sábado, 9 de fevereiro de 2019

O cristianismo e o islã tratados desigualmente

Denis Tillinac

O proselitismo do Islã traz problema, não o do cristianismo, já desaparecido. No entanto, é a islamofobia que é denunciada. Dois pesos, duas medidas injustificadas.

Numa recente capa de Charlie Hebdo, vê-se um papa e um imã apagando uma vela. Mensagem muito clara: a vela significa as Luzes apagadas em partes iguais pelo cristianismo e o islã. Este paralelo ofende a razão tão cara a Voltaire, ocultando grosseiramente a realidade. O terrorismo sob caução islamita arma assassinos em todas as latitudes, e os caricaturistas do Charlie Hebdo pagaram com sangue para o saber. Estão eles sofrendo amnésia? Nenhum terrorista cristão é visto em nenhum lugar e, graças ao Céu, o clericalismo pesado e antigo tem poucos adeptos na França. Mesmo no meio dos (raros) integralistas católicos, que não ameaçam ninguém. Portanto, é preciso uma overdose de má fé para colocar em pé de igualdade uma confissão que causa graves problemas de concórdia civil em nossas sociedades ocidentais secularizadas e o cristianismo que não pretende obrigar ninguém a seguir os seus preceitos.

Cada um é livre de repudiar a fé em um Deus transcendente, seu impacto sobre as formas de pensar o mundo e de o viver. Caucionado pelo princípio de laicidade, o direito de expressar alto e forte seu agnosticismo ou seu ateísmo não é contestado por nenhum clérigo católico, protestante ou judaico. Mas é, como é bem evidente, pela franja radicalizada do islão. Os ultras do racionalismo têm o direito de acreditar que uma consciência “emancipada” de todo o comércio com o divino acede à liberdade e predispõe à tolerância. Lembraremos que dois dos maiores assassinos em série do século XX, Lenine e Hitler, impuseram o dogma do ateísmo, proscreveram os cultos e perseguiram os crentes.

Mas voltemos ao paralelo da redação do Charlie Hebdo cuja impertinência não pode ignorar. Aproximemo-los do discurso ambiente que denuncia a “islamofobia” e, portanto, deveria indispor todo o anti-clero consequente. Porque enfim, pela bitola da lógica deles, temos o direito de não amar o islã como não amar o cristianismo, liberdade de pensamento e expressão obrigam.

Ora, se a mídia e os políticos não param de nos apresentar a islamofobia como um atentado à moral, ninguém denuncia a cristianofobia que incita ao assassinato dos “cruzados” no mundo e no nosso país. O álibi desse silêncio pesado de culpabilidade masoquista, é a reprovação anacrônica de uma aventura colonial sofrida por populações muçulmanas. Disfarça a verdadeira razão: um medo que tetaniza.

Atacar a Igreja (católica) não comporta nenhum risco e quando as feministas FEMEN destroem um local de culto, concedem-lhes indulgências plenas. Mas elas estariam em maus lençóis se elas ousassem profanar uma mesquita; é por isso que elas se abstêm de o fazer. Charlie Hebdo pode, impunemente, ridicularizar Jesus, a Virgem Maria, o Papa, os padres, e nunca se privou de o fazer. Mas suas sátiras não gozam da mesma impunidade quando ironizam Alá e os seus fiéis.

Não existe pior pecado contra o espírito, escreveu Jean Rostand, que o de dar má consciência àquele que diz a verdade. Afogar o medo (legítimo) do islamismo numa mesma massa anticlerical demonstra uma grave renúncia a pensar/expressar. Que se soma aos sintomas de confusão mental que prometem uma era de barbárie. Nada de mais pernicioso do que a negação da realidade por sectarismo ou por incapacidade de descodificar o mal por trás da neblina de fantasmas ou de ideias preconcebidas. Nada mais perigoso para a liberdade do homem, e para a sua dignidade, que a cultura da troça sem discernimento. Quando vale tudo e tudo se vale, nada mais vale, e o homem privado de farol e de bússola cambaleia como cego na beira de um precipício.
Título e Texto: Denis Tillinac, Valeurs Actuelles, nº 4288, de 31 de janeiro a 6 de fevereiro de 2019
Tradução e Digitação: JP, 9-2-2019

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