sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

[O cão tabagista conversou com...] Gilvan Pinheiro: “Sim, ganhei muito dinheiro. Mas não consegui levar o ouro para o Brasil em 1978.”

Nome completo: Gilvan de Souza Pinheiro

Nome de Guerra: Gilvan Pinheiro

Onde e quando nasceu?
10 de abril de 1950 - Hospital de Bonsucesso - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

Onde estudou?
Primário: "Grupo Escolar Pandiá Calógeras"

Ginásio: "Escola Técnica Federal de Belo Horizonte" e “Colégio Estadual de Belo Horizonte”.

Científico "Colégio Estadual de Belo Horizonte", sem me formar.

Então, a infância foi passada no Rio e a adolescência em Belo Horizonte...
Sim, nasci no Rio de Janeiro e fui criado em Belo Horizonte até os meus 18 anos.

Qual (ou quais) acontecimento marcou a sua infância e juventude?
Comer as hóstias da Missa do Galo da Igreja Santo Antônio em Belo Horizonte antes da missa e beber todo o vinho do Padre Aguinaldo. 😊

A minha infância em Belo Horizonte foi demais, tinha muitos amigos todos muito ricos e eu     muito pobre. Mas sempre fui o centro das atenções, vivia mais na casa dos meus amigos do que na minha própria. Fazíamos muita bagunça pelo bairro. Meu pai, um caminhoneiro, e minha mãe fazendo o papel de mãe e pai ao mesmo tempo. Fiz tanta coisa que se fosse te contar aqui não teria muito espaço. Graças a Deus.

Quando começou a trabalhar?
Aos 16 anos e meio entrei voluntário na Força Aérea Brasileira, pois na minha cabeça este era o passo para me tornar piloto (big mistake). Para me tornar piloto eu teria que ter ido para Academia da Força Aérea e não para um Destacamento de Base Aérea. Mas já que estava dentro, sem retorno, me tornei um Bombeiro para combater incêndios ou desastres com aeronaves.

Servi como voluntário um ano onze meses e vinte e nove dias (outro mistake), porque quem é voluntário é obrigado a servir dois anos em vez de servir nove meses. Mas tudo bem, foi um bom aprendizado.

Gilvan, esteja muito à vontade, o seu espaço é ilimitado! A nossa revista tem a pretensão de se destinar a LEITORES.
Você não gostou muito do seu tempo na Força Aérea?
Pelo contrário, Jim, gostei muito, pois foi lá que aprendi muitas coisas que estou usando na minha vida até hoje. Acho que todas as pessoas deveriam passar pela carreira militar.

Então, sai da Força Aérea e vai para onde?
Saí da Força Aérea e fui para Guarapari - Espírito Santo. Tirei umas férias, depois fui trabalhar com meu pai em um Posto de Gasolina. Em seguida me mudei para Vitória e comecei a trabalhar na Sadia/Transbrasil onde comecei a tomar o gosto pela aviação.


Em que área começou na Transbrasil e por quanto tempo?
Na Sadia/Transbrasil comecei a trabalhar em vendas e emissão de passagens diretamente aos passageiros e órgãos do governo. Isto foi na época dos Dart Herald Turboprop e depois na época dos BAC 1-11.
Também trabalhei um período como despachante no aeroporto de Vitória.

Qual a sua opinião sobre Omar Fontana?
Minha opinião sobre Omar Fontana [foto] é a de que era um empresário e visionário para aquela época.


Mas a empresa dele faliu...
Na questão de a empresa ter falido eu não posso comentar, pois já tinha passado muitos anos e eu já não tinha mais contato com mesma.

Compreendo.
E então, quando ‘despachava’ no aeroporto de Vitória surge a Varig, quer dizer, a Varig ‘aterrissa’ na sua vida... 😉
Não. Por muitas vezes eu pedi autorização ao meu gerente para passar para o voo. Ele nunca me deu a chance de me tornar Comissário da Transbrasil.

Um belo dia de abril de 1974 eu pedi demissão, comprei uma passagem só de ida e embarquei para Madrid.

Chegando em Madrid descobri que a minha bagagem tinha seguido para Paris.

Por conta disso, a Air France me deu dinheiro e pagou o meu hotel até que a bagagem retornasse a Madrid.

E assim foi o início de quatro anos de aventura pela Europa. Quase matando minha mãe de saudades.

A sua mãezinha ainda está viva?
Minha mãe faleceu há três anos, em 2016. Ela conseguiu suportar a saudade.

Iniciou a sua ‘aventura pela Europa’ fazendo o quê, exatamente?
Depois de passar uns dias em Madrid embarquei num famoso e luxuoso trem (TALGO) e comecei minha viagem para mais ao norte da Europa, passando por Genebra na Suíça e terminando em Bonn na Alemanha.

Fui para casa de um amigo alemão que tinha conhecido no Rio de Janeiro. Lá ele me conseguiu um emprego numa das vindimas à beira do Rio Reno. Meu primeiro trabalho em solo europeu. Aprendi tudo sobre vinho branco, desde a colheita da uva até o armazenamento em enormes tambores de madeira. Foi um período muito bom. Ganhei bastante dinheiro e experiência. Pois estava sozinho, com pessoas estranhas que me acolheram muito bem, mantemos a amizade até hoje.

Casa onde morei na Alemanha
Aprendi a me virar. Com o final da colheita eu resolvi embarcar em outro trem com destino ao sul, Portugal (Comboio dos Imigrantes Portugueses). Não sei se você já ouviu falar, mas todo final de ano existe um comboio especialmente para portugueses que imigraram para outros países da Europa. E neste caso eu fui da Alemanha até Lisboa em um destes.

Experiência maravilhosa, pois as pessoas são as mais simples e mais generosas. Sem ter que levantar do meu assento, comi e bebi do melhor que os portugueses traziam com eles. Desembarquei em Lisboa ainda no clima da pós Revolução dos Cravos.

Em 1974. E fica em Lisboa quanto tempo?
Bem, até 1978. Mas em 1975, eu um amigo português, Pedro Resende, ex-tropa especial em Angola e Moçambique, decidimos fazer uma viagem até Londres pois a situação em Portugal estava muito ruim, não tinha trabalho para ninguém, e com os retornados piorou.

Ok, fomos nessa viagem. Quando chegamos em Dover fui escolhido pela imigração para umas perguntas e o resultado foi: não me deixaram entrar.

À noite me colocaram de volta para Paris. Este meu amigo retornou junto e viemos de volta a Portugal.

Para minha sorte fui admitido em um bar brasileiro na Alameda Dom Afonso Henriques.  Nome do bar "Bate Papo", ali fiquei a trabalhar e beber todas por um ano.

Depois deste bar fui trabalhar em uma empresa de vendas "Reprex". Foi aí que deixei de ser pobre e virei rico, pois viajava por todo Portugal só me hospedando em hotéis 5 estrelas. Uma experiência fantástica. Mais uma vez fiz excelentes amizades que mantenho até hoje.



O que vendia essa empresa?
Nesta empresa o sistema de vendas era mais ou menos parecido com as vendas do Baú da Felicidade, do Silvio Santos. Mas nós vendíamos livros escolares, coleções, Bíblias maravilhosas bordadas a ouro...

E volta para o Brasil, cheio de ouro, em 1978, certo?
Sim, ganhei muito dinheiro. Mas não consegui levar o ouro para o Brasil em 1978. Cheguei mais uma vez com uma mão na frente e a outra atrás.

Aí, em outubro de 1978, vi um anúncio da Varig, com vagas abertas para a Loja de Copacabana, setor de emissão de passagens, fui para a entrevista e aí começou a minha vida na Pioneira.

Gilvan, já na “primeira experiência” na Europa, lá nos vinhedos alemães, você nos confidencia que ganhou bastante dinheiro... em Portugal também... e chega, de volta ao Brasil, “com uma mão na frente e a outra atrás”... ora, permita-me perguntar, onde e em quê gastou todo o dinheiro? Em fados, farras e f...s?
Sim, o ouro que ganhei foi gasto exatamente onde você apontou. E em muitas outras coisas. Oh pá! eu só tinha 25 aninhos, tinha que aproveitar, não achas?

Sei... aí você volta para o Rio de Janeiro e vai trabalhar na loja da Varig, em Copacabana, certo?
Sim, comecei a trabalhar na loja da Varig em Copa. Fiquei lá por um ano, e em 1979 fiz prova para o voo. Fui admitido no voo.


Minha turma foi uma das que mais sofreu, pois foi uma época de junção com a Cruzeiro e uma época que a Varig não comprava aviões novos.

Outra coisa, na minha turma tinha muitos bagunceiros, tanto que no dia da formatura a D. Alice leu o nome de cinco alunos que não se formariam e foram desligados da companhia.

Quando comecei a voar a minha escala foi de um ano inteiro nos Electras, fazendo quatro pernas SDU/CGH/SDU.

Do Electra é promovido para...
Bem, do Electra fui para o 737/727 e para o 707. Aí pensei: consegui chegar no 707, agora próxima escala Nova Iorque, Paris, Londres, Roma... Foi um belo engano, dez anos voando na Nacional, quatro pernas para Brasília (com aqueles passageiros que costumavam dizer: sabe quem sou eu? Deputado/Senador...) Lagos, Costa do Marfim (no voo que caiu em Abidjan eu estava escalado, só continuo vivo porque cheguei regulamentado no dia anterior e me neguei a fazer o voo, mesma sorte não teve a colega Gina Silva), Santiago, Punta Arenas (174 poloneses bêbados e que fumavam tanto que da terceira fileira de poltronas para traz não se enxergava nada), tínhamos que ir à cabine de comando para tomar um oxigênio. Sofremos muito.

Cmra. Gina Silva

Brabo, né? E fica no Boeing 707 até 1990, certo?
Não foi bem até 1990, foi até setembro de 1987 quando de uma reunião com o senhor Sergio Prates (então Diretor do Serviço de Bordo da Varig, NdE) o mesmo me perguntou o que eu estava achando. Eu respondi que quando entrei na Varig eu imaginava que iria ficar na Nacional uns três anos e que depois de tanto tempo e já voando para Los Angeles, Miami, Barcelona, de A300, B 767 por que eu não poderia voar DC 10 e B 747 para NYC/PAR/ROM/LON/AMS e se o inglês que se usava no A 300, B 767 era diferente dos outros equipamentos?!

Eu, de bigode, no B 707 voo para Buenos Aires

Nesse momento ele chamou a escala de voo e nos promoveu. Resultado: eu fiz um voo para NYC, um para PAR e um para AMS.

E então, no final de 1987, descobrimos a doença do meu filho, Patrick, resultando no pedido da Fundação Ruben Berta ao senhor Sergio Prates para me mandar baseado para Los Angeles. O que aconteceu no dia 1 de janeiro de 1988.

Se me permite perguntar, qual é a doença do seu filho?
Pois é, a doença do meu filho Patrick é o resultado da uma mutação genética que se chama "Duchenne Distrofia Muscular Progressiva", hoje ele está paralítico do pescoço para baixo, conectado a uma máquina respiratória podendo somente ver, ouvir e falar.

Mas por causa dele e a vontade de viver que ele tem, nós conseguimos quebrar todas as barreiras, inclusive nos tornarmos cidadãos americanos.

Aniversário de Patrick, 2018

Como ocupava o tempo nos pernoites? Quais dos que mais gostava?
Quanto ao que eu gostava de fazer nos pernoites, gostava de relaxar, jogar vôlei, alugar carro e sair por aí, museus... em resumo, distrair e aproveitar, pois a vida é muito boa, mas de vez em quando poderemos ter algumas surpresas.

Cidades que mais gostava de pernoitar? Não tenho nenhuma em particular, gostava de todas, pois em cada uma tinha alguma coisa para fazer.

Depois de 1º de janeiro de 1988 não voltará à base RIO, confere?
Tens razão, Jim, depois de janeiro de 1988 com o baseamento de dois anos e três meses e de algumas sacanagens que fizeram comigo na Varig e na chefia de Los Angeles, tomei a decisão de que quando acabasse o baseamento eu iria pedir demissão (foi aí que você entrou na história da minha vida) e ficar mesmo que ilegal nos EUA, para poder proporcionar uma vida melhor para o nosso filho. Assim foi feito.

Março de 1988 pedi demissão. Como já estava me programando seis meses antes de sair da Varig, comprei uma van e passei a fazer a condução dos tripulantes que estavam baseados em Los Angeles, e assim que pedi demissão da Varig eu já tinha um objetivo.

Quais sacanagens?
Bem, Jim, sobre as sacanagens vou abster-me de comentar pois já se passaram muitos anos...

Então, deduzo que desde janeiro de 1988 você vive nos EUA, há mais de trinta anos!
Tem saudades da Varig?
Pois é, já se passaram trinta e um anos e me parece que cheguei aqui ontem. Nestes trinta e um anos já fiz a condução dos tripulantes baseados aqui, tive uma sociedade no Restaurante By Brasil (Cmro. Coriamba - F/E Valdir Silva, Pombão - Gilvan Pinheiro - Edem Telesca) por dezesseis anos, dirigi caminhões (18 Wheelers - Cowboys do Asfalto ) em todo os EUA com exceção do Estado do Maine colocando 1.750.000 milhas, já entreguei pizza, chauffeur de limusines (só com a nata dos bilionários), guia turístico, no momento partner at Uber ( kkkkkkkk, coitado de mim quando eu digo que sou partner de uma empresa que vale US$ 100 bilhões de dólares).

Eu, Marisa e Patrick com o meu último caminhão em frente à minha casa.

Saudades da Varig? Eu ainda sonho com a Varig. Tenho pesadelos com a Varig. I love Varig. Tinha muita coisa errada na Varig, sim! Mas até hoje, se você perguntar até aos já falecidos se eles voltariam, eu te garanto que a resposta é sim. Imagina os que ainda estão vivos. Acho que eles, e isto eu me considero incluído, todos voltariam a trabalhar com a família Varig.

Inauguração do Restaurante By Brasil com Edem Telesca, Gilvan Pinheiro (camisa pink), Cmro. Coriamba e F/E Valdir Silva (Pombão)

E do Brasil?
Claro que sim. Afinal, nasci na Cidade Maravilhosa. Por todos os lugares do mundo por onde andei, não consegui enxergar uma vista tão maravilhosa como o Rio de Janeiro.

Durante o período do processo para imigrar para cá tive que ficar vinte anos sem ir ao Brasil, e quando recebi o carimbo no meu passaporte como residente permanente, no dia seguinte embarquei para o Brasil.

Com todos os problemas que temos por lá ainda fica difícil de não gostar.

Acompanhou os estertores da RG? Como se sentia?
Quanto ao final da Pioneira acompanhei sim, e fiquei bem desapontado com o nosso sistema no Brasil.

Até hoje, quando desembarco no Galeão e não vejo um avião da Varig, fico pensando como isto aconteceu. Mas, por outro lado, muitas empresas tradicionais também se foram: Braniff, PAN AM, TWA, Western, Eastern, Continental...

Boeing 747-100 at London Gatwick Airport in 1981

Tem acompanhado a situação político-econômica do Brasil?
Sim, tenho acompanhado a situação política no Brasil, espero que com este governo novo as coisas comecem a se ajustar.

Presumo que nem tenha mais documento de identificação brasileiro...
Tenho sim, ainda tenho todos os documentos brasileiros, pois sou aposentado no Brasil pelo INSS. Por isto tenho que mantê-los.

Pensa regressar ao Brasil um dia?
Voltar um dia para o Brasil é uma miragem. Pois com a situação do meu filho Patrick é impossível, visto que ele não pode mais fazer uma viagem tão grande.

Para a minha esposa eu às vezes comento que quando o Patrick se for a minha missão nos EUA acaba, mas ela me diz que não tem mais vontade de voltar.

Marisa e Gilvan Pinheiro, Natal 2018

Quer dizer estou entre a cruz e a espada. Se, por acaso, voltasse seria para ir morar lá pelo Rio Grande do Norte onde o sol é praticamente 360 dias por ano. Ou se a situação do Rio de Janeiro questão violência melhorasse muito.

Na famosa Rodeo Drive, Beverly Hills, Los Angeles
Ou talvez voltar para Portugal que também gosto muito.

Tem outros filhos além de Patrick?
Sim, meu filho mais novo tem 35 anos, ainda mora na casa do papai. Igual na Itália. Seu nome é Konrad Pinheiro [foto]. Aliás, em 2016 ele foi comigo a uma viagem pela Alemanha, Espanha, Portugal e França.


Como você vê e percebe a presidência de Donald Trump?
A minha resposta é NÃO SOU REPUBLICANO, uma mer... caso você queira completar.

Compreendo. É californiano que (até) rima com republicano... 😊
Aí, vai trazer a faixa, pessoalmente, para o 4º Encontro Europeu de ex-Trabalhadores da Varig, Familiares e Amigos?
A faixa está pronta dentro da caixa, se tudo der certo estarei aí para te ajudar abrir a faixa.



A derradeira mensagem:
De onde saí, o que eu já fiz e onde estou, posso me considerar uma pessoa de sorte. Único arrependimento foi não ter escutado a minha mãe, que dizia “vai estudar e ser um doutor em alguma coisa” (mas eu não escutei).


Mas me considero um doutor pela vida. Até o momento todos os sonhos que eu tive foram realizados de uma maneira ou de outra. A vida é bela, viva a vida!

Muito obrigado, Gilvan!

Conversas anteriores:
Ada Ciolac: “O passado foi lindo, mas passou. O futuro é promissor, mas ainda não chegou. Viva o presente.”

2 comentários:

  1. Muito bom Jim Pereira. Obrigado pela oportunidade de desabafar/conversar um pouco. Grande abraco.

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  2. Uma trajetória de vida com muitos altos e baixos ; parece que tem mais altos , felizmente! Gilvan é um grande lutador, e encara de frente situações próximas que deixariam muitos desanimados e consternados. Desejamos boa sorte para o Gilvan, tendo sempre em mente que o Grande Criador Arquiteto do Universo, o Altíssimo, não abandona ninguém!

    Grande abraço.

    Sidnei Oliveira
    Assistido Varig / Aerus RJ

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