sexta-feira, 5 de abril de 2019

[Aparecido rasga o verbo] “Vovô Licido”

Aparecido Raimundo de Souza

O avô é aquele ser maravilhoso que tem o privilégio de ser pai duas vezes”.
Tompson de Panasco.

PARA ELE, EU SOU o “Vovô Licido”. Sempre! Basta eu pintar no portão, ouço a sua voz gritando em tronitoante: “Vovô Licido chegou”. Manhêêê, “Vovô Licido”.

O meu menino João nasceu Eduardo e acabou de completar quatro anos. Quatro anos numa empolgação infinda que seu coraçãozinho quase não consegue sustentar.  

Anteriormente eu havia tido um Eduardo, com a Dalva, minha primeira mulher. Mas ele cresceu, casou, e como todo passarinho abriu a porta da gaiola, bateu asas, galopou no vento em ascenso e foi morar fora do país.

De cara, me deu três netos que nunca vi. Em razão disto, não existe entre mim e estas crianças, uma afeição-relação que possa chamar de intimidade entre consanguíneos. Por menor que seja...

Grosso modo, algo assim para chamar de meus xodós. Junte-se a isto, a incoerência pesada de nenhum telefonema. Sequer o troca-troca de WhatsApp ou qualquer outro tipo de mensagem nas demais redes sociais conhecidas.

Neste ritmo fora de tom, meus três netos (de outras paragens), são apenas lembranças. Rascunhos esboçados de infantes estrangeiros. Borrões que se perderam por nunca terem contato comigo. Diante deste inevitável, me curvo reduzido aos movimentos lentos do tempo que ainda me resta viver.

Deles, meus netos do outro lado do oceano, apenas fotografias postadas no Facebook e no Instagram (lembrando), para outros parentes da parte da Dalva. Jamais endereçadas a mim.

Penso, às vezes, que desta união, só ficou viva a Dalva e que só ela faz parte de um mundo que eu não tenho o direito de penetrar.

De contrapeso, ganhei uma nora que nem sabe que eu existo. E se sabe, ainda que por “ouvir dizer”, qualquer gesto que possa ter de aproximação, se esvaiu e continuará se evaporando, para sempre, num poço escuro e de feições enrugadas


A bem da verdade entendo que estes mimos todos se perderam num redemoinho de sentidos desconexos e embaraçados, atrelados a um confuso e anárquico disjunto. Junte a este furdunço, as pessoas envolvidas...

Filho e ex-companheira se acharem os maiorais. Os deuses. Caríssimos, entendam. Nada somos. Ao mesmo tempo em que estamos vivos, no próximo segundo poderemos estar a caminho do cemitério. Para que tanto ódio?! 

Entre mortos e feridos, e de resto, de resto apenas um vazio grande que acabou se transformando em distância. Uma dilatação desfalcada, sistêmica, impaciente, intransigente em seu voo imutavelmente necessário.

Neste interregno, um pequeno milagre. Amanda me deu de presente o João Eduardo. Para ele eu não sou o Vovô Aparecido. Apenas o “Vovô Licido”.

Ao contrário dos meus três com o primogênito Eduardo, (Lembrando, Eduardo, meu filho, o deus cara de pau de carne estragada), este gurizinho levado da breca está mais perto. Mais próximo e mais aconchegado aos meus cuidados.

Em vista desta prioridade, posso me fazer dativo à hora que me der na telha. Amanda mora perto e “Vovô Licido” ou Vovô 4 (como eu o chamo), me ama com a intensidade de uma inocência pura e verdadeira, sem manchas, sem nódoas. Uma candura que me cativa e me renova a cada encontro.


Há, entre nós, uma aproximação densa e abundante, cercada de carinhos e afagos que se traduz num amor incomensurável de neto para avô –, de avô para neto, com a certeza de que nenhuma influenciazinda vinda de fora terá forças suficientes para afastar a magia enlevada e enfeitiçada que reina entre nós.

João Eduardo é um pedacinho de outro pedacinho que eu construí com a Marlúcia. Eu sou o “Vovô Licido” e me debruço, orgulhoso, vaidoso e empertigado num espiar de visão mais delongada.

Quando estou com ele, o mundo se renova. O pirralho lembra Amanda quando, na mesma fase, povoava meus devaneios com encantos febris.


Embora bússola norteadora, preciso me fazer mais próximo e imediato. Traçar rumos e rotas, criar estradas e caminhos. Ver o pequeno com mais acuidade, mostrar o mundo que não pude descortinar quando Amanda ensaiava apagar as quatro velinhas de seu começo de existência.

O meu tempo, bem sei, é curto. É escasso. É outro, e este passar de decurso incerto me causa um medo tétrico, aterrador e sombrio. Talvez, pela idade (sessenta e seis), eu não alcance a durabilidade desejada de alguns janeiros por tantas sendas e vielas consumidas.

Em outras palavras. Quiçá eu não possua o festim audacioso do tempo outroral. Aquela quadra semeada de incógnitas que pousava fortificada e se abria como sol radioso.

Este tempo, hoje, se faz abrandado e atenuado. Os operários de Deus me perseguem em forma de uma velhice afadigada e inquieta.

Meus costados sentem a consternação da idade. O gargalo das emoções, não é mais suficiente para fazer jorrar toda a felicidade que gostaria, ou que almejaria, para ser o avô-vovô que não consegui ser para os outros.

O meu agora urge numa lúcida assertiva dentro de uma velocidade espantosa. Voa. Neste adejar, tenho consciência de que meu mundo é imaterial, todavia, apesar de incorpóreo, necessário.

Como num rápido suicido não consumado, tenho a prática moral que me norteia nutrida por fluidos generosos, a ponto de entender que não posso perder, aconteça o que acontecer, o que chamamos de “REFERÊNCIA FAMILIAR”.
Título Imagens e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. 5-4-2019

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6 comentários:

  1. Poxa! Triste não conhecer os netos...

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  2. Bom dia meu caríssimo amigo Jim. Verdade. A justiça chama a isso de "ALIENAÇÃO PARENTAL". Mas fazer o quê?! É vida que segue. Por aqui pelo Brasil eu tenho o João Eduardo, filho da Amanda (o "Vovô Licido") e Heitor, filho de Luana Cristina, que logo terá um texto em sua homenagem. Ambos os netos, apesar de minhas viagens constantes, bem próximos. Jim, obrigado, de coração, pela força e, igualmente, pela sua participação. Aparecido Raimundo de Souza. RJ.

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  3. Meu caro escritor Aparecido seus textos preenche minha mente. Alguns me deixam com raiva, outros me fazem rir, e há aqueles que por algum motivo me levam ás lágrimas. Seus textos são por diversas vezes refletivo, como esse agora “vovô licido.” A momentos em seu texto. Que você deixa transparecer, uma dor imensa, uma raiva, que vou ser franca não faz bem ao coração, e sentimentos ruins; tiram nosso brilho e alegria. Por algum motivo que não cabe a minha pessoa questionar; a vida levou para longe de você, seu filho e netos. Netos esses que não conheceu pessoalmente. Meu caro a vida diversas ocasiões nos dará muitas rasteiras, mas haverá sempre algo ou alguma coisa para nos motivar a levantar sacudir a poeira e continuar. Que no seu caso, é seu amor incondicional pelo seu neto João Eduardo e vice e versa, nada mais gratificante que criaturas tão inocentes que são os netos, nos devote amor sem querer nada em troca a não ser reciprocidade. Nada mais gostoso do que ouvir a palavra vovô (vovó) é motivo de orgulho enorme, saber que nossa árvore genealógica esta se perpetuando. Sei que nesse instante você é metade saudade e a outra é puro amor, então viva esses momentos que você tem agora. Mas deixe um cantinho reservado para seu filho, e netos, quem sabe a vida não te surpreenda; nunca se sabe. A palavra ex se aplica a vários seguimentos ( ex mulher, marido, amigo e por ai vai) mas nunca ex filhos e netos. Meu caro eles são para sempre. Existem vínculos que nem a morte é capaz de destruir. Então aproveite cada momento; a vida é muito curta para guardar mágoas, ressentimentos, e dores. Apenas deixe nessa vida, boas lembranças para quando um dia partir, possa permanecer na memória de cada um o melhor de você.
    Parabéns

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    1. Agradeço, de coração, suas palavras, amiga Carla Regina. Sempre tão querida quanto presente em meus textos. Estou tentando aproveitar com os netos do lado de cá, embora os outros (os do lado de lá) não fiquem esquecidos. Não tenho ressentimentos, não guardo raivas, não alimento ódios. Todavia, quanto a ser surpreendido, acho meio difícil. De qualquer forma... vamos dar tempo ao tempo. Brigaduuuuuuu pela sua participação. (da Lagoa Rodrigo de Freitas, no RJ).

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  4. Peço desculpas pelo que escrevo.
    Tem 3 coisas na vida que todo mundo esconde.
    HEMORROIDA, DINHEIRO E SUJEIRAS DE FAMÍLIA.
    Operei hemorroida 3 vezes.
    Dinheiro faz falta.
    Eu não escondo sujeira de família.
    Eu vi as lágrimas no rosto de meu pai, quando descobriu que um dos seus era estelionatário e baitola.
    Minha mãe obrigou todos a aceitar o que a rapa do tacho fez.
    Exceto eu!!!
    Esse pessoal que diz aceitar essas coisas, aceita por pena.
    Eu jamais aceitaria mabas do meu filho.
    Minha mãe morreu sem falar comigo.
    Aí eu digo que tenho muitas saudades do meu pai.
    O cara que fez meu pai chorar, continua viado e agora é "pai de santo", continua estelionatário.
    Quando os filhos de pai separados rejeitam a paternidade, eis o sinal gráfico das atitudes das matriarcas.
    Seu pai não presta.
    Chegamos a certa idade em que temos que termos sabedoria.
    Meu avô morreu aos 95 anos, e sinto ainda saudade de quando eu tinha quatro anos e lia o jornal para ele.
    Ele havia nascido em 1889.
    Discordando da CARLA, quando morremos viramos números de loteria.
    A morte desmancha os vínculos.
    A vida amarga os vínculos se os desconectamos.
    Meu filho sempre diz que escondo os sentimentos.
    Na verdade não os escondo, eu os disciplino.
    Sou capaz de chorar vendo um vídeo e de aceitar a morte sem lágrimas.
    Seria capaz de me emocionar no rencontro de APARECIDO com seu filho se desculpando, ou no reencontro com seus netos, digo todos, pois nenhum deve ter valor maior que outro.
    A ALIENAÇÃO NÃO É PARENTAL, ela é efemeramente produzida pela parte magoada, sentida e inconforme.
    SO cold, i prefer to smoke instead rivotril.
    fui...


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    1. Meu caro Roccha. A gente se acostuma com os percalços da vida.
      Aos 66, se aprende que os filhos só dão valor aos pais, quando estão pequenos. Quando são dependentes. Depois que criam asas... ficam só as boas lembranças. Nesse saco de gatos, os netos do lado de cá são as boas lembranças, as boas recordações... o resto... é resto. Aparecido, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

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