quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O impeachment e o faz-de-conta da esquerda

“Basta que se diga isso: o PT recorre a uma Constituição que desprezou – de novo, igualzinho a uma criança contrariada: porque o texto final não ficou como seus integrantes queriam.”

Thiago Pacheco

Desde que o processo de impedimento de Dilma Roussef foi desencadeado, apenas a realização das Olimpíadas conseguiu desviar a atenção do país para a amenidade das competições esportivas, as gritantes inadequações do Rio de Janeiro para receber o evento e as indiscrições de alguns atletas. Com o fim dos jogos, voltamos à programação normal, que se arrasta há meses. É compreensível, natural – e até uma mostra de mentalidade sã, mesmo – que se comece a perder a paciência com a interminável discussão. Não tanto pelo tempo gasto sem um desfecho, mas, sobretudo pelas delirantes teses de defesa invocadas pela presidente afastada e por seus correligionários e “linhas auxiliares” em geral.

Graças a Olavo de Carvalho sabemos hoje o que é o Foro de São Paulo e como a esquerda pensa “estrategicamente” em se perpetuar no poder. Sabemos também como as idéias de Antonio Gramsci influenciaram a criação de uma espécie de “totalitarismo 2.0”, a idéia de “hegemonia” defendida pelo revolucionário italiano que, ao fim e ao cabo, tem por objetivo escravizar toda a sociedade à ideologia socialista. Isso explica o primeiro aspecto do problema, que é o fato de a esquerda ter cerrado fileiras com Dilma e o PT – não por alguma virtude da presidente afastada e não apenas para manter sinecuras e boquinhas, mas “pela causa”. Não é o caso de honrar uma coligação eleitoral – mas quase “espiritual”, uma unidade de propósitos em que filiações partidárias se tornam mera formalidade. E não se envolvem nisso apenas mandatários e protagonistas da política partidária: seguindo os ditames gramscistas, segundo os quais o socialismo deve permear todas as atividades do homem, do mais simplório e bruto professor universitário ao jornalista lotado em alguma redação da “grande mídia”, toda a esquerda militante se uniu para construir a “narrativa” do golpe – ou “golpe legislativo”, como Dilma está repetindo incessantemente em sua ouvida no Senado.

A “narrativa do golpe” causa irritação nas pessoas normais não apenas pela negação histérica da realidade – mas pela argumentação infantil, típica de briga no recreio da 3ª série. Crianças, ainda com a capacidade argumentativa pouco desenvolvida, muitas vezes se revoltam com alguma circunstância adversa: perder no bafo ou na bolinha de gude, por exemplo. Uma criança de tenra idade ainda não aprendeu a perder, mas já sabe, mais ou menos, como fugir da derrota: ela chora, grita, pega a bola e vai embora do campinho. Ela não sabe perder não porque seja necessariamente mau-caráter, mas porque, em sua inocência, não concebe que isso possa acontecer. Com a esquerda acontece algo parecido: se você assistiu por meia hora que seja a sessão do impeachment realizada na segunda-feira, viu Dilma Roussef dizer que “não aceita” a acusação que lhe foi feita, insistindo que o procedimento de longos meses e amplíssima defesa não é nada além de um “golpe parlamentar”. Os motivos para isso, segundo ela, variam: ora o crime de responsabilidade não estaria provado, ora não teria havido “dôlo” em sua eventual prática; ora porque Eduardo Cunha seria responsável por um “pecado original” que viciaria o processo em seu nascedouro, ora porque se estaria “desrespeitando a constituição” ao questionar as práticas fiscais heterodoxas de seu governo. Quando o TCU demonstrou a prática de condutas que constituem crime de responsabilidade, o problema passou a ser o auditor responsável por apurá-las – ele não seria “imparcial” o suficiente. E por aí vai.

É claro que seria ingenuidade esperar que Dilma não se defendesse e simplesmente acedesse às acusações. No entanto, quando ela disse que o que estava em julgamento hoje era “a democracia”- e não as erráticas manobras fiscais de seu governo – a criança contrariada do recreio fez um pouco mais do que chorar e espernear. Seria o equivalente a colocar tachinhas nas cadeiras de todos os coleguinhas e culpar o diretor da escola. O subtexto da defesa de Dilma não é o exercício do contraditório e da ampla defesa: é pura intenção totalitária. Flagradas as práticas inconstitucionais, restou à esquerda a grita de que o processo “viola a constituição”. Curiosamente, Dilma insiste no cumprimento da Constituição que o PT não assinou – o que em nada tira a vigência de seu texto, é claro, mas não deixa de ser notável: é mais do que pura e simples hipocrisia, é fingimento histérico. O que Dilma, o PT, seus aliados, auxiliares e os idiotas úteis que se põem a serviço da causa querem dizer é o seguinte: “podemos até nos legitimar pelas urnas e com o uso de regras, mas elas não são sempre aplicáveis a nós”. Há aqui uma armadilha: nem o mais aguerrido esquerdista diria, em público e à luz do dia, desprezar toda e qualquer regra: afinal, ele se vale de um processo eletivo legítimo e legal para chegar ao poder e, mais importante, tentar argumentar que, por isso, não pode haver impedimento. O que ele não aceita, portanto, é ser tirado de lá, ainda que seja também por um processo legítimo e legal. Seu apreço pelas regras e leis vai só até o momento em que elas sirvam para justificar sua manutenção no poder. Quando as regras ameaçam seu projeto, já não tem tanta importância: “aí gritamos golpe”. Alguns dos mais ativos idiotas úteis das redes sociais têm questionado: “mas que ‘projeto totalitário’ é esse que está sendo submetido ao processo previsto na constituição”? A cegueira ideológica somada a uma impossibilidade lógica dá o resultado: disfarça de “defesa da democracia” a luta pela continuidade de um projeto de poder hegemônico. E dentro de tal idéia de hegemonia, alguma concessão a outros ditames deve ser fingida. Um mínimo de legitimidade deve ser simulado: é dentro dessas balizas que surge a “narrativa do golpe”.

Basta que se diga isso: o PT recorre a uma Constituição que desprezou – de novo, igualzinho a uma criança contrariada: porque o texto final não ficou como seus integrantes queriam. Mas nem por isso se deve subestimar o esquerdista. Uma coisa é certa: eles sabem fazer uma limonada até com o mais amargo dos limões. As sessões do impeachment serão transformadas em um documentário, dirigido pela cineasta Anna Muylaert (seguimos aguardando o esquerdista Severino Cimento). Podemos esperar meses de exploração do “martírio” de Dilma, “denúncias” em órgãos internacionais e explosivas resenhas no Le Monde e na revista Piauí. Não deixa de ser engraçado que Dilma reclame tanto a aplicação de “regras do jogo” que seu partido não assinou: mas o seqüestro da realidade pela esquerda, com a distorção do significado elementar das palavras para criar uma “narrativa” não é. No longo prazo, o resultado disso é a “novilíngua” orwelliana, a sociedade ultratotalitária e sufocante em que a realidade é tornada em mero detalhe, e a sociedade em uma turba de escravos do Grande Irmão.
Título e Texto: Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

2 comentários:

  1. Povo do Brasil uma coisa é certa a Carta Cidadã de 1988, com seu viés parlamentarista, permitiu que se fizesse uma CONTRAREVOLUÇÃO COM BASE CONSTITUCIONAL. Isto é bom.
    Aleluia, Aleluia. Parece-me que a CF/88 é realmente democrática, apesar das críticas de ser prolixa.
    Apesar dos políticos e simpatizantes da extrema esquerda se unirem "pela causa", a Constituição Federal os pegou, ajudada pela LRF, LDO, Lei nº 1.079/50, etc.
    Só resta ao stf, se provocado, inabilitar a Dilma para função pública por 8 (oito) anos, de acordo com literalidade, a intenção e a lógica do estabelecido no parágrafo único do art. 52 da C.F.
    ANTONIO AUGUSTO.

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  2. Antonio Augusto, é o que espero que façam!
    Espero uma posição da Exma. Min Carmen Lúcia! Vamos ver!
    Abs,
    Heitor Volkart

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