sexta-feira, 1 de junho de 2018

[Aparecido rasga o verbo] Filêmon e Báucis. Quando a história se repete

Aparecido Raimundo de Souza

VISLUMBRO A IMENSA MODÉSTIA que o envolveria nesta hora, meu caro e saudoso amigo Audálio Ferreira Dantas, ou simplesmente Audálio Dantas (jornalista, nascido em oito de julho de 1929 em Tanque D’Arca, no agreste das Alagoas), se pudesse ler esta crônica em sua homenagem.

O dever de admiração e gratidão fala e grita bem mais alto em nossos corações (no meu, particularmente), porque a sua pessoa irradiava pureza e simplicidade, amor e, sobretudo aquela paz de espírito que sempre foi o apanágio dessa invejável e preciosa existência de mais de oitenta anos.

De gratidão porque este reconhecimento envolve, igualmente, a sua esposa dona Vanira Kunc, tão identificada com sua pessoa e a qual você, Audálio, dedicou sem sombras de dúvidas, os melhores vinte e seis anos de sua vida.

É confortável, é admirável, é belo ver um casal cumprir através de tantos anos o “conjugo vobis” pronunciado aos pés do altar, e não o simples e corriqueiro “até que a morte os separe”, todavia algo mais sério, como “In aeternum”.

Ilustrando esta união imorredoura, Ovídio, o grande poeta latino legou-nos uma joia rara de suas célebres Metamorfoses: “Philemon et Baucis annis”.

Conta-nos aquele vate que Júpiter, em forma humana, baixou a terra, e após perambular por muitos lugares, e já noite alta, encontrou, num bosque, região montanhosa de Frígia, uma choupana muito humilde. Lá habitava um casal de venerandos anciãos.

Querendo experimentar as virtudes e a hospitalidade daqueles velhinhos, pediu pousada numa morigebada casinha. Bondosamente Filêmon e Báucis, sem saber de quem se tratava, acolheu o pai dos deuses. Ambos desdobraram-se em gentilezas, oferecendo o único pedaço de presunto que tinham, bem como as frutas que se encontravam sobre uma pequena mesa tosca. Retribuindo a acolhida tão amiga e desinteressada proporcionada pelo casal Filêmon e Báucis, Júpiter deu-lhes a recompensa.

Anos e anos à frente, os dois bem idosos, transferiram-se de seu casebre para as calmarias do infinito. Com esse passamento, foram sepultados por um grupo de camponeses em caixões comuns, lado a lado. Júpiter, então, ao saber desse acontecimento, transformou Filêmon num belo carvalho e Báucis numa tília, cujos galhos entrelaçavam-se, como que num largo amplexo e cujas raízes de ambas as árvores firmaram-se no mesmo tronco, como se fossem um só. 

Certo dia, um lenhador tentou separar esses galhos, ou melhor, os ramos que pareciam grandes braços. Para surpresa e espanto de seus olhos, brotou sangue em abundância, ao tempo em que se viu castigado pelo senhor dos deuses.

Esta lenda tem o condão de exprimir a alvura, a inocência bucólica, o amor puro, o amor perene, o amor, sobretudo, na sua mais lidima e majestosa expressão.
“Ama et fac quod vis”  - já dizia o ilustre doutor da Igreja Santo Agostinho.

Diante de nós, temos este exemplo vivo e tão dignificante. Vinte e seis janeiros que foram se renovando todos os dias na compreensão cotidiana, no cuidado, no zelo, na afeição profunda, na esperança mútua e na dedicação à sua cara metade. Audálio Dantas [foto] nesse contexto e não só nesse, foi uma grande e irreparável perda para todos nós.


Figura política marcante levou o nome do País a outras terras além-mares. Homem modesto deixou um exemplo de vida não só pela probidade, honradez e integridade, como também pela história que deixou escrita nos anais de nossos corações.

Audálio não é só o escritor dessa história, é a própria história contada com detalhes em todas as suas nuanças. Como bem disse, certa vez, o carioca e também jornalista e político Mário Martins, “Audálio Dantas não é mera testemunha de vida nacional, é presença”.

Entretanto, teremos de continuar sem ele. A vida segue. Porém, sua presença estará viva, e bem viva, marcante mesmo, em nossos espíritos, e como dona Vanira, sua viúva, as filhas Mariana e Juliana enlutaremos com a sua ausência repentina e inesperada.


Vamos nos lembrar todos os dias de nossas vidas, do casal Filêmon e Báuca, notadamente do velho carvalho, que se entranhou em nós, que se arraigou e criou raízes imensas em nossos recônditos mais secretos, deixando em nossas lembranças ramificações imorredouras que jamais serão destruídas pelo tempo.

Pois é meu amigo Audálio. Fica aqui a minha homenagem singela e bastante simplória, feita com amor, como todo amor, bem do fundo de meu ser, escrita por alguém que, como Guimarães Rosa, acredita piamente que as pessoas como você, não morrem, “FICAM ENCANTADAS”. Prova disso, seus livros: “As duas guerras de Vlado Herzog”, “O menino Lula”, “A infância de Ziraldo”, e “Graciliano Ramos”, entre outros.

DESCANSE EM PAZ! O MEU ADEUS, GRANDE AMIGO E COMPANHEIRO. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista.  De São Paulo, Capital, diretamente dos funerais de Audálio Dantas, Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo. 1-6-2018

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7 comentários:

  1. Parabéns pela linda homenagem ao jornalista Audalio Dantas. História linda de Filêmon e Baucis, comovente e um exemplo que se "fazemos o bem sem olhar a quem" a recompensa vem. E a deles veio de uma forma maravilhosa unindo o casal pela eternidade. Usar a história dos dois para homenagear um amor vivido nos tempos de hoje foi de uma grande maestria. Amei cada parte desse texto veio abrilhantar ainda mais minha convicção que ainda ha por ai o romantismo,que existe mesmo sendo raro um amor parecido com o de Filêmon e Baucis. Carla

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  2. "Beleza"
    Acho essa fábula bonita, mas tem mais versões que a bíblia.
    Immanuel kant definiu para mim o que é perder um amigo.
    Escreve ele:
    - "Amizade é semelhante a um café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante o primeiro sabor."
    Um amigo é sempre o primeiro café do bule.
    Quando o amigo morre, temos a sensação que nosso tempo também se esgota.

    Voltando à fábula, alguns idiotas aproveitando-se dela, lhe deram conotação político socialista.

    Leonardo Boff em 2/10/2015
    O mito da hospitalidade e os refugiados de hoje
    02/10/2015
    Os milhares de refugiados que estão fugindo da guerra na Síria e do norte da África e buscam simplesmente a paz nos países europeus, nos fazem lembrar um dos mais belos mitos da cultura grega.

    Não há como comparar os refugiados, com a fábula.

    Eles não são deuses, podem ser necessitados, que preferem fugir de seus países a lutar por suas liberdades e direitos.

    O Brasil está cheio de refugiados dentro de suas cabanas,
    Que não aceitariam nem deuses em seus lares,
    Mas compartilham suas vidas em seus celulares.


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  3. Todo mundo que escreve, qualquer coisa, em qualquer meio, faz citações a personagens ilustres.
    Sejam estes , historiadores , filosofos, religiosos ...o "diabo a quatro"!
    Uma vez eu comentei numa pagina do orkurt, administrada pelo Jim, que me aborrecia o que todos faziam para balizar seus pensamentos citavam uma autoridade no assunto, como se suas ideias não se sustentassem sozinhas.
    Bastava incluir uma citação de um defunto e virava um texto inteligente!
    Se isto desse valor ao texto eu diria que um famoso filósofo concordaria comigo de acordo com seus textos. Mesmo que fosse o Manéziho da praça!
    Pronto, teria credibilidade!
    Ninguém ousaria contestar um filósofo, mais ainda, se for morto, o que o reveste de mais autoridade!
    Parece que desde que o mundo foi criado, basta morrer para se tornar referencia e endosso para discursos.
    Eu escrevo um bocado de besteira, mas são todas minhas!
    Penso sozinho, e não é um defunto que se destacou pela inteligência à sua época que vai tornar meus textos mais interessantes, ou "eruditos".
    Prefiro errar sozinho!
    Duvido que estas sumidades todas citados em tudo que é texto e em livros se não tivessem morrido, e vivessem hoje,fossem tão cultuados.
    E este comentário, nada tem a ver com os colegas que me precederam, neste tópico!
    Basta ver que eu já disse que carrego erros comuns dos dois!
    Como um sou prolixo, e invento palavras e como outro sou questionador e até, por vezes implicante.
    Portanto em nada sou diferente , salvo na implicância com a mania que todos tem de fazer citações , o que acho que ao contrario do pretendido, diminue a originalidade da mensagem a ser transmitida , pois parte do principio de que só tem valor, porque alguém já disse antes algo parecido.


    Paizote

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  4. Recado ao editor Jim.
    Não esta funcionando mais o serviço de aviso de mensagens postadas , sumiu a opção!
    Abs!

    Paizote

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    Respostas
    1. Oi, Paizote!
      Não entendi. Você se refere ao recebimento diário das postagens recentes?
      Li, não me lembro onde, que o Blogger iria descontinuar algumas funcionalidades...

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    2. OI Jim!
      Desculpe , mas para esta resposta foi possível usar a facilidade de ,visualizar (Os comentários de acompanhamento serão enviados para paizote@gmail.com),editar e notifique-me, o que não consegui nas anteriores de hoje.

      Paizote

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    3. Ok, está tudo certo, então!

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