quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Prá não dizer que não falei de pássaros, sutilmente...

Jonathas Filho
Hoje cedo, logo após uma xícara de café, preocupado com a “vida” e pelas más notícias que venho recebendo com relação a um dinheiro que me devem, sentei-me na varanda lá de casa e fiquei apreciando o tempo passar e o cantar dos pássaros. Era cedo, coisa de seis e meia ou sete da manhã com o prenúncio de um belo dia de sol. Ainda não estava quente todavia, a aragem trazida do mar transformava a brisa numa bafejada de ar morno bastante agradável. De onde eu estava, podia ver que o nosso jardim merecia mais cuidados do que os que tenho concedido, motivado pelas minhas dores nas “costas” que também merecem cuidados e que ainda não me permitem ficar abaixado ou curvado durante muito tempo para retirar alguns capins e as ervas daninhas inconvenientes. Coisas que para a minha idade são consideradas verdadeiras torturas.

Sanhaço-cinzento, foto: Dario Sanches, São Paulo
A todo instante escuto o chilrear alegre dos sanhaços que se comunicam, trocando informações. O mesmo acontece com os bem-te-vis cujas respostas são quase que imediatas. Enquanto isso, nessa temporada de acasalamento dos sabiás, cada macho empertigado com sua melhor plumagem, instala-se comodamente em uma ponta de telhado das casas vizinhas com a real intenção de se fazer notar e então entoa os mais longos gorjeios com tons e semitons variados, numa disputa que provavelmente será analisada e avaliada pelas pretendidas fêmeas. Aquela que considerar o canto mais harmonioso e interessante, se aproximará cada vez mais, emitindo um trilar que todo macho entende como aceitação. Pouco a pouco, se apresentam também com cantos maviosos, coleirinhos e canários da terra mas, em pequenas famílias. De repente, chegam em  pequenas nuvens  tomando de “assalto”o jardim,  um bando de pequeninos bicos de lacre com seus biquinhos avermelhados e seus estrilos intermitentes, para se alimentar das sementes de alguns tipos de capins e assim como vieram,  vão-se embora estrilando.

Ainda não é hora de aparecerem as maritacas com o ruidoso matraquear que abafa todos os outros cantos. Quando chegarem, irão aboletar-se nos fios, nos postes ou nas mangueiras e não cessarão o alarido até deslocarem-se repentinamente para outro lugar nas redondezas. Dirijo meu olhar para o céu e o vejo sendo cruzado por um grande número de biguás numa formação em “V”, se dirigindo à outra praia num outro ponto desta ilha. Em órbitas, giram elegantemente, algumas fragatas no majestoso balé aéreo das correntes térmicas ascendentes. Vindo do leste para o oeste, gritando bem alto mas em baixa altitude, vejo uma linha verde formada por papagaios cujos machos e fêmeas voam quase colados, parecendo uma estranha ave de quatro asas. Parecem gargalhar durante as várias etapas do tortuoso voo e na tardinha, ao sol poente, seguirão de volta para o leste, à procura de seus ninhos para descansar e dormir.

Aqui e ali se escutam os cantos das cambaxirras e cambacicas, também chamadas de sebinho ou caga sebo sendo que na maioria das vezes que os observo, vejo-os em pares trinando ou piando estridentemente. Eles disputam com os beija-flores a adocicada água com mel, que a minha mulher dispõe para eles. No alto verão, não conseguindo água por perto, estão sempre se “desentendendo” a respeito da posse do valioso líquido. Uns chegam a entrar em casa e depois de um voo de reconhecimento, após saberem-se notados pela minha filha gata, Sissy, A Imperatriz, cuidadosamente batem em retirada incontinente.

Ainda não começaram, porém, quando o verão estiver sendo inaugurado, nas reentrâncias do telhado notaremos a construção apressada dos ninhos das andorinhas, que em duplas estarão voando e pairando à caça de insetos que começam a surgir nos fins das tardes.

Ao longe, escuto um silvo breve e repetitivo; quase um estalido metálico. Se aproxima o gavião de sobre branco e seu piar parece soar como um aviso aos pombos que começam em revoada a procurar por abrigos próximos. Esse pássaro não é um predador e sim um selecionador, pois nos centros urbanos elimina ratos e pombos, principalmente os doentes que podem transmitir moléstias graves aos humanos. Sempre passam por aqui, nas suas caçadas matutinas. De tempos em tempos aparecem indivíduos maiores, do tipo asa-de-telha com envergadura de quase 1,20 m. São belíssimos exemplares de grande porte, mas como aqui não é o território deles usam o local somente como escala de trânsito.

Escuto também, o canto meio rouco e abafado que mais parece um lamento, proveniente de alguma “fogo apagou” que é a “rolinha” urbana a qual só emite esse som quando empoleirada em local não visível e protegido.

O que também tenho notado é que os pardais são raros por aqui e só os vejo pela estrada do Galeão ou em outras localidades onde estão sempre em grupos de dúzias deles. 

Ocasionalmente aparece um solitário indivíduo do grupo das Lavadeiras, também conhecidas como Noivinhas, Marias brancas ou Viuvinhas (Fluvicula Nengeta) com sua plumagem branca e preta que incessantemente piam e ciscam para se alimentar de minúsculos invertebrados.

Já tinham se passado mais de quarenta minutos em que ali sentado avistei esse extraordinário panorama, que me conduziu a este texto que divido com vocês. O pensamento me remeteu a um passado tão agradável de ser recordado; o bom tempo em que eu tinha asas e voava em equipes, todos “emplumados” num tom azul-escuro, todos alegres, bem-dispostos e de bem com a vida. Raramente voávamos de dia, e parecendo corujas éramos noturnos sem sermos soturnos pois muito ao contrário de assustados ou amedrontados, transferíamos confiança e a certeza de uma excelente viagem, o que, de fato, invariavelmente acontecia.

Nesse viajar do pensamento, imaginei num devaneio fugaz:
Como seria bom se os humanos conseguissem se comunicar pelo canto melodioso e travassem qualquer tipo de embate com gorjeios para depois de avaliados serem admirados e aceitos como líderes;
Como seria bom se os humanos chegassem de “assalto”, mas na algazarra da alegria, trazendo apoio, solidariedade ou mesmo só boas notícias;
Como seria bom, se os homens a cada vez que visitassem as flores do poder espalhassem o pólen semeando um porvir de seriedade, desenvolvimento e prosperidade;

Interessante... eu poderia ter falado também do canto dos pássaros que, em casas ao redor, estão confinados em gaiolas, mas eu não estaria falando das suas lindas cores e sim das penas... de viverem presos e do canto amargurado por causa da ignorância, desrespeito e crueldade dos ditos humanos.

Eu poderia ter falado em serpentes, escorpiões e aranhas viúvas-negras ou outros animais peçonhentos;
Eu poderia ter falado de sanguessugas, vermes, carrapatos ou outros animais parasitários;
Eu poderia ter falado de piranhas vorazes, tubarões matadores, orcas assassinas e barracudas insaciáveis ou de outros animais que nas emboscadas são predadores fatais;
Eu poderia ter falado de lobos, abutres e hienas ou de outros animais que vivem dos despojos dos outros animais;

Eu poderia ter falado de botos, peixes boi, cervos, macacos, cotias, preás e outros animais daqui de Pindorama, que de tão dóceis são facilmente enganados, encabrestados e usados ao bel-prazer do “caçador”...

Eu poderia ter falado muito, mas muito mesmo, a respeito de outros animais daqui que têm seus cantos de sereias, suas matreirices, suas astúcias e suas maldades. Eu poderia ter falado de “bodes”, de “micos”, de “raposas”, de “morcegos hematófagos”, de “urubus”, de “ratos” porém, nem sequer de preguiça falei... porque nesse momento eu só queria mesmo é falar de pássaros, sutilmente... é claro. 
Título e Texto: Jonathas Filho, 30-10-2014

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