povos. Muito mau. Porque, para os povos, morre-se quando se é tão jovem, somos pobres enquanto temos campos e o ouro negro, a gente se engana de terra e abandonamos a nossa, respiramos mal ainda que o mundo seja vasto, e somos traídos pelos nossos, pela realidade, pelo tempo.

Existe no caso venezuelano alguma coisa que me assusta, que pode me alcançar e arrisco acordar tarde para viver esse pesadelo. Esse belo país é hoje uma lição acabada para todos aqueles que acreditam que o populismo é uma solução.
Título e Texto: Kamel Daoud, Le Point, nº 2422, 31 de janeiro de 2019
Tradução, Digitação e Marcação: JP, 8-2-2019

2 comentários:

  1. Estou a pensar Facebook que os famigerados partidos da "extrema-direita" nunca se recusaram a abandonar o poder se derrotados nas urnas, mas já os "democratas" da extrema-esquerda, não o abandonam nem que todo o país esteja contra eles. Não me passa pela cabeça ver Geert Wilder, Nigel Farage, Le Pen, ou Viktor Orbán a recusarem-se a abandonar a governação caso o povo assim o decidisse. E o que temos nós então? Uma coligação de Esquerda em Portugal que não ganhou eleições...outra em Espanha, apesar de tal não ser tradição nesses dois países. Nos USA os "Democratas" tentam derrubar um presidente (legalmente eleito) e minam a sua governação. Na Venezuela é a desgraça que todos conhecem. Por isso sublinho, a Esquerda só é muito boa a impor ditaduras e a mentir descaradamente ao povo!

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