sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Impopularidade terminal de Tony Blair veio quando enriqueceu como lobista

E Lula? Anthony Seldon, biógrafo do ex-primeiro ministro opina para a BBC sobre sua impopularidade
Cesar Maia       

1. O veredicto da história para os primeiros-ministros que deixam seus cargos é um tema altamente controverso, mas nos tempos modernos, muito poucos foram submetidos a tanta hostilidade como Tony Blair. Após seu controverso governo, que terminou em maio de 2007, Blair ganhou um pós-governo ainda mais controverso. Precisamos examinar ambos, tanto o governo como aquele que se seguiu, para entender por que ele é o ex-primeiro-ministro mais insultado desde 1945.
    
2. Blair tornou-se líder do Partido Trabalhista em julho de 1994 e se propôs a "modernizar" o partido para abraçar -em vez de rechaçar- o capitalismo. E buscou liderar no interesse de todo o país e não apenas da classe trabalhadora e dos sindicatos. Quando o trabalhismo chegou ao poder depois de quatro derrotas eleitorais consecutivas (1979, 1983, 1987 e 1992), a fórmula de Blair mostrou ser extraordinariamente bem-sucedida.
   
3. Blair ganhou as eleições gerais em Maio de 1997, com uma vitória esmagadora sobre o desacreditado governo conservador. Venceu, novamente de forma esmagadora, em 2001 e novamente, embora por uma pequena maioria, em 2006. Nenhum líder trabalhista na história tinha obtido três vitórias eleitorais consecutivas. Portanto, era esperado que o Partido Trabalhista venerasse Blair como sendo seu maior recurso eleitoral. Mas a verdade é exatamente o contrário.
   
4. Muitos dentro do partido falam mal dele e a cada dia tem menos seguidores entre a nova geração de parlamentares trabalhistas que rejeitam tanto Blair como a maneira como ele tentou se livrar de elementos de esquerda no partido. Blair foi mais bem-sucedido como líder do partido que ganhou eleições, do que como primeiro-ministro governante.

5. Blair começou com um grande apoio tanto à direita como à esquerda da política britânica, ainda que seu aparente fracasso em controlar a imigração eventualmente tenha provocado a ira da direita. Foi a política externa de Blair, no entanto, que produziu a maior polêmica de seu governo, que incluiu protestos em Londres e em todo o país. Seu apoio ao presidente dos EUA, George W. Bush, na invasão do Iraque em março de 2003 foi a decisão de política externa mais contestada de um primeiro-ministro britânico desde que Anthony Eden ordenou que as tropas britânicas invadissem o Egito em 1956.
   
6. A forma como a decisão de Blair foi tomada foi altamente contestada, incluindo a dúvida sobre se havia enganado o país ao apresentar o motivo para envolver os militares britânicos. Talvez ele tivesse sido perdoado se a invasão liderada pelos Estados Unidos tivesse sido bem-sucedida, mas o seu espetacular fracasso em conseguir a paz no Iraque levou a anos de recriminações.
   
7. A segunda parte da nossa história começa: o pós-governo. Blair delineou uma proposta muito ambiciosa para a sua vida após Downing Street. Ele se tornou um “enviado para o Oriente Médio" da ONU e trabalhou para trazer a paz para o conflito árabe-israelense. Também tinha planos ambiciosos para a África, para ajudar as religiões do mundo a se entenderem e uma lista de outras causas. Este foi um programa maravilhoso, que deveria ter gerado aprovação e nenhuma vergonha. O fato é que, quase uma década após deixar o governo, o prestígio público de Blair é ainda menor. A falta de progressos tangíveis no Oriente Médio, na África e nas religiões do mundo, não pode por si só explicar essa hostilidade.
    
8. Em vez disso, têm sido os contatos com regimes e pessoas de moral duvidosa, suas atividades para ganhar dinheiro e propriedades, todos regularmente divulgados por uma mídia suspeita, que causaram o dano. Membros do partido Trabalhista não conseguem entender por que era necessário para seu ex-líder ganhar tanto dinheiro e viajar pelo mundo em aviões particulares. Talvez leve algum tempo antes que a reputação desse antigo gigante da política mundial comece a levantar-se novamente. 
Título e Texto: Cesar Maia, 28-8-2015

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