quarta-feira, 22 de abril de 2015

É grave – muito grave – a crise

Cesar Maia

1. Se olharmos com lupa, as crises políticas de âmbito nacional, desde a proclamação da República, a atual de 2015 é uma das seis mais graves, (Revolta da Marinha, Tenentismo, Revolução de 30, Suicídio de Getúlio, Ruptura de 64, Crise de 2015). A gravidade dessas crises destaca a diluição da autoridade e a imprevisibilidade, E quase todas ocorreram num ambiente econômico em deterioração, seja como causa ou como efeito.

2. Numa nota na semana passada, ressaltei a dinâmica da crise europeia atual, com as razões econômicas se transformando em políticas e estas deixando de ser efeito e passando a ser causas dos desdobramentos econômicos. E novas forças políticas heterodoxas pela esquerda e pela direita emergiram em países como França, Itália, Espanha, Grécia, Reino Unido…

3. A implosão do núcleo de poder tem sido uma constante nesses casos. Semana passada Lula – abertamente – disse que Dilma deveria vetar in limine a lei das terceirizações se aprovada. Situações como essa são tratadas e decididas nos bastidores, quando se trata dos principais líderes políticos do e no governo. A declaração de Lula produziu dois efeitos: um, colocar Dilma numa sinuca de bico; outra,  de estimular ainda mais o confronto entre Dilma e o Congresso. Lula entre a superação da crise e a CUT optou pela CUT, uma regressão ao momentum autoritário e a origem de sua ascensão, sinal que sabe de seu desgaste e quer jogar Dilma aos leões. O colunista Noblat, num vazamento da reunião de Lula, Dilma e outros de confiança, afirmou entre aspas que Lula teria dito que seu maior erro foi eleger Dilma.

4. O ajuste fiscal que estava caminhando para um acordo entre o ministro Levy e os blocos de Eduardo Cunha e Renan voltou a estaca zero. Com um feriadão pela frente, vai entrar em maio sem solução. E Eduardo Cunha – defensor da lei das terceirizações – saberá jogar com isso.

5. As manifestações de ruas – 15 de março e 12 de abril – mostraram indignação com a situação atual. Os líderes políticos e sociais, não se arriscaram a mostrar a cara, pois eles são parte da indignação. E dessa vez, os caras-pintadas, tem mais de 50 anos como mostrou o Data-Folha.

6. O PT vibrou com o depoimento de João Vaccari na CPI. Fez projeções professorais, distribuiu responsabilidades com o PSDB, e saiu convencido do sucesso. Dias depois Vaccari foi preso. Conclusão: mentiu e prestou falso testemunho. Dilma que voltava serelepe da reunião dos presidentes das Américas no Panamá, sequer reagiu, isolando-se, numa demonstração de perplexidade.

7. A decisão do TCU – que considerou as manobras fiscais realizadas pelo Tesouro com o dinheiro dos bancos públicos federais como crime de responsabilidade – radicalizou setores da oposição. Na sexta-feira, (17), o ministro da Justiça, o advogado geral da União e o procurador do Banco central, convocaram uma coletiva de imprensa, onde afirmaram que isso se faz desde 2001. Com isso Lula foi chamado para o ring, além de FHC. Argumento, como se o crime atual fosse perdoado pelos crimes anteriores. E sequer levaram um documento para demonstrar. Aliás, esse jogo de descumprir a lei de orçamento em alguns meses e corrigir nos meses seguintes, quase custou o mandato à prefeita Luiza Erundina.

8. E o Lava-Jato avança.

9. É um impasse geral, onde não se vê luz no fim do túnel, onde não há lideranças com autoridade negociadora, onde a oposição inverteu a estratégia em relação ao mensalão, onde o governo não tem mais base parlamentar, onde seu partido sai do governo para os sindicatos, onde a oposição só tem expressão retórica, onde não há uma República do Galeão, onde as redes sociais não têm foco. Aliás há um foco unificador das ruas e das oposições: Fora PT e Fora Dilma, que agrava e não supera a crise política.
Título e Texto: Cesar Maia, 22-4-2015

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