terça-feira, 19 de maio de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Gênesis...

Aparecido Raimundo de Souza

PARA INÍCIO DE CONVERSA, apesar do que estava para acontecer, não houve clamores, nem brados nem protestos ou gritos. Nem um ruído sequer se sustentou na aragem que soprava amena vinda do infinito. Nada. Apenas a dor insuportável e intensamente aflitiva, fustigando numa extenção medonha imprimiu-se por  breve instante no néon dos olhos desdormidos.

A lua clara e transparente, num céu bonito e majestoso,  não ia além de um alfanje inacessível e, se não bastasse, uma cor de estrelas escorria pelas  paredes, fazia uma poça enorme no chão de terra batida e molhava o rosto que despencou, ao rítmo dos relâmpagos e trovões de onde antes estivera. Fez frio. Um frio tremendo, hórrido, insuportável e tétrico.

O vento não deixou por menos. Veio vindo, veio vindo, atravessou as paredes, portas, desvãos e corredores sombrios e penetrou, incontinente, até o sangue, nas testemunhas. Alguns dos pusilânimes e covardes se abarcaram aos outros e temeram vinganças divinas; outros mais desgraçados e infames, desembainharam as suas armas e, ainda assim, portavam mãos vazias, cheios de espanto e medo, estupor e assombro, porque este é o meu Filho, “que será dado por vós”.

O Que Antes Era Corpo, de onde a vida rastejou, impassível, para órbita não fecundada, jazia na cissura de astros quando um cheiro a jasmins varreu todo o âmbito e se pressentiu o Inexplimível. E o inefável, então se fez aterradoramente abissal.

O falecido – e nunca, em toda a sua inesistência tivera chance de não sê-lo -, o cadáver inerte se levantou ao terceiro dia e, apontando o dedo para a culpa delituosa de cada um, dedicou-nos suas veias abertas, suas chagas e feridas e a serena lucidez que agora, por direito, adquiria.

Se possuísse nome, casa, emprego, profissão, cpf, identidade,  título de eleitor e certificado de alistamento militar, poderia até não ter sido condenado, mas seu destino, de qualquer modo, não deixaria de ser o de acusado: desde sempre, todos os dias, fora açoitado,  Morto, esquartejado em sua realeza um pouco de cada vez.

Por temer a amplidão, tomaram-no como louco e  o encerraram em cela escura. Inquietou a ablepsia e tanto que lhe nasceram luzes efêmeras  em lugar dos olhos, até que elas também lhe foram literalmente proibidas.

Perdeu com isso o peso de dois mundos e  passou a flutuar. Confundiram-no com nuvens e exigiram que parasse de divagar. Chorava, chorava muito, derramava lágrimas além do normal, quando o algemaram: “Por favor, tirem essas correntes dos meus pés”.

Não lhe obedeceram. Nem podiam. Antes, alguns trouxeram uma âncora, que lhe fora outorgada por força de lei, de forma que se tornasse raiz e, como tal, para júbilo da nação adormecida, vivesse a sua pena capital num lentamente calamitoso. Como uma passagem para o desconhecido, em câmera lenta, a passos poucos Ele se foi. Até que outros... Até que outros venham tomar seu lugar. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha,  Espírito Santo. 19-5-2020

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