domingo, 14 de abril de 2019

Chamem-se como quiserem, mas façam alguma coisa!

Helena Matos

A direita é em Portugal um problema poético: um sujeito lírico que não sabe o que é; pede desculpa por aquilo que nunca foi e lastima o que não pode ser.

Mais para a direita. Não, um bocadinho para a esquerda. Agora para o centro… A direita em Portugal não é um espaço político, é uma prova de modista: ora sai uma alfinetada no reacionarismo, ora tesourada no liberalismo. A primeira coisa a ter em conta quando se fala da direita é que a direita além de falar de si mesma, do que é, do que deveria ser, do que já foi… não deve falar de mais nada. Ou seja, deve abster-se acerca da realidade. Inibir-se na apresentação doutras propostas. Enfim, autolimitar-se enquanto alternativa de poder. Afinal para isso já cá está a esquerda, não é?

Desprovida de projeto, a direita é avaliada não pelo que diz, mas sim pela intencionalidade das suas palavras, mesmo quando elas parecem acertadas. Por exemplo, quem senão uma direita ressabiada para chamar a atenção para o que aconteceu no batismo do navio de cruzeiro construído nos estaleiros West Sea? O sucedido conta-se em poucas palavras e para o caso as do JN e da Lusa são eloquentes: “Uma cerimônia com passadeira vermelha onde desfilaram o primeiro-ministro e um extenso rol de figuras do jet-set nacional marcou, este sábado, o batismo, nos estaleiros de Viana do Castelo, do primeiro navio de cruzeiro construído em Portugal. (…) O primeiro-ministro disse hoje que os estaleiros da West Sea, em Viana do Castelo, são “uma referência da capacidade de renovação da indústria naval do país”, apontando como exemplo o primeiro navio oceânico “integralmente concebido e fabricado” em Portugal.”

Acontece, e agora é que entra o ressabiamento, que estes estaleiros, agora designados West Sea, tão expressivamente elogiados pelo primeiro-ministro são os mesmos cuja privatização o PS combatia em 2013 e, pasme-se, continua a combater em 2019. Porque enquanto o primeiro-ministro veste de gala para desfilar na passadeira vermelha em Viana, o grupo parlamentar do PS, em Lisboa, não só vota contra o voto de congratulação apresentado pelo PSD aos “trabalhadores, gestores e sociedade civil” de Viana do Castelo pela “viabilização dos estaleiros materializada num conjunto de entregas civis e militares“, como continua a dizer-se contra “a forma como o anterior Governo procedeu à liquidação dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e deitou para o lixo mais de 450 milhões de euros dos contribuintes portugueses”.

Resumindo, em Viana do Castelo, António Costa exalta os empresários dos estaleiros West Sea e o seu cliente Mário Ferreira e depois em Lisboa os mesmíssimos socialistas voltam aos tempos em que a privatização dos Estaleiros de Viana do Castelo era deitar para o lixo o dinheiro dos contribuintes. Percebido? Convém mesmo perceber por que este esquema de atuação se repete a cada privatização em Portugal: os socialistas são sempre contra e depois, continuando a ser contra, ostentam uma política de “proximidade-palmada nas costas” com essas mesmas empresas e empresários. Denunciar tudo isto é que não vale a pena porque é ressabiamento. Tal como é ressabiamento – ou será antes populismo? – denunciar esse outro desdobramento físico do líder socialista, entre o primeiro-ministro António Costa que forma um governo em que é difícil encontrar alguém que não seja primo, marido, mulher, cunhado… e o governante António Costa que celebra a aprovação de legislação para impedir a endogamia nos governos.

Esta ideia de que não existe um discernimento moral, mas apenas o julgamento da lei é uma das marcas mais degradantes do nosso tempo. Mas como dizer a palavra proibida – moral – sem que logo surja o terror de se ser acusado de reacionarismo? Levamos os anos dos governos Sócrates sob este diktat: os julgamentos morais são uma manobra da reação. Apenas o império luminoso da lei conta. Ou contava. Porque agora a lei tornou-se reacionária e os juízes tornaram-se objeto de pressões e ações de dinamização ideológica que se toleram e calam não venha de lá o apodo de reacionário.

Afinal o ressabiamento não é a pior categoria das obscuras motivações que levam a direita não só a não ser esquerda, mas sobretudo a ter a veleidade de querer ser outra coisa. O reacionarismo esse sim é que é o motor da coisa, da anomalia por assim dizer. Assim, a cada intuição de que a acusação de reacionarismo lhe está para cair em cima, logo a alegada direita que não sabe se é direita explica que ela, antes pelo contrário, concorda com tudo aquilo que esquerda diz e até iria um pouco mais à frente.

O temor de ser considerado reacionário é tal à direita que segue impune a imposição da ditadura do progressismo que nos há de levar ao vazio, caso ninguém à esquerda denuncie o óbvio. Foi assim em França, onde já não se podem montar presépios nas escolas; em Espanha, onde o PP acabou a questionar-se sobre se deve ou não se contar a história de Pelágio nas grutas de Covadonga e de caminho que posição tomar sobre a expulsão do “Capuchinho Vermelho” das bibliotecas escolares. Por cá, o problema nem se coloca: sobre o que ideologicamente está a acontecer nas escolas nem uma palavra. E falar da qualidade do ensino ainda menos pois logo vinha a acusação da direita retrógrada que defende os exames e consequentemente o sofrimento das criancinhas e suas famílias.

Sendo que já vai longa a lista das obscuras motivações que levam a direita a manifestar-se – obscuras motivações essas de que a direita fez seu principal objetivo demarcar-se nem que para tal tenha de ficar calada e tolhida quanto a tudo mais – não se pode deixar de referir esse verdadeiro estigma que é ser de direita liberal pois, como se sabe, a direita liberal tem uma irmã escondida no armário que é a direita dos interesses, a tal que quer destruir a escola pública, o SNS… e reduzir os portugueses à miséria, à doença e à ignorância que lhe estão garantidas caso os serviços pagos pelos contribuintes – vulgo serviços públicos gratuitos – deixem de ser prestados por organismos estatais.

O acantonamento da direita nesta matéria é tal que perante a passividade das instituições, o pendor esquerdista de boa parte dos jornalistas, a incapacidade de concentração do Presidente da República e as contas de somar e diminuir votos do espaço à direita do PS (é preciso esclarecer que a direita em Portugal não existe, o que existe é o espaço à direita do PS), Portugal tornou-se uma ditadura fiscal, com a Autoridade Tributária a ter acesso a um nível de informação sobre a vida de cada um de nós que faz de qualquer polícia política um grupo de amadores.


Esta monstruosidade vai obviamente revelar-se na sua tirania quando afetar a pessoa-empresa errada. Ou quando se perceber o impacto entre as pequenas e médias empresas desta devassa fiscal. Até lá vai acrescentando o seu poder. Porque denunciá-la, tal como tem acontecido a todos aqueles que ao longo dos anos têm alertado para a insustentabilidade da Segurança Social nos atuais moldes, leva a que logo surja a acusação de não se estar a querer discutir a sustentabilidade da Segurança Social, mas sim a querer fazer negociatas com as seguradoras.

Poderia juntar centenas de exemplos. E todos eles levam à mesma conclusão: chamem-se como quiserem, mas façam alguma coisa!
Título e Texto: Helena Matos, Observador, 14-4-2019

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