quinta-feira, 14 de maio de 2020

Grandeza e decadência do mundialismo

Olivier Piacentini é ensaísta. Ele mostra aqui como a ideologia mundialista se impôs à mundialização graças ao encontro entre os valores consumeristas e os da contracultura dos anos 60


A mundialização, tão contestada já desde alguns anos, não é nem uma ideologia nem um modo de governança. Desde 1945, a melhoria considerável dos meios de transporte e de comunicação encurtou as distâncias.

Tal evolução tecnológica não poderia deixar de causar efeitos na geopolítica mundial. Depois de sair de duas guerras mundiais, todas as nações querem evitar uma nova carnificina que pressentem fatal depois de Hiroshima.

As trocas comerciais vão ligar as nações entre elas, assegurar a paz universal. Longe de ser uma ideia nova: Monsenhor de Boisguelin já a evocava no século XVIII. É a doutrina do mundialismo que pressiona o terreno da mundialização. Mas o mundo do pós-guerra não pode aderir de todo: a guerra fria divide o mundo em dois blocos herméticos e hostis, que impedem as trocas como o universalismo político.

O mundialismo prega uma governança mundial e atribui à área econômica a missão de contribuir com a aproximação dos povos. Uma governança que troca de paradigma, doravante baseada na economia e na regulação internacional e não mais nas relações de força entre as nações.

No Ocidente, o mundialismo avança durante todo o período do pós-guerra. As trocas internacionais explodem e a governança dos países enfatiza a economia e o social. As multinacionais ganham potência, se impõem imperceptivelmente perante os Estados. Sobretudo, as suas aspirações por um mundo mais aberto, mais adaptado às trocas de mercadorias, de capitais, de tecnologias, às migrações, vão cruzar com a geração em ascensão, os famosos “baby-boomers”.

Durante os anos 1960, a juventude dos países ricos chacoalha as sociedades tradicionais. Numerosa, instruída, criada num conforto de vida, uma liberdade e uma prosperidade sem precedentes na história, esta geração de crianças mimadas vai rejeitar os pilares de nossa civilização: ordem, autoridade, trabalho, nação, Igreja, família, forças armadas... Apoiando-se em teorias existencialistas e estruturalistas em voga, ele recusa a transmissão das gerações precedentes, julgadas culpadas pelas guerras, o colonialismo, o escravagismo, o Holocausto... Ela sonha num mundo melhor, onde cada um viveria sem tabu nem conformismo moral, social ou sexual, uma vida centrada na busca da felicidade, na realização pessoal.

Jean-Paul Sartre (de óculos) e Michel Foucault (com o megafone), em Paris, nas manifestações de maio de 1968
O “boomer” quer viver como se estivesse escrevendo a sua história numa página em branco, para citar a fórmula de Sartre. A contracultura, dos Michel Foucault, Gilles Deleuze, Karl Popper, casa muito bem com este ideal de desconstrução dos quadros civilizacionais julgados opressivos e liberticidas.

Um mundo novo, aberto, tolerante, sem prejulgamentos nem interdições, eis o que queriam os jovens dessa época. Exatamente o mesmo que as multinacionais também querem: um mundo onde tudo e todos circulem livremente sem fronteiras, sem taxas, sem regulamentações nacionais... O homem novo torna-se um consumidor compulsivo, que satisfaz o ego através das marcas mundialmente conhecidas. Elas arrecadam os juros que elas reciclam numa especulação gigantesca inchada pela desregulamentação financeira dos anos 1980 e prendem pouco a pouco os Estados na armadilha da dívida.

Um mundo regulado seguindo as normas democráticas e consumeristas

A queda do muro de Berlin chegou. A mundialização financeira e comercial ia enfim poder se implantar profusamente. O Ocidente não tem mais inimigo, o mundialismo sai da semi clandestinidade com o seu primeiro teórico para o grande público, Francis Fukuyama: o fim da história e o último homem anuncia um mundo globalizado, regulado pelas normas ocidentais democráticas e consumeristas, de onde emergiria um homem focado no seu bem-estar e no seu lazer.

O Ocidente pensa que venceu. Mas o mundialismo triunfante vai se voltar contra ele. Para harmonizar o mundo, convida-se as nações ocidentais muito ricas a dividir as suas prosperidades com outros. Julgam-nas com instintos dominadores e belicistas, vão procurar enfraquecê-las. Isto prolonga o ideal obsessivo terceiro-mundista da contracultura tornada dominante.

Desde o fim da guerra fria, abate-se o essencial das barreiras alfandegárias durante a Rodada Uruguai, ciclo de negociações cujo preâmbulo evocava a “preferência pelas economias do terceiro mundo”, que culminou com a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e incorporação do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (conhecido como GATT) em sua estrutura, entre outros acordos.

As multinacionais deslocalizam-se para os países emergentes: o egotismo dos Ocidentais, efetivamente bons consumidores, mas para produzir, os Asiáticos são bem mais servis e mais baratos... Os produtos fabricados fora do país a baixo custo inundam os mercados ocidentais.

Propagandeado como um compromisso “ganha-ganha” (deixa-se para os países pobres as atividades poluentes e penosas e se vende a eles lazer, luxo, tecnologias), tudo isto se revelou um desastre para os países ocidentais, pão abençoado para as multinacionais. E tornou os Estados mais viciados em dívida, concluindo a transferência do poder real para a esfera financeira.

Presas na armadilha, as potências ocidentais enfraquecidas aceitam, a bem ou a mal, de se dissolverem cada vez mais numa governança supranacional.

A União Europeia desliza em direção ao federalismo, pilotada por uma Comissão de tecnocratas não eleitos, que determinam diretivas aos parlamentos nacionais. Moeda, política orçamental, todos os atributos das nações se evaporam, ou passam para o controle de Bruxelas.

Um aglomerado de jurisdições internacionais (CIJ, TPI, CDH da ONU, CJUE, CEDH...) desativa pouco a pouco os direitos nacionais, os esmaga num manancial jurídico: Jacques Krynen se referiu ao governo dos juízes.

O lobby intenso que atua em Bruxelas e nas instâncias supranacionais, abrigado de olhares indiscretos e dos eleitorados, coloca a política mundial ao serviço dos bancos e das multinacionais.

São estas que influem por debaixo dos panos nas grandes decisões. A prova se deu por ocasião da crise de 2008, quando o mundo esperou em vão uma verdadeira regulação da esfera financeira.

Doravante, têm dois objetivos no visor: a dissolução das nações num governo mundial inteiramente à sua mercê; surgimento de um homem novo, que dei o nome de “homo globalus”.

Um homem desprovido das suas raízes, sua cultura, suas tradições, centrado nos seus prazeres e desejos, sob total influência da subcultura mercantil, marcas, fast-food, séries televisivas, videojogos, rap, techno, blockbusters etc. Enfim, tudo o que as multinacionais vendem...

Estas duas etapas concluídas, a super classe mundial disporá então de um poder universal e absoluto, que os avanços transumanistas consolidarão.


A menos que depois da ascensão dos populismos, a crise do coronavírus e as suas consequências, as populações   abram enfim os olhos e modifiquem o curso da história...
Título e Texto: Olivier Piacentini, Valeurs Actuelles, nº 4353, de 30 de abril a 6 de maio de 2020.
Tradução: JP, 14-5-2020

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