sexta-feira, 15 de maio de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Um tour de nomenclatura estranha para se guardar na lembrança

Aparecido Raimundo de Souza

AS SENHORAS E OS SENHORES vão pensar que se trata de alguma brincadeira de gosto duvidoso. Não é. Acreditem, caros amigos. Existe um lugarejo incrustado na província de Tamarugal, ou Pontal do Tamarugal, na região de Tarapacá, em Santiago do Chile,  conhecida pelo sugestivo nome de Pica.

Nesse pé, é bom que se diga, a Pica chilena, ao contrário do que a maioria imagina, é uma estância relativamente bem pequena. Todavia, próspera e venturosa. Por lá, o dinheiro corre solto. Assemelha bastante ao nosso Beto Carrero, em Praia de Armação do Itapocorói, no litoral norte de Santa Catarina, ou mesmo a Disney World, em Orlando, na Flórida.

Pica tem uma área de mais de 8 mil kilômetros quadrados e uma população de 13 mil habitantes, segundo o censo de 2010. Possui inúmeras piscinas naturais de águas quentes e termais, por aquelas bandas  denominadas de Cochas (tipo Caldas Novas, em Goiás), onde os turistas tomam banho completamente pelados.


Alguns engraçadinhos de plantão acham que entrar nas cachoeiras como se veio ao mundo, notadamente em Pica, não é aconselhável. Percebam. Dependendo da ótica de como cada um  encara a Pica, como a vê, e, sobretudo, como a sente, perceberá que não há inconveniente algum em experimentar as correntes  aconchegantes desse lugar lindamente acolhedor.

Sem falar, nos variados restaurantes. Nos finais de semana, a maioria fica cheio, bem como os barzinhos e as tavernas. Outro detalhe que deve ser levado em conta. A água de Pica é uma delícia. Dizem, os entendidos, a melhor do planeta. O sujeito toma um copo e logo em seguida quer repetir a dose. 


Existe uma época do ano (não agora, em face da pandemia do covid-19), que um considerado número de casais de namorados viaja para Santiago do Chile e acaba fazendo parada obrigatória nesse pequeno distrito considerado exótico e delirantemente paradisíaco (não só pelo nome, como pelas belezas naturais) unicamente com a intenção de mostrar, com detalhes, toda a maravilhosa região de Pica às suas amadas, notadamente os pombinhos em desfrute da lua de mel.


Um fato interessante, aliás, uma curiosidade. Em Pica, o cidadão não se refere a uma desgraça ou a um infortúnio de um morador, ou de um amigo, ou vizinho, cujo ente veio à óbito, dizendo, por exemplo, “o cara  foi pras pica”. Tal procedimento é considerado duplamente ofensivo e abjetamente insultuoso.

O autor poderá vir a sofrer um processo, caso empregue frases como essa em alusão a certas situações consideradas provocadoras ou injuriosas à moral e aos bons costumes.  Os fazendeiros não falam que “seus cavalos picaram a mula”, usam a expressão “os animais debandaram para a outra parte do pasto”. Por aqui, é notório e corriqueiro ouvirmos o esdrúxulo e bombástico “o garanhão picou a mula”.

A educação, o respeito e o senso pundonorístico comandam as línguas ferinas, evitando que a coisa descambe para caminhos tortuosos, sendas que possam ir desembocar nas barbas do tribunal. Mas Pica não fica atrelada a essas mesquinharias. Pica se tornou um atrativo indescritível em face de seu deserto arenoso.


Possui, como já dito, águas frescas permitindo aos fazendeiros nativos, uma excelente agricultura, bem ainda rica e farta gastronomia. Sem mencionarmos os surpreendentes atrativos arqueológicos, como a Iglesia de San Andrés —, onde desde a sua fundação, se tornou o Padroeiro do condado.

Para quem aprecia, pode se embrenhar pela arqueologia, fazer boas cavalgadas, os chamados (trekking), acampanhar — existem vários espaços abertos e preparados para camping —, piqueniquear, contemplar a flora e a fauna, bem ainda fotografar ou filmar regiões consideradas irreais.

Em derredor de Pica, é possivel visitar as aldeias pré-hispânicas, como as de Huatacondo, Collágua, Geoglifos de Pintados, La Huayca, Lagar, Laguna del Huasco, Salitreira Humberstone, Pisadas de Dinosaurios, Ruinas Salitreira Santa Laura e o não menos fabuloso Santuário Católico de La Tirana.


De roldão, dar uma aliviada no estresse, passando uma tarde agradabilíssima nas harmoniosas Termas de Macaya, de Mamina e Lirima. Os visitantes poderão se banquetear com as frutas fresquinhas, como mangas, goiabas e o inquestionável mamão de Pica.  Se as senhoras e os senhores, algum dia, resolverem visitar Pica, conheçam o milagre do deserto.

Milagre do deserto? Como assim? O deserto, ou o devoluto, ou ainda, o estéril de Pica, todo ele, se abastece de água vinda das camadas subterrâneas que se acumulam em uma série infindável de piscinas minúsculas, o que não deixa de atrair banhistas seduzidos por suas temperaturas agradáveis e, claro, o mais importante: a chamativa vegetação circundante. Visitar Pica, em Santiago do Chile, é melhor e mais prezeiroso  que passar uma semana na italiana Busseto, província de Parma.

Aliás, a comuna de Busseto, caríssimos leitores, para os que desconhecem, se tornou famosa mundo à fora, em face de seu filho mais ínclito, o compositor Giuseppe Verdi e por seus magníficos vinhos e a culinária magistral. Impecável! Entretanto, Pica nada fica a dever à Busseto, apesar dos esmerados acordes imortais de “Otello”, “La Traviata” e “Rigoletto”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha,  no Espírito Santo. 15-5-2020

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Um comentário:

  1. Realmente não sei qual imbecil apelidou o órgão sexual masculino de PICA.
    PICA é uma alotriofagia ou alotriogeusia é uma afecção rara entre seres humanos, de apetite por coisas ou substâncias não alimentares.

    Talvez por que alguns humanos coloquem na boca o determinado órgão.

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