sexta-feira, 29 de maio de 2020

O gabinete do amor bandido

A suposta caçada às fake news, que embasa os recentes atos brutais do STF, é o truque para tentar calar a opinião pública livre

Guilherme Fiuza

O Supremo Tribunal Federal está brincando de ditadura. Mas esse tipo de brincadeira não dá para brincar sozinho. O STF só tem coragem de mandar invadir a casa dos outros para confiscar o direito de opinião porque tem a cobertura dos democratas de auditório. Eles criaram a novelinha do Gabinete do Ódio para poder amordaçar geral fingindo defender a liberdade.

Desenho: Eduardo Cambuí Figueiredo Junior

Vamos deixar aqui uma modesta sugestão aos democratas de fachada — que estão há um ano e meio dedicados a seu fetiche fascista e não se conformam com a democracia: saiam de seu armário cívico. Assumam publicamente seu horror à soberania da vontade popular. Declarem-se milicianos de seus interesses particulares, de seus políticos de proveta fabricados pelo Clube dos Ricos, de suas ONGs hipócritas, de suas associações sombrias fantasiadas de salvacionismo global, de seus inconfessáveis projetos de usar o charme cosmopolita para subjugar o Estado e mandar na porra toda.

A suposta caçada às fake news — que embasa os recentes atos brutais do STF — é o truque para tentar calar a opinião pública livre. Não é difícil de ver. Antes mesmo da eleição de 2018, a armadilha já estava montada. Então na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Luiz Fux declarou que a comprovação de fake news na campanha presidencial poderia levar à anulação da eleição. Uma declaração genérica, preparando uma diretriz flácida, insidiosa e malandra. Quem iria determinar, e com quais critérios, o que eram fake news — e, principalmente, se interferiram ou não no sufrágio? Adivinhe.

O novo governo era “ilegítimo”. Tinha sido ungido por uma conspiração de iPhone

Claro que nunca se ouviu uma única bravata togada, nunca se viu uma única e suprema pirueta contra a enxurrada de panfletos que diziam que o adversário do PT ia acabar com o Bolsa Família. O papo de fake news na eleição, obviamente, era para tentar controlar as redes sociais e outras mídias não controláveis. Evidentemente, ali estava a nova frente de formação de consciência democrática — e isso é muito perigoso. Foi assim que nasceu, após a eleição de Bolsonaro, a tese patética do golpe de WhatsApp.

Fascistas diabólicos tinham espalhado para as tias que o príncipe Haddad era chato, bobo e feio — e foi assim que elas migraram para o adversário. Até ali, ninguém tinha nem notado que Haddad era um suplente de presidiário.

A “profecia” de Luiz Fux se cumpriu com essa narrativa idiota, que dominou a grande imprensa ao raiar do novo governo. Ele era ilegítimo, tinha sido ungido por uma conspiração de iPhone. Foi então preparada a fanfarra da CPI das Fake News, irmã gêmea desse inquérito extraterreno do STF que embasou a invasão ditatorial de domicílios contra a liberdade de opinião. A CPI das Fake News foi criada para avalizar as teses conspiratórias de Gabinete do Ódio e golpe de WhatsApp — e acabou desmoralizando-as, com detalhes sórdidos trazidos pelas próprias fontes que embasavam a dramaturgia “democrática”. O circo saiu pela culatra.

As fake news de grife não suportam a democratização da opinião

Mas eles não descansaram. O Brasil foi às ruas diversas vezes, em manifestações pacíficas de apoio à agenda reformista aprovada nas urnas, e isso também era sempre uma orquestração fascista do Gabinete do Ódio. O povo na rua pedindo a reforma da Previdência (aprovada) era, na leitura prévia da resistência cenográfica, articulação miliciana para dar palanque ao fascismo. Contando ninguém acredita. Mas foi exatamente assim.

Nunca se viram antes tentativas de embargar, previamente e no grito, manifestações populares de rua. Mas isso passou a acontecer a partir de 2019. Rodrigo Maia e sua tropa fisiológica ameaçavam sabotar as reformas — com declarações ostensivas na grande imprensa contra a equipe econômica — e o povo se mobilizava para defender nas ruas a agenda de Paulo Guedes. Imediatamente brotavam manchetes e fofocas sobre um movimento obscurantista contra o Parlamento. Confundir repúdio à sabotagem com ameaça ao Congresso foi um dos esportes preferidos, no último ano e meio, do Gabinete do Amor.

As fake news de grife não suportam a democratização da opinião e o aprofundamento da liberdade de expressão para além de seus domínios. O STF não daria um pio sem a cobertura desses democratas de auditório. A Suprema Corte é covarde. A ditadura é mais embaixo.
Título e Texto: Guilherme Fiuza, revista Oeste, 29-5-2020, 10h07

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