sexta-feira, 17 de abril de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Causa & Efeito

Aparecido Raimundo de Souza

SE VIVÊSSEMOS NUM PAÍS de pessoas que gostassem de ler, se a massa cada vez maior e mais compacta da arraia-miúda levasse a sério o que temos de melhor na literatura, não só na literatura nacional, como igualmente na literatura estrangeira, iríamos sugerir dois livros interessantes: o primeiro, a A Besta Humana, de Émile Zola; e o segundo, A Peste, de Albert Camus.

No primeiro, o povo sofrido ficaria sabendo, logo nos primeiros capítulos, que somos ou não passamos de “bandos de paus-mandados”, ou “bestas-feras”, sistematicamente organizados e revestidos nas carcaças dos mais variados quadrúpedes existentes, aos milhares e aos milhões, espalhados como animais nas mais seletas pastagens país a fora. A turba entenderia, também, que a nossa missão, no geral, se constitui numa só incumbência.

E qual seria ela? “Servir. Amparar, com lealdade, os manda-chuvas e senhores que sobrevivem usando o vigor e a energia do Poder e, em nome dele, nos compelindo a sermos transformados em cavalos-operários, destinados, unicamente, à logística do trabalho escravo, ou seja, à mão de obra mais infame e violenta, em vista das piores e mais pesadas cargas inumanas, aplicadas às forças e faculdades reprováveis e cruéis, ou que, ao menos, achávamos ter pleno conhecimento que existissem”.

No segundo, A Peste, de Albert Camus, os caraminguados refletiriam com mais acuidade sobre os estágios psicológicos e práticos “que vão da negação da pandemia à dificuldade de contar os atingidos”. Saberiam que as pestilências marcam a nossa história há mais de 2 mil anos, e que o primeiro relato desses fenômenos foi trazido à baila por Tucídides.

Quem é ou quem foi Tucídides?  Um importante historiador que, em seus compêndios, notadamene no La guerra del Peloponneso, asseverava que no seu tempo (460-395 a.C.) “havia se difundido na Etiópia uma desgraça nos moldes de uma peste diferente, todavia mortal, que se alastrara pelo Egito e Líbia, até atingir o mundo grego”.

Pasmem, senhoras e senhores, com as mesmas características do covid-19! Simples, claro e prático. Pelas contas, lendo Zola e Camus, nos quedaríamos, estarrecidos, ao concluirmos, juntamente com Hans-Peter Martin e Harald Schumann, no livro Armadilha da Globalização, muitos e muitos anos depois, “que o mundo moderno e internacionalizado se move em derredor de uma gigantesca máquina que não pode parar, e, em razão desse detalhe, nossa finalidade única é não permitir que ela, a engrenagem, emperre”.

Se ela sofrer qualquer avaria, os Poderosos de colarinho branco cairiam de seus pedestais. E, tal fato, amados leitores, se olharmos pela ótica do que acontece hoje, bem sabemos, essa reviravolta não poderá, de forma alguma, ocorrer. Necessitamos pôr na cabeça que temos o fadário de sermos burros de carga, bestas-feras. E continuamos a privilegiar a soberba dos que nos metem as esporas. Eles não podem, em hipótese alguma, deixar de crescer.

Para que isso nunca ocorra, os Maiorais precisam nos manter sob fortes chicotadas no lombo, em centros de confinamentos parecidos com os de Manzanar, na Califórnia; e Auschwitz-Birkenau, na Alemanha, ambos aqui citados apenas como títulos ilustrativos. Em dias atuais, vivemos nesses campos; entretanto, com nomes mais afrescalhados e bonitos, patronímicos que não chamam muito a atenção: QUARENTENA, ISOLAMENTO SOCIAL, ou DISTANCIAMENTO FORÇADO, RESTRIÇÃO DE CIRCULAÇÃO.

Essas coartações, sejam advindas do governador, do presidente ou da puta que os pariu, não importa. Perguntarão os senhores: o que difere essa merda dos campos nazistas dos tempos medievais? A bem da verdade, nada! Ou melhor, só as mortes. Como assim, as mortes?! Nos campos de concentração, escreveu Robert D. Kaplan, em A Anarquia vindoura, “se matava para os governantes se livrarem dos comunistas e dos social-democratas”. Resumindo: se despachava o sujeito para a casa do cacete, os deficientes físicos e mentais, e por fim, os judeus.

Aqui, caros leitores, os hospitais matam ou exterminam para aumentarem as estatítiscas, fazer política suja, eleger um parasita qualquer ao PODER. Percebam, e nunca se esqueçam: tudo rodopia em torno da ganância, do dinheiro fácil, das tretas e mutretas, grosso modo, do PODER. Todo mundo quer se dar bem na vida, sem fazer força. E à custa de quem?

À custa dos trouxas, dos manés, das marinas farofeiras, das alices desmilinguidas que se vendem, que se humilham, que se prostituem, e, pior, VOTAM. Retornando à história da leitura dos livros acima — ou dos outros igualmente citados —, existe aos borbotões uma infinidade para serem baixados e manuseados sem precisar meter a mão no bolso. A leitura, prezados, leva ao conhecimento, ajuda a espantar a imbecilidade, a afugentar a cegueira, a escorraçar a morrinha que está grudada em nós.

É por meio dela, a leitura, que abriremos a mente e as portas. A interpretação de bons textos faz o ser humano escancarar a cabeça, arreganhar os horizontes, matutar positivo, olhar para a frente. Quem não se aprimora, não tem futuro. Quem não folheia um livro, estará guindado a ser um daqueles onagros da Somália. E pior: tomará ferro nos fundilhos. Ferro em brasa, vindo dos Gananciosos, dos Poderosos, dos “Senhores Feudais”, dos Coronéis, e “o pior”: a trolha permanecerá enfiada no caneco, até que a morte os separe.

“Um país se faz com homens e livros, dizia Monteiro Lobato” do alto da sua santa cultura. E Rui Barbosa não ficou atrás. Mandou ver: ensinou que “a miopia intelectual é a mais constante geradora do egoísmo”. Dois caminhos aqui se abrem e se bifurcam. Escolham de qual ângulo os senhores querem ficar: da banda da intelectualidade, ou da ala negra do apego excessivo a si mesmos?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, Espírito Santo, 17-4-2020

IN MEMORIAN: Ofereço Causa & Efeito ao meu amigo, o escritor  Rubem Fonseca, falecido quarta-feira, 15 de abril p.p. Dele guardo boas recordações que ficarão carinhosamente escondidas dentro de  A Coleira do cão, livro que me presenteou autografado em nosso último encontro em sua casa, no Leblon, no Rio de Janeiro.  Rubem,  descanse em paz. Saudades para sempre.  

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