Carina Bratt
A NOSSA VIDA cotidiana, com a sua tendência de desenhar o futuro com as cores as mais variadas, de um passado, muitas vezes um ‘ontem’ ainda recente, nos presenteia com lembranças que se entrelaçam no tempo. Em meio a uma dessas alfombras, destacaria um par de memórias que persistem até hoje, como marcas de um amor bonito, que se foi para sempre. A primeira, dá conta de um passeio pelas areias da praia da Avenida Atlântica, em Copacabana, ao tempo em que um final de tarde se engrandecia de cores as mais variadas. O sol, em seu derradeiro ato de esplendor, mergulhava, lá longe, no horizonte, como um artista que se despede de seu público. Tudo tingia o céu em tons inesquecíveis. Caminhávamos, eu e o meu amor, lado a lado, os pés na areia fria e molhada, enquanto o vento brincava com nossos cabelos.
Conversávamos sobre sonhos e medos, e um futuro incerto que, naqueles momentos, parecia repleto de possibilidades. As ondas, suaves e ritmadas, se faziam testemunhas silenciosas da nossa cumplicidade. A sensação de estar imerso naquele instante, nada mais que a plenitude, como se o tempo (o nosso tempo) tivesse decidido estancar para nos deixar aproveitar a perfeição de cada segundo. A outra lembrança, me remonta para uma noite enfeitada por um manto de estrelas que iluminava o firmamento claro e profundo. Estávamos deitados na rede da minha varanda enorme, encolhidos embaixo de um cobertor que cheirava a vinho gelado e uma porção de queijos fatiados. O Cristo do Corcovado, iluminado, parecia nos abraçar. A Borges de Medeiros gritava socorro para a Lagoa Rodrigo de Freitas, em vista dos carros que passavam buzinado num alarido incontrolável.
Conversávamos em sussurros, nosso calor corporal se misturando ao calor do ambiente. Havia uma espécie de serenidade naquele momento, tipo uma intimidade que parecia transcender as palavras. As conversas se tornavam confissões, sonhos e esperanças sussurradas aos calcanhares de nossos escutadores de novelas. O mundo exterior desaparecia, e o espaço entre nós se tornava um refúgio acolhedor e seguro. O amor, assim como essas lembranças, é efêmero e, muitas vezes não, ou seja, difícil de manter. O passeio à beira-mar e à noite, na varanda do meu apê apenas capítulos de uma história de amor (de amor?!) que inevitavelmente nem aconteceu, e, da mesma forma, se encerraria num minuto de um seguindo que marquei como ‘estranho.’






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