domingo, 5 de janeiro de 2020

O sr. Cabrita Reis e os verdadeiros artistas

Alberto Gonçalves

Achar que um produto é “arte” porque três patetas o dizem ou porque se encontra exposto na Tate Modern é uma confissão comovente de insegurança, de ignorância e de discutível equilíbrio mental.

Nasci em Matosinhos e vivi sempre em Matosinhos, nas últimas décadas perto das praias de Leça da Palmeira. Passo ali todos os dias e, apesar do farol da Boa Nova, de uma ETAR encantadora e da ocasional cabeça decepada, tinha a sensação permanente de que a paisagem estava incompleta. Faltava, parecia-me, uma obra escultórica arrojada, talvez umas ferragens pintadas de branco e pousadas verticalmente no passeio, alinhadas de modo a que, se cerrássemos muito os olhos ou padecêssemos de uma miopia próxima da cegueira, julgaríamos estar em Manhattan. Já não falta.

Atenta, a câmara local encomendou, por justificável ajuste direto, a obra em causa ao celebrado artista Pedro Cabrita Reis. O sr. Cabrita Reis, vulto anafado que costuma depositar tralha por vários chãos e que teve exposições chamadas “Um Olhar Inquieto” e “Da Luz e do Espaço” (juro), aceitou a encomenda. Melhor ainda, fê-lo a título praticamente gratuito, cobrando apenas o valor simbólico de 300 mil euros, fora 50 mil pelo transporte e instalação. E a câmara, leia-se o munícipe a quem a câmara simpaticamente confisca rendimentos, pagou. Como tudo isto se rege pela absoluta legalidade, não pagou ao sr. Cabrita Reis, mas à Armazém 10, empresa detida pelo sr. Cabrita Reis, por familiares do sr. Cabrita Reis, pelo comentador televisivo António Lobo Xavier e por mais uns portentos avulsos. Em meados de dezembro, foi inaugurada a “Linha de Mar”, o belíssimo nome das ferragens descarregadas em Leça. Nos finais de dezembro, a “Linha de Mar” foi vandalizada.


Pela calada da noite (ou do dia, não sei), indivíduos sem escrúpulos nem sensibilidade pintaram nas ferragens as palavras “vergonha”, “os nossos impostos”, “política de merda” e “300 mil euros”. Domingo último, o país acordou chocado, metade pelo ato delinquente, metade pelos preços que os serralheiros praticam hoje em dia. A autarca local, que sinceramente não sei quem é, assinou no Facebook um texto em que defende a “responsabilidade do Estado” no “acesso da classe média e baixa” [sic] à “cultura”. O sr. Cabrita Reis, homem de esquerda, fez uma pausa na contagem das notas subtraídas à ralé para afirmar ao “Público” que o ataque ao “conjunto escultórico” é uma “manifestação provocatória de arruaceiros de extrema-direita”. Certo é que o incidente popularizou a peça e, num ápice, instalou-se a tradicional discussão sobre arte contemporânea, que opõe os filisteus que não a compreendem aos que temem ser tomados por filisteus e fingem compreendê-la.

Com jeito, algum destes complexados terá lembrado que a “Sagração da Primavera” inspirou motins em Paris – argumento que permite equiparar a Stravinsky o incontinente que baixa as calças no meio do Museu Berardo. Dado não sofrer dessas maleitas, não me meto na discussão.

É evidente que o sr. Cabrita Reis só é artista na medida em que ele se declara assim e em que existe um “meio” de oportunistas, compinchas ou pasmados que lhe corrobora a opinião. E é evidente que o sr. Cabrita Reis é um mero exemplo entre muitos “artistas” que despejam quinquilharia na praia de Leça, nas rotundas do nosso belo país e nos museus especializados deste mundo.

Achar que um produto é “arte” porque três patetas o dizem ou porque se encontra exposto na Tate Modern é uma confissão comovente de insegurança, de ignorância e, no limite, de discutível equilíbrio mental.

Exceto para os ociosos, o “debate” sobre a fraude deliberada a que se resume boa parte da arte contemporânea terminou em 1961, quando o italiano Piero Manzoni encheu 90 latas alegadamente com os próprios excrementos a título “conceptual” (ainda há latas, ao que parece cheias de gesso, no MOMA, no Pompidou e, claro, na Tate). Para os crédulos terminais, a trafulhice deveria ter terminado com Pierre Brassau. Brassau era um pintor da escola do expressionismo abstrato, que em 1964 expôs numa galeria de Gotemburgo sob o entusiasmo da generalidade dos críticos. Sucede que Brassau era o pseudônimo de um chimpanzé chamado Peter, e o protagonista de um embuste perpetrado, e depois revelado, por um jornalista sueco. Apanhados em flagrante, os críticos assobiaram para o lado e prosseguiram as carreiras a exaltar novos génios da criatividade.

Não quero sugerir que as pinturas de Brassau são comparáveis à “Linha de Mar” do sr. Cabrita Reis: o chimpanzé tinha uns vestígios de talento e, pelo menos, esforçou-se. No caso do entulho de Leça da Palmeira ninguém se esforçou e ninguém disfarçou a real natureza do exercício. O exercício entra pelos olhos dentro, tão grotesco quanto as ferragens do sr. Cabrita Reis. Para evitar tribunais e maçadas afins, não vou elaborar. Não é preciso. Qualquer um percebe o que aconteceu ali, e percebe que o que aconteceu ali é o mesmo que acontece regularmente em inúmeros cantinhos de Portugal. O episódio representa a essência do celebrado “poder local”.

E o “poder local”, talvez com ressalvas que desconheço, é isto, um pretexto para burgessos com manha viverem à custa de burgessos sem ela (a “classe média e baixa”) e de caminho alimentarem os partidos que inventam tais espécimes. O sr. Cabrita Reis e os seus pares estão longe de ser os únicos artistas desta história.

Entretanto, cumpre-me informar que, espantosamente para uma autarquia que demora anos a remendar um buraco na rua, os rabiscos nas ferragens foram limpos no dia seguinte. O lixo, porém, continua lá.
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Observador, 4-1-2020

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