sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A compra de votos

João Marques de Almeida

Uma conclusão possível: os pobres ganharam e os ricos perderam. É a hipótese preferida da esquerda. Há outra conclusão, mais perturbadora: o Brasil produtivo perdeu e o que vive do apoio social ganhou

Após as eleições, o Brasil é um país dividido. 53 milhões votaram em Dilma. 50 milhões votaram em Aécio. O Norte votou PT e Dilma e o Sul votou PSDB e Aécio. O Brasil rico votou em Aécio e o Brasil pobre votou em Dilma. O Brasil onde o PSDB e Aécio ganharam vale cerca de 80% do PIB brasileiro, cerca de 85% das exportações brasileiras e cerca de 90% das receitas fiscais. Uma conclusão possível: os pobres ganharam e os ricos perderam. É a conclusão preferida da esquerda e, sobretudo, a que mais a satisfaz.

Há outra conclusão, mais perturbadora (e por vezes convém perturbar os espíritos mais satisfeitos): o Brasil produtivo perdeu e o Brasil que vive do apoio social ganhou. O programa do PT, nos doze anos de poder, tem sido no essencial beneficiar das exportações de minérios e comida para a Ásia (sobretudo para a China). As receitas permitiram o crescimento da classe média e o programa de assistência social, a “Bolsa Família”. Os problemas no entanto já estão à vista de todos. A diminuição do crescimento económico da China baixou os preços dos minérios e da comida, o que reduziu consideravelmente as receitas do Brasil. A nova classe média – o que os sociólogos brasileiros chamam as classes E, D e C – estão endividadas e começam a sofrer. A “Bolsa Família”, por outro lado, está a aumentar a despesa pública de um modo preocupante.

É óbvio que a redução da pobreza constitui o maior sucesso dos governos PT. Foi bom para o Brasil e acima de tudo foi muito bom para os brasileiros pobres. E a pobreza no Brasil, depois de 12 anos de PT no poder, continua a impressionar. Há na derrota de Aécio – numa eleição que deveria ter produzido uma mudança de governo – uma lição para as classes dominantes tradicionais. Décadas de desprezo pelas desigualdades sociais e por políticas de justiça social produzem uma factura política elevada. O PSDB, justa ou injustamente, continua a pagar essa factura.

Existem, contudo, dois grandes problemas com o modelo PT. Ao primeiro podemos chamar crescimento económico precário. A chegada de milhões de brasileiros à classe média não resultou de reformas económicas capazes de produzir um crescimento permanente da economia. O Brasil atrai pouco investimento externo, não desenvolveu grandes indústrias nacionais, é incapaz de controlar a inflação sem uma política de preços artificial, e o regime fiscal continua a ser incompreensível para o comum dos mortais. Em doze anos, o PT não fez uma grande reforma que beneficie o país durante as próximas décadas. Juntamente com a russa, a economia brasileira é a que menos cresce entre os BRICS. Cresce menos que as economias americana e britânica, muito negativo para uma economia emergente. O crescimento dos oito anos das presidências Lula foi conjuntural, em grande medida resultado do ‘milagre chinês’ de crescimento de 10, 11% durante anos seguidos. A normalização do crescimento da economia chinesa está a causar problemas sérios à economia brasileira. E a situação vai piorar nos próximos quatro anos, como reconhecem em privado os dirigentes mais lúcidos do PT.

Ao segundo problema podemos chamar, e espero não ofender as almas mais sensíveis, compra de votos. A “Bolsa Família” é uma maneira de comprar votos utilizando recursos do Estado. De resto, Dilma e o PT nunca o esconderam durante a campanha quando disseram que se Aécio ganhasse acabaria com o programa social. Na minha concepção de democracia, a utilização de recursos do Estado para ganhar eleições constitui um problema grave e que corrompe o sistema democrático. O PT não quer acabar com “Bolsa Família”. Pretende, pelo contrário, alargá-la. Os beneficiários da “Bolsa Família” devem continuar a ser permanentemente pobres. Menos pobres, mas ainda pobres. Só assim farão parte do exército de eleitores do PT. Não devemos chamar a isto justiça social, mas sim caridade. Caridade para ganhar eleições.

Simultaneamente, surgiu na sombra do poder PT uma nova elite de privilegiados e mesmo de milionários. Acham-se impunes e julgam que o povo se contenta com umas migalhas (a “Bolsa Família”). Estão a cometer exactamente o mesmo erro que as antigas elites cometeram. E tal como elas vão pagar um preço elevado. Será apenas uma questão de tempo.
Título e Texto: João Marques de Almeida, Observador, 31-10-2014

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